Inversão dos polos magnéticos da Terra: seria este o fim da humanidade?

Por Ligia Andrade (ligia.andradem@gmail.com)
Imagem: Mariah Lollato / Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Em 9 de março de 1500, 13 caravelas da frota portuguesa, lideradas por Pedro Álvares de Cabral, zarpam de Lisboa na esperança de encontrar uma nova rota para as Índias. Na mão do capitão lusitano, uma bússola. O artefato simples, embora de suma importância, é composto por uma agulha que, sincronizada ao magnetismo terrestre, aponta para o norte geográfico.

Mas nem sempre foi assim. A bússola, ou melhor, o conceito da bússola como a conhecemos hoje, foi inventado pelos chineses no século 1. Se fosse elaborada, porém, 780.000 anos atrás, sua agulha apontaria, na verdade, para o sul geográfico. Isso porque os polos magnéticos da Terra encontravam-se em posição inversa à atual, ou seja, o polo norte da época era o nosso polo sul de hoje, assim como o polo sul de lá seria o nosso polo norte de cá.

A partir de 1600, inicia-se o estudo do campo magnético e, com ele, constata-se que este já sofreu inversão de seus polos cerca de 170 vezes ao longo de 100 milhões de anos. Pesquisas ainda são desenvolvidas para a melhor compreensão do fenômeno, enquanto teorias são lançadas sobre as consequências de uma nova inversão dos polos.

Mas, afinal, por que este assunto preocupa tanta gente?

Basicamente, o campo magnético que envolve a Terra é responsável por proteger a vida em nosso planeta e, caso ocorresse a inversão dos polos magnéticos e sua intensidade decaísse, isto poderia acarretar um grande perigo à sobrevivência da humanidade e quase todas as formas de vida que conhecemos hoje. Para melhor entendimento da questão, é preciso analisarmos mais de perto a função do campo magnético, assim como as consequências que uma inversão dos polos poderia causar e, por fim, se devemos ou não nos preocupar.

 

Campo Magnético: o escudo da vida terrestre

 

A Terra é o lar de inúmeros seres vivos, desde aqueles que respiram o oxigênio da água até aqueles que o liberam através da captura de dióxido de carbono na atmosfera. Seres unicelulares e pluricelulares, procariontes e eucariontes, autótrofos e heterótrofos vivem e convivem sobre a crosta terrestre tranquilamente, realizando seus mais diversos ciclos de vida.

É difícil imaginar que, circulando ao redor deste planeta com condições ideais para a proliferação da vida, haja um ambiente totalmente inóspito e perigoso. Radiação e ventos solares, bem acima do voo dos pássaros, ameaçam constantemente a nossa existência, que só é garantida por um único motivo: o campo magnético terrestre. Como uma de suas funções é proteger a atmosfera, ele impede que tais materiais entrem no planeta e causem consequências seríssimas ao nosso ambiente e seres vivos.

Essa espécie de escudo magnético é formada bem abaixo dos peixes, mais precisamente no núcleo da Terra. Nosso núcleo está a cerca de 3.000 km de profundidade da crosta terrestre, tem muito ferro e é muito, muito quente. Essa alta temperatura, que cientistas afirmam ser quase a mesma da superfície solar (6.000ºC), acaba ionizando o ferro presente na parte líquida do núcleo externo, ou seja, deixa átomos de ferro com carga positiva. Estes átomos movem-se em um movimento chamado de “convecção”, no qual íons mais quentes sobem e íons mais frios descem, e o Efeito Coriolis, como é chamado o fenômeno responsável por criar redemoinhos (como furacões, por exemplo), faz com que os íons também realizem tal movimentação. Esses deslocamentos produzem correntes elétricas que, por sua vez, produzem campo magnético.

Uma vez gerado o campo magnético, que tem extensão cinco vezes maior que o raio do nosso planeta (ou, aproximadamente, 30.000 km), a Terra pode ser considerada um enorme ímã, no qual atuam dois polos: o norte e o sul. Nesses polos, o campo magnético apresenta sua maior intensidade de força magnética. Por isso, acabam atraindo partículas carregadas vindas do sol e ionizando-as, o que as impede de atingir a atmosfera terrestre e cria o fenômeno das auroras boreais.

As auroras boreais podem ser vistas a olho nu nas regiões polares. Foto: Reprodução.

Polo sul ou polo norte?

 

O campo magnético é invisível aos olhos humanos. A bússola é um instrumento que permite sua “aparição”, porém não é o único, e muito menos o melhor. Há no planeta um material capaz de marcar a ação do campo magnético e demarcar a direção para a qual os polos apontam em determinada época, e se engana quem pensa que este material esteja em laboratórios tecnológicos super avançados. Em realidade, podem ser encontrados na natureza: são as rochas.

