Sonhos Elétricos: onde sonhos tornam-se realidade

Por João Pedro Malar (joaopedromalar@gmail.com)
Foto: Letícia Vieira/Audiovisual – Jornalismo Júnior

Qual é a fronteira entre a ficção e o mundo real? Essa é a grande questão abordada em Sonhos Elétricos, coletânea de dez contos escritos por Philip K. Dick lançada no Brasil em 2018 pela Editora Aleph. Dick é um dos maiores nomes da ficção científica mundial, com diversas obras transformadas em filmes e séries. No caso, os contos também foram adaptados para uma série de dez episódios, Philip K. Dick’s Electric Dreams, lançada em 2017 no Reino Unido e em 2018 mundialmente.

Em todos os contos é possível notar que Dick tem a incrível habilidade de contar uma história complexa, sedutora e intrigante, fornecendo apenas o mínimo de contextualização. O leitor é jogado em um mundo novo a cada história, mas todas elas possuem um ponto em comum: o uso de um ambiente ficcional para retratar dilemas e características puramente humanas. O estranhamento inicial com a leitura vai sendo substituído por um fascínio, uma curiosidade e, no fim, somos deixados com mais perguntas do que respostas. Mas quais são esses contos e seus temas abordados?

O primeiro conto do livro é Peça de Exposição, publicado em 1954. Nele, somos apresentados a George Miller, um funcionário da Agência de História que tem como trabalho cuidar de uma exposição que retrata os meados do século 20. Miller vive em uma sociedade futurista controlada por um governo extremamente autoritário, e é visto com maus olhos por sua extrema devoção ao período que busca representar na exposição, e pelo qual ele é apaixonado. Um dia, porém, Miller se vê transportado exatamente para essa época, e então começa a questionar o que é real e o que não é, ao mesmo tempo em que lida com um grande dilema: voltar para a sua realidade original ou continuar nesse espaço que pode, ou não, ser verdadeiro?

A temática central desse conto é a questão da percepção humana. É comum que o homem não goste da realidade na qual está inserido e então busque escapismos e distrações. Mas o que acontece quandos esses escapismos tornam-se reais demais? E quando eles se transformam na nossa vida? Peça de Exposição apresenta exatamente essas questões, e mostra respostas interessantes para elas. No fim, não há como não sentir um pouco de empatia por Miller, e adquirir um inevitável questionamento: baseamos nossa vida em uma realidade ou em ilusões e sonhos? A pergunta é universal. A resposta, não.

O segundo conto é Autofab, publicado em 1955. O enredo gira em torno de uma sociedade à beira do colapso, formada por sobreviventes de uma guerra nuclear global. Durante o conflito foram criadas diversas fábricas, gerenciadas apenas por um sistema pré-programado e totalmente computadorizado, que têm o objetivo de gerar todos os suprimentos necessários para a sobrevivência humana. O problema é que, ao realizar essa produção, as fábricas passam a consumir desenfreadamente os recursos existentes na Terra, ameaçando assim a espécie humana. A partir daí acompanhamos um grupo de sobreviventes que buscam desativar esse sistema de produção, e as consequências graves dos seus planos.

Autofab trabalha, principalmente, com a falta de preocupação que nós temos com as consequências daquilo que fazemos e criamos. Primeiro, em relação à criação das fábricas, segundo, em relação às tentativas de desligá-las. Ao focar tanto no problema e em resolvê-lo é comum que as pessoas esqueçam das consequências dessas soluções, e o conto mostra exatamente porque isso é algo tão ruim e que deve ser evitado. O final da história, extremamente anticlimático, nos ensina que, na maioria das vezes, não basta apenas ter uma boa intenção para realmente fazer algo de bom.

