Nada nesta resenha é verdadeiro

Por Breno Queiroz (breno.rqueiroz@gmail.com)
Foto: Letícia Vieira/Audiovisual – Jornalismo Júnior

“‘História!’, escreve Bokonon. ‘Leia a história e chore!’”

Kurt Vonnegut é frequentemente reconhecido pelo seu principal título, “Matadouro 5”, no qual usa a ficção científica para fazer um relato crítico e pós-moderno do momento histórico que sentiu na pele: a Segunda Guerra Mundial. Ele foi prisioneiro dos alemães na cidade de Dresden, onde presenciou um dos maiores bombardeios da história da humanidade. Inclusive, ficou refugiado no subsolo do matadouro que dá nome ao livro.

Sua experiência traumática ecoa por todas as suas composições e entra como um eixo temático no seu quarto livro: Cama de Gato, traduzido e publicado no Brasil por Livia Koeppl e pela editora Aleph, em 2017. Como ícone da contracultura, Vonnegut tinha uma enorme preocupação com o militarismo, a guerra entre as ideologias capitalista e socialista e o possível apocalipse nuclear proveniente desse contexto. E então, a cama-de-gato armada pelo autor nesse livro serve muito bem para derrubar, com boas risadas, o pensamento que levaria ao fim do mundo e o triunfo da estupidez humana.

Outro eixo temático desse page-turner é a relação humana com as representações. O título, Cama de Gato, traz um exemplo histórico da fantasia que completa nossa realidade. Cama de gato é um jogo de criança, passado de geração em geração, desde o início da nossa existência como espécie, que consiste na repetição de padrões formados por um barbante. Não tem cama. Não tem gato. É apenas a imaginação humana, completando a realidade da forma que quis.

Posto isso, vamos analisar o enredo. Jonah, ou John (poderia ser Sam), é um narrador que serve ao propósito geral do livro, por isso mesmo não passa confiança nem ao informar seu nome. Sua jornada começa com a ideia de escrever um livro sobre a bomba nuclear e termina em uma “ilhazinha” no Caribe. Ele primeiro vai atrás do inventor da bomba, Felix Hoenikker, já falecido, mas acaba se envolvendo com a família do cientista. Vonnegut, para a alegria do leitor, é um pioneiro da chamada escalada de absurdos. Então, é complicado entender os acontecimentos que levaram John até um país fictício chamado San Lorenzo. O maior motivo para a viagem não é a pesquisa para o livro, isso não seria cômico e canastrão o suficiente para esse personagem. O motivo é a foto de uma mulher em uma revista, e a desculpa é o encontro com um dos filhos de Hoenikker.

Do mesmo jeito que essa resenha se inicia, diversas referências ao chamado bokononismo poluem a narrativa, e só começam a fazer sentido quando John chega a San Lorenzo. Bokonon é uma espécie de profeta que inventou suas mentiras (chamadas de fomas) para a população da ilha. Explicitamente mentiras. O governo da ilha persegue a religião, e só existe para isso. A política e a religião são tratadas como um teatro, um sobrevivendo do outro.

A fantasia que completa a realidade. Para Bokonon:

 

Viva de acordo com os fomas que o tornam corajoso e gentil e saudável e feliz.

 

Dessa forma, a crítica é composta tanto na estrutura da narrativa quanto no seu conteúdo. Vonnegut se comunica de todas as formas. E depois de devorar os capítulos curtos desse livro, é possível sair com uma sensação maior de autonomia. A cama-de-gato pode existir sem gato, uma religião de mentira pode servir para uma ilha inteira, e a vida sem sentido pode, na nossa fantasia, ter um propósito.


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