A antropologia forense de “Bones”

Por Karina Merli  (karina.merli@gmail.com)

A série “Bones” surgiu em 2005, no canal FOX, sem grandes projeções. Mas, para a surpresa da emissora, o drama cativou o público: garantiu 12 temporadas e 246 episódios de crimes, corpos irreconhecíveis e pura ciência! A série conta a história de Temperance Brennan (Emily Deschanel), antropóloga forense do Instituto Jeffersonian, que junto com a sua equipe, ajuda o agente Seeley Booth (David Boreanaz), do FBI, a desvendar crimes cujos corpos estão desfigurados, em avançado estado de putrefação ou esqueletizados.

Diante de uma trama envolvente e várias sacadas geniais das personagens, o fã da série se pergunta: será que isso é realmente verdade? E como funciona na vida real?

 

A história e a preocupação com a ciência na trama

A série surgiu a partir dos livros e da vida da antropóloga forense, Kathy Reichs, que, assim como Brennan, escreve romances policiais nas horas livres. Curiosamente, a personagem principal da trama é também a de seus livros. Em contrapartida, na atração da FOX, Reichs acaba sendo a protagonista dos livros de Bones (apelido dado por Booth à Brennan, na série).

As obras da antropóloga da vida real atraíram propostas de emissoras. No entanto, nenhuma atendia às expectativas que a autora tinha, até, finalmente, a FOX fazer uma boa oferta e o seu agente dar o respaldo.. Ela acabou se tornando uma das produtoras do seriado, junto com Hart Hanson. Sempre era consultada sobre a personagem principal e os procedimentos científicos, algo com que ela possuía grande preocupação.

Para o professor da Faculdade de Odontologia da USP (FOUSP), Rogério Nogueira de Oliveira, essa questão não é fundamental, mas ressalta a importância para despertar o interesse nas pessoas. “Eu não sou crítico nesse sentido… Até porque todo mundo sabe o que é uma ficção. O que eu acho que seria inadequado é um documentário fantasiar (…) De qualquer forma, acho que essas séries podem ser importantes para despertar um interesse na pessoa e que, às vezes, vai [buscá-lo] na universidade.”

Além desse compromisso com a ciência, em vários episódios é possível encontrar referências à vida real. Por exemplo, logo no primeiro episódio, Brennan comenta que só há uma antropologista que chega perto das capacidades dela e que ela vive em Montreal, local que, por um acaso, é onde se passam as histórias dos livros de Reichs. Uma de suas estagiárias, cujo nome é Daisy Wick, na vida real também era o nome de uma vítima de assassinato, crime que não foi solucionado até os dias atuais. Além disso, o Instituto Jeffersonian tem uma referência verídica, o Instituto Smithsonian dos Estados Unidos.

Imagem: Laura Alegre/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

A antropologia forense

A antropologia forense tem como objetivo identificar um corpo nas seguintes situações: avançado estado de putrefação, desfigurado ou esqueletizado. Ela também contribui no esclarecimento das circunstâncias e da causa da morte. O profissional da área pode atuar em diferentes frentes, como a reconstrução facial, manipulação dos ossos (busca da identidade ou levantamentos biológicos) e na análise de traumas. Neste último, analisa-se o traumatismo ósseo com cadáveres não esqueletizados.

No que tange à identificação, de acordo com o professor da FOUSP, existem dois tipos: “[Há] o processo de identificação geral, onde as respostas vão ser no sentido de falar sexo, idade, estatura, quer dizer, [dará] um perfil do indivíduo que está sendo identificado, mas não dá o nome [dele]. [O outro é dar] o nome e esse processo é chamado de individual.”

Só se chega à identidade individual – sem depender de outros métodos – ao realizar comparações com documentos apresentados pela família, como prontuários odontológicos, pelo DNA ou pela datiloscopia (identificação por meio das impressões digitais), que, aliás, são os métodos primários de identificação da Interpol. No seriado, os dois primeiros são os mais recorrentes, justamente pelo estado em que os corpos chegam ao Instituto Jeffersonian. Há também a possibilidade de se basear em marcas de cirurgias, traumas e alterações anatômicas de nascença.