O terceiro conto é Humano É, também publicado em 1955. A premissa da história é simples: o que você faria se o seu marido fosse substituído por alguém que é igual a ele fisicamente, mas completamente diferente por dentro? É isso que acontece com o marido de Jill Herrick, Lester, que muda por completo depois de fazer uma viagem para outro planeta. A grande questão é que esse “novo” Lester é muito mais educado, carinhoso e amoroso que o anterior. Jill então enfrenta um dilema: denunciar a substituição e retornar a sua vida anterior, triste e monótona, ou ficar com esse substituto, apoiando uma farsa?

Dick trabalha, nesse conto, com duas questões básicas na nossa sociedade: o que é ser humano e o que é o amor? Na superfície, não há como negar que Lester Herrick é humano e o seu substituto, não. Porém, o enredo explicita que esse novo Lester tem aspectos humanos, e não alguém frio, distante e mecânico. A situação, então, se inverte: o alienígena é muito mais humano do que o humano. Partindo disso, estaria Jill errada em não amar o seu marido e amar o extraterrestre? Afinal, amamos apenas pessoas? E quando alguém não se comporta como uma pessoa, ele continua sendo uma? E se um outro ser vivo for mais empático, emocional, carinhoso, ele possui um comportamento mais humano que esse alguém? Essas são as muitas questões deixadas por Dick, e mais uma vez as respostas partem de cada leitor.

O quarto conto é Argumento de Venda, publicado em 1954. Aqui, somos apresentados a uma sociedade futurística marcada por um capitalismo exacerbado e desregulado, onde não há o menor respeito pelos limites ou moralidade na tentativa de se vender um produto. Quem se cansa dessa sociedade é Ed Morris, um trabalhador que todo dia é levado à exaustão por anúncios invasores ao longo do percurso para o seu trabalho, da Terra para uma das luas de Júpiter. Isso faz com que Ed comece a cogitar uma viagem só de ida para um sistema distante, onde poderia ter uma vida mais pacífica, mesmo que mais rudimentar. Tudo piora quando um robô invade a casa de Ed para tentar se auto vender, o que cria uma cadeia de eventos culminando em um dos finais mais tristemente engraçados do livro.

Nesse conto, Dick assume uma visão mais crítica da sociedade na qual ele estava inserido, em especial em relação ao consumismo desenfreado característico dela. Para ressaltar o quão negativo ele acha que esse cenário é, o autor o leva ao extremo. Aqui, Dick parece muito mais dar um aviso do que trazer um questionamento: o modo de produção e consumo da nossa sociedade, ambos em crescimentos exponenciais, são insustentáveis, e irão culminar no fim da espécie humana se nada for feito para transformá-los.

Em seguida vem o conto O Fabricante de Gorros, publicado em 1955. Este é um dos contos com mais ação e suspense da obra, e que conta com uma grande reviravolta no final, tudo muito bem trabalhado por Dick. A história se passa no século 20, quando uma minoria da população adquire a capacidade de ler mentes após um acidente nuclear. Esses indivíduos, chamados de teeps, passam a ser usados como uma ferramenta de controle pelo governo, mas na verdade planejam assumir o comando da sociedade. Tentando evitar que isso aconteça está o misterioso fabricante de gorros, que produz tiras de metal capazes de bloquear a telepatia dos teeps, enviando-as para diversas pessoas. Uma dessas pessoas é Walter Franklin, que, ao receber uma das tiras, mergulha  de cabeça em toda essa perigosa trama.

Se no conto anterior Dick faz uma crítica ao nosso modelo econômico, nesse ele a direciona ao nosso sistema político. O autor mostra com brilhantismo os perigos de um governo autoritário, que não respeita as liberdades individuais da população. A premissa do “quem não deve, não teme”, base da repressão àqueles que usam os gorros, é muito utilizada na atualidade, mas Dick mostra que quem não deve pode sim temer, e que não podemos ver com maus olhos uma pessoa que não quer abrir mão da sua liberdade, tão ameaçada num mundo cada vez mais autoritário.

