Só mais um minuto

Por João Pedro Malar (joaopedromalar@gmail.com)
Imagem: Maria Laura López / Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Catarina já estava cansada. Sua mente sabia disso, e seu corpo apenas confirmava esse irritante fato. No entanto, a física simplesmente não tinha tempo para pensar nisso. Tempo. A única coisa que ela queria. Era irônico demais que uma das maiores físicas teóricas do mundo na área de ciência temporal estivesse tão desesperada por mais tempo. No entanto, ela não procurava um tempo para gastar, algo no futuro. Não. Ela queria um tempo gasto. Queria mais tempo com a sua esposa.

Era inevitável não suspirar ao lembrar de Elena. Sua doce Elena, a dançarina que havia conseguido abrir os olhos de Catarina para o amor. Tudo havia sido tão rápido entre as duas (rápido até demais), tão intenso (mas poderia ter sido mais). Catarina a viu num espetáculo, bela, graciosa. Um amigo em comum as apresentou no final, elas trocaram olhares, sorrisos, números. Começaram a sair, a namorar, em menos de quatro meses as duas estavam casadas. Foram os oito anos mais perfeitos da vida da cientista.

E então, quando elas iam dar o próximo passo, quando iam ter o próprio filho (ou filha, mas Elena adorava meninos e Catarina não conseguia dizer não à amada), a cientista perdera a esposa para uma doença. Era cruel demais. Elas haviam passado por tantos desafios, tantas barreiras sociais, tantos insultos, preconceitos. E quando tudo parecia estar resolvido, o câncer surgiu. E levou o amor de Catarina com ele.

Um ano havia se passado, nele a física dedicou toda a sua energia para o trabalho. O desenvolvimento de uma máquina que permitisse a viagem no tempo. Seus colegas achavam o projeto rídiculo. O homem jamais conseguiria viajar no tempo em 2056. Eles diziam que era cedo demais para o homem. E talvez fosse, mas ela não era um homem. Ela havia passado dois anos tentando encontrar os recursos para o projeto, havia quase desistido, mas o apoio de Elena evitara isso.

Os recursos vieram depois de diversas reuniões exaustivas com muitas universidades diferentes. Obter o “sim, nós financiaremos o projeto” já seria difícil para um típico cientista. Para uma mulher lésbica, em um meio gritantemente machista e conservador, era quase impossível. Mas ela trabalhava com o impossível. E ela havia conseguido. Finalmente surgiu uma universidade com dinheiro e que queria muito ter um Nobel associado a ela. Catarina não se importava com a perspectiva do Nobel, mas ela precisava do dinheiro.

Depois de um exaustivo ano, o projeto parecia mais próximo da realidade do que qualquer um poderia imaginar. Estava quase pronto. Catarina sabia que, depois de alguns cálculos e adaptações, o sucesso seria conquistado. Talvez o projeto tivesse ficado pronto mais rápido se ela tivesse ajuda, mas era algo delicado demais para se aceitar ajuda, todo cuidado e sigilo eram poucos.

Mas ela havia chegado a um impasse. A conta não se resolvia, e Catarina sabia que, sem ela, a viagem seria impossível. E a viagem não poderia ser impossível. Ela precisava salvar a esposa.

Havia sido brutalmente devastador quando a cura para o câncer da esposa fora divulgada cinco meses após a morte de Elena. Se não fosse a pesquisa que Catarina desenvolvia, ela provavelmente não teria aguentado a injustiça. Mas a pesquisa, ligada à notícia, a encheu de esperanças. Era possível salvar sua amada agora, ela iria conseguir abraçar a esposa mais uma vez, conseguiria ser feliz novamente.

Entretanto, estar parada na frente de uma tela travada em uma mísera conta matemática há cinco dias não estava ajudando. Ela precisava dormir, mas não queria, não podia. Decidiu pesquisar sobre algum outro assunto mas ainda manter a conta na cabeça, a técnica sempre dava certo.

Não foi surpresa nenhuma para Catarina quando ela se viu assistindo aos vídeos das apresentações da esposa. Eles eram tão belos, tocantes, profundos. E de repente ela estava chorando. Era ridículo, uma renomada cientista chorando feito uma menininha vendo um vídeo de dança. Porém era impossível conter o choro, e então ela decidiu não conter, e chorou, chorou até dormir.

Quando ela acordou, uma luz irritante invadia o seu laboratório. Ela notou que era a luz do Sol. Uma certa irritação tomou conta do seu corpo. Muitas horas desperdiçadas dormindo, tempo perdido. Tempo que poderia ser dedicado à máquina. A máquina em si era estranha. Precária. Não parecia em nada com as futurísticas e belas máquinas do tempo dos filmes, não era o seu tão sonhado DeLorean. Mas iria bastar, teria que bastar.

Catarina respirou fundo, arrumou o seu bagunçado cabelo preto, se espreguiçou e voltou a sua atenção para a tela do computador. Lá estava o espetáculo da esposa. Não era à toa que a cientista havia chorado tanto: “O Lago dos Cisnes” era a especialidade de Elena. Era impossível não chorar vendo a grande Elena Sablinova (depois do casamento, Elena Sablinova Adams, Catarina sempre reforçava isso) como “Princesa Odette”.