As rochas são grandes indicadores da direção dos polos magnéticos em diferentes eras, isso porque a lava, devido a sua alta temperatura, não possui magnetismo, mas quando começa a se resfriar, o ferro e o níquel nela presentes passam a se alinhar com o campo magnético terrestre até a solidificação da rocha. Assim é preservada a direção no momento em que ela é formada.

Com isso, pesquisadores puderam analisar diversas rochas ao longo de 100 milhões de anos. Em algumas delas, a direção apontava para o sul geográfico, o que demonstrava que os polos magnéticos terrestres estavam invertidos em relação aos atuais. Já em outras, a direção apontava para o norte geográfico, confirmando a hipótese da inversão.

Marcia Ernesto, professora doutora titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP e que estuda a questão do paleomagnetismo (estudo da evolução do campo magnético e polaridade terrestre em épocas geológicas passadas), explica, afinal, o porquê de os polos se inverterem: “Os processos que geram o campo magnético da Terra no núcleo externo são muito dinâmicos e variáveis. Numa visão simplificada, é como se existissem vários sistemas de correntes elétricas e seus campos magnéticos associados, e essas correntes variassem de intensidade às vezes um campo magnético vai se sobrepor a outro”.

 

Teorias e profecias

 

No século 17, a comunidade científica elaborou uma teoria que ficou conhecida como “Teoria da Terra Oca”, tendo como um de seus primeiros apoiadores Edmund Halley. Segundo Halley, o interior da Terra seria oco, comportando quatro esferas, uma dentro da outra, o que poderia explicar variações no campo magnético, além de ser habitado e possuir atmosfera própria. Muitas outras teorias surgiram complementando a de Halley. John Symmes, americano e um dos mais ferrenhos defensores da ideia, acabou até mesmo levando o governo dos EUA a explorar os polos em busca de uma entrada para este “mundo subterrâneo”. Infelizmente, nada do tipo foi encontrado.

Representação de como seria a entrada para o interior da Terra através dos polos. Imagem: Reprodução.

Muitas profecias já marcaram o fim do mundo. Em 2012, o medo foi tão grande que acabou por produzir filmes, documentários, e muitas teorias. Utilizando-se das Profecias Maias, nas quais o calendário teria fim em 2012, criou-se a especulação de que os polos magnéticos da Terra se inverteriam naquele ano, o que provocaria o extermínio de toda a humanidade. Com certo respaldo científico, o tema tornou-se recorrente, e muitos começaram a crer na possibilidade da concretização profética. Felizmente, os polos magnéticos não chegaram a se inverter na ocasião.

Há também a teoria de uma relação entre a inversão dos polos e o cérebro reptiliano. Segundo ela, a inversão dos polos magnéticos seria capaz de mexer com uma parte do cérebro humano ligada ao magnetismo terrestre, deixando pessoas com temperamentos variados e atípicos. Os psicanalistas Luiz Roberto Dal Poggetto e Renata Gracioso Dal Poggetto, por um canal no youtube chamado “Nós e O Universo”, comparam estatísticas da violência urbana crescente em diferentes épocas, e sustentam a tese de que ela cresce justamente por causa de uma inversão dos polos magnéticos da Terra que já estaria em curso. Apesar de se apoiar em teorias científicas, não foi comprovada.

 

Já passou da hora de inverter?

 

Segundo pesquisadores, uma inversão dos polos magnéticos não tem data certa para ocorrer. No entanto, alguns consideram 500 mil anos como o intervalo mais regular entre inversões. Considerando que a última já ultrapassa essa média de anos, seria correto afirmar que estamos à iminência de uma nova inversão?

Em conversa com Igor Ivory Gil Pacca, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Geofísica, o professor emérito do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP afirma: “A última vez que aconteceu foi há 780.000 anos. Agora, quando será a próxima, nós não sabemos”.

“Não é possível fazer previsão porque as inversões são frequentes no tempo geológico, mas os intervalos de polaridade tem duração variável”, Marcia Ernesto responde. A respeito da iminência de uma inversão dos polos magnéticos, conclui: “Pode ser que estejamos caminhando para uma nova inversão”.

Atualmente, pesquisas apontam que estamos em um Cron, como é chamado o período em que os polos se encontram estáveis. Cerca de 95% de nosso campo magnético, gerado no núcleo externo da Terra, encontra-se em estado característico de dipolo, ou seja, com os dois polos, norte e sul, regulares.

No entanto, há uma mancha no Atlântico Sul do planeta que não está apresentando estes mesmos dados, o que poderia ser o primeiro indício de uma inversão dos polos magnéticos da Terra.