Já para estabelecer o perfil, a morfologia dos ossos é bastante útil. Por meio dela, o antropólogo consegue estipular o sexo (pela pelve ou pelo crânio), a ancestralidade (pelo crânio), a altura (com base no tamanho dos ossos) e a faixa etária (de acordo com o estado das articulações) e, em alguns casos, até a destreza manual. “Podemos ajudar na determinação da causa morte, por exemplo. [Também] podemos saber, inclusive, há quanto tempo aquele corpo está naquele local”, complementa o doutor Alexandre.

Em Bones, às vezes, parece que os ossos falam com a Dra. Brennan sobre os crimes. Na vida real, isso também é possível, de acordo com Deitos. Ele relata como isso, normalmente, é realizado: “ Nós nos baseamos em métodos primários de identificação, que são aqueles que não necessitam de outros para serem confirmados.”

“No contexto da antropologia forense, os métodos utilizados são: os de DNA e os de odontologia legal. Desde que se tenha dados ante mortem, ou seja, se eu tenho dados da época em que a pessoa era viva, como por exemplo, um prontuário odontológico, com o qual eu possa comparar com os achados [extraídos] daquele esqueleto, eu posso sim, identificar,” complementa. O registro fotográfico da vítima sorrindo ou a reconstrução facial também podem contribuir no processo de identificação.

Neste último caso, na ficção, a Dra. Brennan conta com o poderoso software criado por Angela (Michaela Colin), o Angelator. No dia a dia dos antropólogos da realidade existem softwares de ponta, mas também é possível realizar a reconstrução por meio da plastilina, como conta Deitos: “Existem várias técnicas de reconstrução facial. Podem ser métodos físicos — plásticos — que a gente faz com plastilina sobre uma réplica do crânio ou podem ser métodos digitais, em que são realizados exames de imagem, podendo inserir uma imagem do crânio dentro de softwares computacionais e, a partir disso, fazer reconstruções digitais em 3D.”

“A reconstrução da face de uma pessoa é baseada em tabelas de espessura de tecidos moles, de acordo com a população de cada país. No caso do Brasil, são realizados estudos populacionais para saber qual é a espessura da face do brasileiro em dezenas de pontos pré-concebidos. Sabemos que cada ponto tem uma certa espessura e, a partir disso, se coloca essa espessura em cada ponto, fazendo as reconstruções faciais científicas.”

Mas nem sempre esses dados existem. O especialista aponta que, nesses casos, acaba-se utilizando o DNA também, que é comparado com algum possível familiar.

Na série da FOX, é nítido que, em alguns episódios, as personagens se identificam ou sentem empatia pelas vítimas. No entanto, na prática, há um treinamento e intenso cuidado para que não ocorram esses tipos de situações. “Procuramos estabelecer um certo distanciamento exatamente para que possamos colocar, no nosso laudo, somente aquilo que possamos provar, só a verdade. Nós evitamos esse vínculo emocional.”

Esta ciência forense, porém, precisa das demais para atuar da melhor forma possível. “É um campo multidisciplinar. Então, ela combina a antropologia física, a arqueologia, (…) a odontologia e a patologia forenses, além da criminalística.”

“Basicamente, [há a] aplicação de conhecimentos científicos em uma investigação de caráter forense, ou seja, em uma investigação legal. Nela, tentamos estabelecer o perfil biológico daquele indivíduo, visando a identificação, mas também auxiliamos na determinação da causa mortis e na estimativa de intervalo post-mortem (há quanto tempo aquele corpo está ali),” explica o especialista.

Ela também é utilizada para conceder identidade a crianças imigrantes ou refugiadas sem documentação.

 

Uma escolha para a vida inteira

Oliveira, assim como Brennan, acabou escolhendo a sua faculdade por conta da família. “Foi uma questão familiar… Meu avô, tios e, na época que eu estava prestando vestibular, meu irmão era recém-formado [em odontologia], mas já tinha sido contratado como auxiliar de ensino e [iniciado] também a carreira acadêmica na área, na Unesp, em Araraquara.”

A escolha da odontologia legal, como especialização, acabou aparecendo ao longo do curso, como relata: “Eu fiz uma faculdade particular em Araras e, na época, quem era o coordenador da área de odontologia legal era o professor Daruge, que foi um dos pioneiros, um dos ícones da odontologia legal.”

“Ele era sempre muito entusiasmado com a disciplina e também [havia começado] um curso de pós-graduação. Então, eu tive a oportunidade de além de ser influenciado pelo próprio professor, [acompanhar], na primeira turma dele de pós-graduação, profissionais do Brasil inteiro, que eram alunos e que circulavam também lá na minha faculdade com as suas experiências… [Logo], esse campo, essa possibilidade de atuação pericial ou mesmo processual, no aspecto cível, realmente me motivou.”