Tentando se distrair, a física fechou o vídeo e voltou para os seus cálculos. Ao fazer isso, ela quase pulou da cadeira de espanto. Lá estava a maldita conta resolvida. Melhor, estava tudo resolvido, uma rápida olhada já mostrava esse fato. Todas as equações, as medidas de segurança, tudo necessário para fazer os mecanismos da máquina funcionarem. Com a conta resolvida, o programa do computador entrou em ação e resolveu tudo.

Uma Catarina mais calma e sensata teria feito uma profunda análise de tudo ela não confiava em computadores e buscado lembrar-se de como ela havia conseguido resolver o problema. Porém ela estava eufórica demais, e não queria perder nem mais um segundo, Catarina precisava ter Elena em seus abraços agora, e ela teria. O procedimento agora seria fácil, a programação da máquina seria feita pelo computador, uma viagem de ida, uma de volta, era bem mais fácil trabalhar com a máquina desse jeito. Ela iria para o passado, no instante em que a esposa estava morrendo, daria o medicamento e então voltaria para o futuro, para se encontrar com sua Elena.

É claro que havia riscos, Catarina estava focada demais em descobrir como se viajar no tempo, ela nem havia estudado direito as consequências da viagem. Criação de realidades paralelas, duas Catarinas convivendo juntas ao mesmo tempo depois da viagem de volta, uma alteração temporal que levaria a uma mudança completa da realidade em que a cientista estava inserida, tudo isso poderia ocorrer. E fora exatamente por isso que ela escolhera ir para o momento próximo à morte da esposa. Quanto mais próximo do presente, mais difícil seria criar uma profunda alteração no mesmo.

Alguns minutos depois e a máquina estava pronta. O pior agora seria transportá-la. Era um trambolho, mas um trambolho desmontável. Mesmo assim, todo cuidado era pouco. Ela pegou o remédio, obtido por meios ilegais, e focou no transporte do objeto.

Horas depois, com muito cansaço e uma exagerada discrição e preocupação, ela estava no pequeno bosque próximo ao hospital. Era o local ideal, perto de onde ela precisava estar, ideal para se esconder, bastante desocupado (ela havia passado o último ano espalhando boatos sobre a presença de animais selvagens nele, afugentando qualquer visitante) e ainda era um local que a lembrava de Elena, o que lhe dava motivação para fazer o que precisava ser feito. O bosque havia sido o local favorito da esposa durante o período da doença.

Ela colocou a roupa de enfermeira que havia arranjado, guardou o remédio e se sentou na máquina. O estofamento era desconfortável, mas era pedir demais ter algo barato e confortável, puxou a tela com o teclado para a sua frente e começou a digitar. Em cima dela, as bobinas começavam a trabalhar, era essencial que elas criassem o buraco de minhoca subatômico exatamente acima dela, então seria acionado um sistema de propulsão (havia sido bem complicado convencer o vizinho a vender o carro voador dele por um preço acessível), que faria com que a máquina atravessasse o portal e a levaria para o outro lado, o passado. Pensar nisso já era complicado, colocar em prática então era ainda mais difícil.

Acumulando toda a energia positiva que ela gostaria de ter mas na realidade não tinha, Catarina digitou a data no computador, verificou se o sistema estava funcionando e, por fim, ativou a máquina. Ela, felizmente, não fazia muito barulho. A ideia era que o micro reator nuclear que ela obtivera (ela ainda agradecia diariamente essa conquista tecnológica) gerasse energia para criar o buraco de minhoca, e era isso que estava ocorrendo. Acima dela, a janela para o seu futuro se abria. Ela apertou outro botão, a propulsão ligou, e ela entrou no buraco.

Lá dentro, tudo passava como um flash, algo desapontador para a curiosa mulher, de repente, lá estava ela surgindo no mesmo bosque, só que no ano de 2055. Como previsto, ela surgiu numa clareira bem escondida, faltava 20 minutos para a morte da esposa. Ela não tinha tempo a perder. A máquina era fácil de desmontar, separou as peças, colocou em sacos verdes e cobriu eles com folhas e mais folhas, jogando tudo cuidadosamente em alguns arbustos próximos. Então, começou a correr.

19 minutos, ainda estava longe demais. 18 minutos, quase trombou com um galho, deveria ter lembrado que o trajeto seria diferente. 17 minutos, precisava correr mais. 16 minutos, estava perto, sabia disso. 15 minutos, podia ouvir o barulho das ambulâncias e carros. 14 minutos, ao alto, via os mesmo indo e saindo do hospital, voando rápido. 13 minutos, havia chegado.

12 minutos, era surpreendente como o cartão que havia comprado realmente abria a porta dos fundos do hospital. 11 minutos, já estava chegando no elevador. 10 minutos, elevador. 9 minutos, o elevador para, muitas pessoas entram, estava no segundo andar, precisava chegar ao décimo, todos vão parar em algum andar antes do décimo. 8 minutos, estava demorando demais. 7, quinto andar, faltava pouco. 6  minutos, sétimo andar. 5 minutos, nono andar. 4 minutos, havia chego, andava apressada. 3 minutos, estava no quarto 109, o da esposa.