O sexto conto é Foster, você já morreu, de 1955. A trama gira em torno do jovem Mike Foster, uma criança que é excluída na escola pelo fato do seu pai não ter um bunker em casa e não contribuir para os serviços de defesa. Mike, em busca da aceitação de uma sociedade em guerra e ao mesmo tempo marcado por uma paranoia disseminada pelo governo, empresas e imprensa, pressiona o seu pai a mudar sua postura. Mesmo vendo toda a difusão de uma ideia de “perigo iminente” apenas como uma estratégia de venda usada por grandes empresas, o pai de Mike acaba cedendo à pressão do filho. Mas, a partir daí, nem tudo sai como o planejado.

Interessantemente, Dick consegue unir muito bem uma crítica à sociedade capitalista com a exploração de uma questão puramente humana: a necessidade de aceitação social, e ainda a relacionando com um problema muito comum de hoje: os conflitos geracionais entre pais e filhos. Por um lado, o autor não esconde sua visão negativa de uma sociedade excessivamente consumista e com empresas que fazem de tudo para vender cada vez mais (elementos já abordados em outros contos). Por outro, ele também mostra o quão negativa a constante necessidade humana de aceitação pode ser. Em um mundo como o de hoje, baseado tão fortemente na questão da imagem, Foster, você já morreu, é uma leitura essencial.

O sétimo conto é A coisa-pai, de 1954. Os fãs de séries que mostram crianças se aventurando para impedir um plano sinistro irão adorar esse conto, que mostra os esforços de Charles Walton e seus vizinhos, os jovens Tony Peretti e Bobby Daniels, para impedir que seres estranhos roubem o lugar de todos os humanos. A história já começa em um momento de tensão, quando Charles descobre que seu pai foi morto por um estranho ser que roubou sua aparência e memória. A partir daí o garoto busca fazer de tudo para eliminar essa coisa-pai, mas enfrentar esse monstro é bem mais difícil — e perigoso — do que ele sequer poderia imaginar.

Não há muito o que explorar em A coisa-pai. O mais simples de todos os dez contos da obra, ele ao menos serve para mostrar a versatilidade incrível de Philip K. Dick, que consegue não apenas escrever história reflexivas, complexas e mais “viajadas”, como também criar enredos simples, divertidos e interessantes. O conto também trabalha muito bem com a questão do suspense, mas é exatamente todo esse claramente criado que faz com que, ao final da leitura, haja uma certa sensação de quero mais, em especial devido ao final previsível da história. Se o fim de A coisa-pai deixa a desejar, o começo e o meio com certeza compensam isso, com muita tensão e nervosismo.

Em seguida temos O planeta impossível, de 1953, que também possui uma trama relativamente simples. Nela, o leitor é transportado para centenas de anos no futuro, quando a espécie humana já havia abandonado o planeta Terra, dispersando-se por centenas de planetas. A Terra é, inclusive, tratada como uma lenda, tendo sua existência negada por muitos. No entanto, a senhora Irma Vincent Gordon, de 350 anos, está prestes a morrer, e deseja visitar o planeta natal dos humanos, abordado em diversas histórias que seu avô lhe contou. Em busca desse objetivo, ela e seu fiel robô cuidador solicitam os serviços do Capitão Andrews e seu ajudante Norton. A partir daí, o capitão decide enganar Irma e simplesmente levá-la para um planeta semelhante à Terra, recebendo uma alta recompensa no processo.

Após ler esse conto, não há como negar a grandiosidade de Philip K. Dick como escritor. Dando quase que nenhum contexto, descrevendo apenas o essencial dos personagens sem nem revelar o passado dos mesmos, o escritor consegue fazer com que criemos um grande ódio pelo Capitão Andrews e uma grande compaixão pela senhora Gordon. O fim da história apresenta uma justiça poética, e é inegável a beleza e melancolia que permeiam o enredo. Em O planeta impossível, Dick faz, com maestria, uma crítica contundente à ganância humana e como ela pode ser cruel e desumana.

