O enigma de Andrômeda: ficção com muito mistério e verossimilhança

Por Marina Caiado (marinafcaiado@usp.br)
Foto: Letícia Vieira/Audiovisual – Jornalismo Júnior

O livro “O enigma de Andrômeda” já chama atenção pela própria sinopse da história. Um satélite espacial traz para a Terra uma ameaça jamais vista antes, e um grupo de cientistas criado pelo governo americano é acionado para estudá-la a fim de evitar uma possível catástrofe mundial. Essa descrição parece simples até demais diante da genialidade da obra de ficção escrita por Michael Crichton em 1969, mas já desperta enorme curiosidade, elemento presente em toda a narrativa.

A história se passa na década de 1960. A ameaça da qual se fala é o Andrômeda, nome posteriormente dado ao organismo minúsculo que, no início da história, chega através do satélite Scoot VII, enviado pelo governo estadunidense. O Scoot cai em uma pequena cidade chamada Piedmont, matando 46 de seus 48 habitantes mais dois homens do exército estadunidense, enviados para recuperar o satélite. Quando o coronel Mancheck percebe o que está acontecendo, aciona a Equipe de Alerta Wildfire, composta por cinco cientistas com a função de lidar com eventuais emergências biológicas. Um dos cientistas, porém, está no hospital com apendicite, o que faz com que a trama de desenrole a partir de quatro deles: Jeremy Stone, Peter Leavitt, Charles Burton e Mark Hall. Começa então a corrida para reunir os quatro homens no Laboratório Wildfire, local onde trabalham tentando entender melhor o Andrômeda, como ele vive, como mata as pessoas, e por que os dois sobreviventes, um recém-nascido e um velho com úlcera, foram capazes de sobreviver ao organismo que matou uma cidade quase inteira. E precisavam fazê-lo antes que a ameaça se espalhasse e matasse mais pessoas.

Uma das coisas que mais chama a atenção é a maneira como os quatro personagens principais são bem desenvolvidos ao longo da história. À medida que as horas se passam, vamos entendendo melhor as qualidades, fraquezas, preocupações e angústias dos quatro homens envolvidos, além de suas diversas maneiras de enxergar o mundo. Tudo isso torna os personagens mais humanos e próximos do leitor, que vai se deixando cativar igualmente pelos quatro cientistas de personalidades tão diferentes. Talvez exista um certo protagonismo de Jeremy Stone em relação aos demais, mas isso ocorre apenas no início, já que é ele o primeiro cientista a ser apresentado. Isso também pode ser explicado pelo fato do cientista ser um dos idealizadores do projeto Wildfire, enquanto os outros foram apenas convidados a participar. Porém, à medida que os outros três entram na narrativa, percebe-se que os quatro possuem a mesma relevância dentro da história, que busca mostrar como cada um se sente e pensa de forma equilibrada e imparcial, algo melhor proporcionado pelo narrador observador. Essa pluralidade de visões, para o leitor, é algo com certeza muito positivo, pois ele não toma partido único durante a leitura do livro, sendo levado a considerar diferentes pontos de vista enquanto faz suas reflexões.

Por falar em reflexões, aquelas propostas pelo livro são ótimas. Às vezes de forma mais sutil, às vezes de maneira evidente, o livro leva seus leitores a refletirem sobre a humanidade, sua real relevância diante de um universo tão amplo e quais rumos ela pode tomar, frente a uma inteligência humana que nem sempre tem boas intenções. Tal inteligência não estaria nos levando à completa destruição, ao invés de levar-nos ao progresso? Essa e outras perguntas surgirão na cabeça do leitor enquanto estiver lendo “O enigma de Andrômeda”, podendo gerar certo desconforto. Também existe um ar de mistério presente em toda a história, causado principalmente por alguns comentários do narrador, do tipo “aquilo havia sido um grande erro, mas isso só seria descoberto horas depois”. Isso certamente deixará os leitores encucados e curiosos para saber o final da história, o qual talvez decepcione e não corresponda às expectativas dos mais dramáticos, mas acalme aqueles mais agoniados.

Outra coisa que pode vir a ser perturbadora durante a leitura é a enorme verossimilhança da obra de ficção. Isso porque a produção do livro envolveu muita pesquisa da parte de Crichton. A obra possui uma extensa bibliografia, e utiliza inclusive nomes de pessoas reais, como o do próprio Jeremy Stone, matemático que presidiu a Federação Americana de Cientistas de 1970 a 2000. Também são citados inúmeros conceitos e teorias científicos, principalmente das áreas da biologia e da química, o que não deve ter sido nenhum desafio para Crichton, que escreveu “O enigma de Andrômeda” enquanto cursava medicina. Isso, porém, não torna a leitura muito mais complicada, pois a todo momento existem explicações feitas com analogias simples, as quais garantem que o leitor não se perca e consiga falar a mesma língua dos cientistas da obra. Assim, é possível até mesmo tentar formular suas próprias explicações para os fatos, antes que as respostas sejam dadas pelos protagonistas, outro ponto forte que torna o livro ainda mais divertido.

Gostando ou não do final, achando a leitura fácil ou não, “O enigma de Andrômeda” com certeza chamará a atenção de todos os seus leitores, começando pelo design da nova edição da Editora Aleph, que saiu nesse ano de 2018. A cor verde fluorescente da capa contrasta com detalhes negros, e as primeiras páginas do exemplar, também escuras, trazem gravuras instigantes. Além disso, todas as bordas das folhas são negras, de forma que o livro fechado é apenas um bloco verde e preto. Isso tudo pode parecer estranho a princípio, mas à medida que vamos conhecendo a história, conseguimos entender melhor o porquê de tais particularidades, que vão além da beleza. Mesmo os menores detalhes devem ser apreciados pelo leitor, para que aproveite bem essa experiência única e mergulhe de cabeça no universo do Andrômeda e seus enigmas, pois em cinco dias e 294 páginas tudo estará terminado, restando apenas muita inquietação e saudade.


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