Ela abriu a porta, e entrou, sabia que não havia ninguém lá. Um minuto antes todo o pessoal médico saira do quarto. O doutor estava, nesse momento, indo para a cantina no segundo andar para dar a notícia para Catarina. “Sua esposa teve uma grave complicação há alguns minutos, nós tentamos de tudo, mas não pudemos fazer nada, ela tem apenas alguns minutos de vida.” O pior era que Catarina nem conseguiu se despedir, chegou tarde demais. Mas não agora. Ela se aproximou da esposa, passou a mão pelos cabelos loiros dela, beijou sua testa. Elena já estava desacordada. 2 minutos.

Encontrou a bolsa com soro, despejou o remédio nela. 1 minuto. Catarina não conseguia se controlar, olhava com muita apreensão para a cama, fazia juras de amor para a esposa, que provavelmente nem as ouvia. Por fim o horário chegou. Catarina esperava que os batimentos cardíacos se mantivessem, até intensificassem. Ao invés disso, eles desapareceram. Não, não podia estar ocorrendo de novo. Ela não podia ter falhado. As lágrimas dominaram seu rosto. Ela se ajoelhou ao lado do corpo, implorou, beijou a esposa, nada, nada ocorria.

Elena ainda estava morta, Catarina ainda continuava viva. Não era justo. Ela de repente ouviu o barulho no corredor, a outra Catarina estava chegando. Um incidente temporal poderia acontecer, e sabe-se lá as consequências disso. Catarina juntou todas as forças que ainda lhe restavam, enxugou as lágrimas e saiu do quarto, andou rapidamente para o mais longe possível do local, ela só queria ir embora.

A física não sabia o que fazer, estava mais uma vez desolada, perplexa. Havia perdido o amor da sua vida novamente. Havia falhado. Ela desceu as escadas, saiu do hospital e foi andando sem direção definida. De repente, seu celular vibrou, a pesquisadora o pegou e abriu a notificação. Ela foi levada a um vídeo. Um vídeo dela. Mas que ela não lembrava de ter gravado. O que diabos estava acontecendo?

“Olá Catarina. Se você está vendo esse vídeo, é porque você falhou e a Elena  nossa Elena infelizmente morreu. Eu quero que saiba que você não foi a única que falhou, eu também falhei. Nós duas não conseguimos chegar a tempo. Você encontrará abaixo um registro com o horário em que eu coloquei o medicamento. E verá que ele foi apenas alguns segundos depois de você. Quando eu resolvi os cálculos sim, fui eu, você encontrará um anexo com eles já resolvidos eu deixei um programa que garantiu que você acabaria sendo levada para um certo horário de modo que você aplicasse a medicação no horário que eu achava que seria suficiente. Eu errei. Eu sei que você deve estar se sentindo perdida, desolada, triste. Eu também estava assim. Mas você sou eu, e, se esse vídeo me daria esperanças, ele também dará para você. Você irá para o futuro, para a noite em que você estava empacada no cálculo e dormiu, adicionará a resolução das contas e o programa, eu recomendo que você coloque para que a outra Catarina chegue em 2055 um minuto antes de você, então você irá gravar esse mesmo vídeo e programá-lo para aparecer em uma certa circunstância explicitada no anexo. Depois disso… bom, depois disso uma Catarina terá que deixar de existir. Mas isso não deve ser difícil para você. Sem a Elena, por que existir?” O vídeo parou por um breve momento, uma solitária lágrima escorreu pelo rosto da Catarina na tela. “Boa sorte Catarina. E que o tempo esteja a seu favor.”

A mulher ficou algum tempo paralisada, encarando a tela do celular. O anexo surgiu com todos os dados que a… outra Catarina havia citado. No entanto, deveria ela fazer o que o vídeo orientava? Catarina não sabia dizer. Teria ela criado um loop temporal onde a cientista estava destinada a fracassar e então seguir as orientações e dar seguimento ao loop? Será que era realmente impossível alterar o passado e tudo isso não teria nenhum efeito?

Ela não sabia dizer, mas sabia que, se houvesse uma mísera chance de salvar a esposa, então ainda valia à pena viver, mesmo que não fosse ela a salvar a sua Elena. Uma Catarina ainda teria uma Elena em sua vida, em seu futuro, e isso já era suficiente. No fim, ela e suas antecessoras (era tolice achar que só uma Catarina falhou e criou sozinha todo esse plano) seriam essa Catarina, de um jeito estranho e inexplicável.

Determinada, ela andou em direção ao bosque, ela não havia percebido a mensagem final no celular, escrita em letras pequenas:

Tentativa número 365, resultado: Fracasso.

Teoria de Looping Temporal confirmada.

A física apenas precisaria montar a máquina e voltar para o seu presente. Depois, daria um jeito de fazer tudo que precisava. Ela estava mais próxima do que nunca de salvar a sua esposa, Catarina precisava acreditar nisso. Ela só precisava de mais um minuto. Só mais um minuto.


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