O penúltimo conto é O passageiro habitual, publicado em 1953. Diferentemente dos dois contos anteriores, o enredo é marcado pela complexidade, o que, em uma obra de Philip K. Dick, significa que a história é bastante confusa e difícil de entender. Nela, um homem busca comprar um bilhete de trem para a cidade de Macon Heights. O funcionário da companhia de trens, no entanto, fala que a cidade não existe e, logo depois, o homem desaparece. Informado sobre o caso, o vice-presidente da companhia decide investigar a situação e descobrir se Macon Heights de fato existe. Ao fazer isso, porém, ele descobre algo gravíssimo, e que poderá mudar por completo tudo aquilo que ele conhece.

Esse nono conto é o mais difícil de entender de todo o livro, mas, no fim, é possível concluir que o importante na história não é o porquê do evento retratado ou o como ele ocorreu, mas sim o final dela. Os questionamentos deixados por Dick são muito interessantes: afinal, se sua realidade mudasse por completo, você simplesmente aceitaria? O quão importante é o seu ambiente externo em relação a sua vida pessoal? Valeria a pena tentar mudar uma realidade se sua vida pessoal tivesse melhorado? Mais uma vez, cada leitor tirará as suas próprias respostas.

O último conto é O enforcado desconhecido, publicado em 1953. Esse é, sem sombra de dúvidas, o conto mais repleto de tensão, suspense e ação de toda a coletânea. Nele, o comerciante Ed Loyce vê um homem morto, enforcado, no meio da praça da sua cidade, mas ele é o único que parece se importar com a situação. Determinado a chamar a atenção das pessoas, Loyce acaba descobrindo um sinistro plano de seres de outra dimensão para dominar não apenas a sua pacata cidade, como também todo o mundo. A partir daí, o protagonista deve fugir desses seres e busca informar a todos da iminente invasão. No entanto, talvez já seja tarde demais, tanto para Ed Loyce quanto para a espécie humana.

Superficialmente, pode-se dizer que a trama do conto é muito simples. No entanto, é esta história que possui uma das mais profundas e contundentes mensagens de todo o livro: não é porque as pessoas não dão a devida atenção a algo que esse algo não existe ou está certo. Dick procura mostrar que devemos sim dar ouvidos a todos, por mais malucos que eles possam parecer, pois eles estarão notando algo que nós não estaremos e, se em algum momento percebemos isso, já será tarde demais.

Vale ressaltar que Sonhos Elétricos não existe apenas para homenagear o grande autor Philip K. Dick. O seu principal objetivo é, na realidade, chamar a atenção das pessoas para que elas vejam a série homônima. E, nesse sentido, o livro acerta em cheio. A falta de contextualização de Dick deixa muito para o imaginário dos leitores, e é claro que todos queremos ver os ricos, complexos e profundos universos criados pelo autor em cada um dos contos, nem que seja para criticá-los por não ser exatamente do jeito que imaginamos. Não há como ler os dez contos e não ter vontade de ver a série depois.

Ao mesmo tempo, outro elemento interessante do livro é a introdução, a cada conto, dos responsáveis por adaptá-los para a série. Com isso, é possível entender por que o conto foi escolhido, entender algumas escolhas na hora da adaptação e ver a visão pessoal de cada uma dessas pessoas sobre Philip K. Dick e como o autor influenciou, em menor ou maior escala, cada uma delas.

E isso não é nenhuma surpresa. Dick tem a incrível capacidade de suscitar os mais profundos e complexos questionamentos na nossa mente, criando histórias marcantes, com temas interessantes e, acima de tudo, retratando personagens comuns. Humanos. A maior marca das ficções do autor, brilhantemente demonstrada em Sonhos Elétricos, é essa: o incrível realismo, e a humanidade, dos seus personagens e temas centrais.


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