 

Apontando para o perigo: anomalia magnética no Brasil

 

Em um mar de perguntas que ainda não têm respostas, surge uma anomalia no Oceano Atlântico que pode dar novas cores à questão. Derramando-se sobre o território brasileiro e estendendo-se pelo Oceano Atlântico, a Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS) cobre uma grande área na qual o campo magnético apresenta quedas de intensidade.

Segundo Daniele Brandt, física do Laboratório de Paleomagnetismo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, em entrevista para a Rádio USP, se pudéssemos colocar uma bússola perto do núcleo externo terrestre na área da Anomalia, ela apontaria ao contrário, ou seja, para o sul geográfico. Já na crosta terrestre, os efeitos não são drásticos, mas mesmo assim já podem ser sentidos.

“Por ser uma região de intensidade do campo magnético diminuída, nessa área existe menor proteção contra raios cósmicos mais energéticos”, revela a doutora Marcia Ernesto. “Por causa disso, é maior a incidência de pane em equipamentos eletrônicos em satélites e outros artefatos que orbitam a Terra”.

O Telescópio espacial Hubble, lançado em 1990, é uma das vítimas dessa anomalia. Responsável pela descoberta de inúmeros corpos celestes, Hubble, ao passar pela área encoberta pela AMAS, precisa fechar alguns de seus instrumentos para que estes não sejam danificados.

O Campo Magnético na região da Anomalia Magnética do Atlântico Sul segue enfraquecendo, enquanto a causa deste enfraquecimento continua na fase de pesquisas. Felizmente, a crosta terrestre, onde vivemos, não sofre sérios danos, segundo Marcia Ernesto.

“O centro da anomalia está cruzando a América do Sul e já está deixando o Brasil. Nenhum efeito significativo pode ser notado, a não ser pelo fato de estarmos numa região de campo magnético mais fraco”. Apesar disso, a doutora afirma que, caso a anomalia se intensificasse, verificar-se-ia “maior incidência de problemas em satélites e menos proteção contra raios cósmicos”.

Alguns cientistas acreditam que a anomalia possa vir a ser o começo de uma inversão dos polos magnéticos. Apesar de não ser comprovada, uma vez que a previsão da inversão ainda é impossível, a hipótese se deve ao fato de que, através de dados paleomagnéticos, verificou-se que antes de uma inversão dos polos ocorre a diminuição da intensidade do campo magnético, como acontece na AMAS. Assim, o campo diminui paulatinamente de intensidade até que a inversão se conclua.

Área coberta pela Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS). Imagem: Reprodução.

Consequências da inversão

 

Inversões dos polos magnéticos já aconteceram e, sem dúvidas, acontecerão novamente. Cedo ou tarde, nosso campo magnético diminuirá paulatinamente sua intensidade até que o processo de inversão se finalize. E quando isso ocorrer, o que acontece?

Segundo Igor Pacca, nada. Para o professor, após uma inversão existiria uma única e indiferente consequência: “Existem duas possibilidades de campo magnético da Terra: uma é com essa polaridade e a outra é com a polaridade oposta. Quer dizer, a situação seria a mesma”.

Uma vez restabelecido o dipolo, não haveria com o que nos preocuparmos. A bússola passaria a apontar para o sul geográfico, porém isso não afetaria de maneira drástica quaisquer atividades relacionadas a ela; ainda seria possível a localização do norte, do leste e do oeste. Devemos analisar, todavia e imprescindivelmente, as consequências que se dariam durante a inversão dos polos magnéticos.

Uma inversão pode levar, segundo os pesquisadores, mais de milhares de anos para se completar. Como dito antes, o campo magnético tem sua intensidade diminuída durante a inversão, o que significa que, no cenário em que ela se inicia, nosso campo permaneceria enfraquecido por muitas e muitas gerações. Dependendo da intensidade que chegasse a atingir, os danos poderiam ser incalculáveis.

É possível analisarmos as consequências sobre três camadas distintas: a tecnologia, o ser humano e os animais que se guiam pelo campo magnético.

Sobre a tecnologia, as consequências poderiam ser catastróficas. Satélites precificados em bilhões orbitando o planeta seriam danificados pela radiação. Aeronaves que voassem por áreas nas quais a intensidade do campo fosse muito diminuta enfrentariam, também, a radiação, embora em escala menor por estarem abaixo dos satélites, e danos ao sistema de comunicação poderiam ser sentidos, trazendo insegurança a todos a bordo.