Já no caso do perito criminal federal e representante brasileiro da área de Identificação de Vítimas de Desastres (DVI) na Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol), Alexandre Raphael Deitos, o interesse surgiu conforme as portas da profissão foram se abrindo e com as especializações. “Uma [das razões foi o] trabalho, depois que eu entrei na Polícia Federal, por meio de concurso público, tive a oportunidade de trabalhar  nisso.”

“A outra é que a gente também procura estudar, então, [eu fiz] especialização na área — mestrado e doutorado [em odontologia legal] — para que pudesse melhorar a qualidade do meu trabalho.”

Por outro lado, na ficção, o que motivou a personagem a seguir a área de antropologia forense foi o fato de ter perdido os pais na adolescência. Algo que a faz parecer fria por conta da sua acentuada racionalidade, mas, na verdade, serve para se proteger do sofrimento de amar alguém e se decepcionar.

 

Como é no Brasil

Por aqui, a realidade da área científica nunca foi fácil e a antropologia forense não ficou de fora. Porém, apesar dos entraves, a área se expandiu e é mais conhecida, hoje em dia. Como um dos grandes trabalhos em que ela está se destacando, pode-se citar a identificação das ossadas de Perus, que permanece sendo realizada. O núcleo de pesquisa responsável — Grupo de Trabalho de Perus  (GTP) — surgiu em 2014 na Unifesp e Deitos faz parte dele.

Após quatro longos anos de trabalho, o primeiro corpo foi identificado pelo GTP. “Essa vala continha 1047 caixas e estamos analisando-as desde 2014. Neste ano, em fevereiro, tivemos a primeira identificação do Grupo de Trabalho Perus — dessa vala de Perus — e foi a identificação do Dimas Casemiro. O trabalho ainda continua, a  gente já analisou boa parte dos remanescentes ósseos, porém, ainda tem muito mais material para analisar,” relata o perito.

Dimas Casemiro foi morto aos 25 anos de idade, vítima de tortura, ao longo da Ditadura Militar (1964-1985). Ele foi militante da Vanguarda Armada Revolucionária de Palmares (VAR-Palmares) e do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Desde os anos 1990, quando foi descoberto este cemitério ilegal, apenas quatro corpos foram identificados. Há também o Grupo de Trabalho do Araguaia (GTA), em que se busca identificar as ossadas dos guerrilheiros comunistas mortos ao longo do mesmo período.

 

Ossadas encontradas em Perus (Foto: Matuiti Mayezo/Folhapres)

Os trabalhos, no país, são regidos de acordo com as normas da Interpol e quem é responsável pelo treinamento é a própria Polícia Federal, como comenta o perito criminal federal: “A Polícia Federal (…) é a difusora dessa doutrina. Por meio da sua Academia Nacional de Polícia faz os treinamentos, não só dos policiais federais, mas também das perícias dos estados sob o protocolo da Interpol.”

Ele ainda destaca que a área no país é de primeiro mundo e vê com otimismo o seu futuro. “As pessoas estão buscando uma melhor formação, estão fazendo cursos de especialização (mestrado e doutorado), novos cursos estão surgindo exatamente para que o trabalho que é oferecido pelo estado brasileiro, pela Polícia Federal e pelas perícias estaduais venha a melhorar a cada dia. (…) Nós vislumbramos um excelente futuro para a antropologia forense.”

Ademais, as pesquisas sobre o crânio do brasileiro também têm avançado. Por conta da miscigenação, a ancestralidade, por vezes, é bastante desafiadora de ser estipulada e o estabelecimento de padrões ainda está em constante estudo.

De acordo com a “Revista História, Ciência e Saúde”, o país também já possui um sistema de coleta de dados genéticos, em especial, para casos de crimes hediondos e de pessoas desaparecidas — com a doação de material genético por parte de algum parente. O que é bastante útil para o trabalho do antropólogo forense.

Trabalho este fundamental para saber as verdades de nossa história, como destaca o perito criminal: “A antropologia forense é uma ciência realmente muito importante [para] os Direitos Humanos.”

Assim como Bones que chegou ao fim no último ano (2017), esta matéria também chega ao seu.


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