Já sobre a crosta terrestre, os danos não seriam percebidos com tanta intensidade caso o campo atuasse em condições normais. Em uma adversidade, porém, como em uma tempestade solar, eles seriam bem maiores. “Quanto mais fraco o campo, maiores são os efeitos das tempestades solares sobre a Terra”, explica Marcia Ernesto. Segundo ela, a comunicação em geral seria comprometida. Redes elétricas, por exemplo, sofreriam sérios danos.

Sobre nós, os seres humanos, a maior entrada de radiação permitida pela baixa intensidade do campo magnético implicaria, possivelmente, maior incidência de câncer. Isso porque a radiação, em certo comprimento de onda, tem a capacidade de danificar o DNA das células, o que causa a doença. Segundos estudos feitos com sobreviventes de explosões de bombas atômicas (para se ter ideia, o plasma expulso pelo Sol e que tem suas partículas contidas pelo campo magnético da Terra equivale à explosão de milhares de bombas atômicas), o risco de câncer é maior conforme a exposição à radiação é mais elevada, e também que os tipos mais comuns de câncer nesses pacientes são o hematopoiético (medula óssea), o tiroidiano, o mamário e o ósseo. Pessoas expostas à radiação na infância, especialmente, têm maior tendência a apresentar esse quadro.

Ademais, nossos olhos possuem receptores magnéticos e, como trabalhos científicos apontam, quando ocorrem perturbações no campo magnético podemos desenvolver problemas vasculares e hormonais.

Além do dano causado à tecnologia e ao ser humano, seres vivos que se guiam pelo campo magnético, como os morcegos, poderiam ser afetados. A pesquisa da ligação do campo magnético com a biologia teve início em 1950, através do estudo de pombos correios, sob a hipótese de que os pombos utilizavam o campo para obterem informações sobre suas trajetórias. O estudo com esses animais não atingiu conclusões satisfatórias, o que se deu posteriormente com a descoberta de bactérias que nadam na direção das linhas do campo magnético (magnetotactismo).

Igor Ivory Gil Pacca explica o que aconteceria a esses seres vivos durante a inversão: “Talvez alguns seres vivos como bactérias, por exemplo, que andam no mar e usam o campo magnético para achar alimento, tivessem que se adaptar. Mas uma reversão não ocorre da noite para o dia, deve demorar pelo menos uns 1000 anos. Então, durante esse período, esses organismos se organizariam com o novo campo”.

Em animais maiores, a influência do campo magnético ainda é pouco conhecida, embora se saiba que ela, de fato, existe. Acredita-se que diversos seres vivos consigam usar o campo como uma bússola. Com a inversão dos polos, essa bússola passaria a apontar na direção contrária, o que poderia confundi-los e impor mais obstáculos a sua sobrevivência.

Nos anos 1980, biólogos relacionaram uma maior taxa de encalhamentos de baleias a anomalias magnéticas vigentes. Isso porque, com o campo magnético atuando de maneira adversa, a bússola natural das baleias teria sido desregulada, o que as levaria à direção errada: águas rasas.

Pássaros em migração, vacas pastando e até mesmo cães defecando utilizam-se do campo magnético para orientação.

Sem dúvidas, com a inversão dos polos em curso, o mundo teria de passar por grandes adaptações.

 

Calmaria em meio ao mar de possibilidades

 

Embora possamos elencar diversas consequências que uma inversão poderia causar, ainda não se sabe ao certo o que de fato aconteceria. Pesquisas continuam sendo feitas para entender o passado e tecnologias continuam sendo desenvolvidas para prever o futuro.

Para Marcia Ernesto, a inversão dos polos não é capaz de zerar a intensidade do campo magnético terrestre. Caso isso viesse acontecer, nosso planeta poderia se transformar em uma espécie de Marte, no qual o campo magnético, ao parar de existir, permitiu com que partículas espaciais adentrassem sua atmosfera e o transformassem no planeta radioativo e inabitável que hoje conhecemos:

“Os estudos indicam que quando o campo inverte a polaridade, os polos se deslocam, mas o campo, embora mais fraco, não desaparece, ou seja, não chega a ser zero. Sendo assim, o efeito para a superfície da Terra [em uma inversão] não seria muito grande”.

Mesmo assim, o assunto continua a intrigar aqueles que nunca haviam ouvido falar sobre a possibilidade de uma bússola apontar para outro lugar ao invés do norte. Quem sabe não foi por causa de uma anomalia magnética que, em 1500, Pedro Álvares Cabral mudou a rota de suas caravelas das Índias e foi parar do outro lado do oceano, no Brasil?

Brincadeiras à parte, a inversão dos polos magnéticos da Terra é uma certeza. Quando e como ela se dará, ainda precisamos descobrir.


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