O fim da eternidade: a história que não é romântica, mas dará nós em sua cabeça

Por Marina Caiado (marinafcaiado@usp.br)
Foto: Letícia Vieira/Audiovisual – Jornalismo Júnior

Um homem que desiste de tudo aquilo que acredita por causa de uma mulher que conhece, capaz de loucuras pelo amor. Essa é a primeira impressão que se tem do livro “O fim da eternidade”, escrito por Isaac Asimov. Na contracapa do exemplar publicado pela editora Aleph, em 2007, a sinopse já explica que a história trata dos Eternos, seres humanos que dominam a tecnologia de viagens no tempo e agem alterando a realidade, mudando o curso da história e interferindo na evolução humana para o bem de todos. É dito também que Harlan, um Eterno e nosso personagem principal, acreditava nisso até encontrar Noÿs, uma mulher pela qual se apaixona, o que faz com que ele mude sua maneira de enxergar a Eternidade. Essa pequena descrição, porém, torna-se bastante rasa para analisar do que realmente se trata essa obra de Asimov, muito além de uma bonita história de amor.

O autor constrói uma narrativa extremamente complexa, falando não somente sobre viagens no tempo, mas também trazendo reflexões profundas sobre a evolução humana e sobre como nós utilizamos os conhecimentos aprendidos e as tecnologias desenvolvidas. Isso porque os Eternos, ao conseguirem viajar para o futuro e prever catástrofes que aconteceriam na história, mudam a realidade, que é substituída por outra, na qual os seres humanos possam viver o mais confortavelmente possível. Porém não são mudadas apenas as coisas ruins: obras de arte produzidas são perdidas, indivíduos têm suas personalidades modificadas, quase tudo é alterado. As pessoas e suas vidas são manipuladas como se estivessem em um jogo de videogame, sem terem consciência disso. Ao fazerem parte de uma nova realidade, é como se a anterior nunca tivesse existido. Até que ponto essas mudanças são benéficas para a raça humana? Elas são justas? Éticas? Como a humanidade seria capaz de evoluir e aprender com seus erros, se não existissem erros e nem obstáculos? O leitor, enquanto se envolve com a história, é levado a refletir acerca de todas essas questões, que roubam completamente a cena e deixam um pouco de lado o romance entre o personagem principal e Noÿs. Apesar da história amorosa e da própria Noÿs não serem totalmente irrelevantes, por várias vezes pode-se duvidar do amor existente entre esse casal, sentimento que ao longo da trama é bastante ridicularizado por outros personagens e não chega a cativar o leitor. No entanto, isso em nada diminui a grandiosidade e genialidade da obra.

Um ponto que confirma essas qualidades é o fato de os personagens se referirem o tempo todo a séculos, e não anos, quando realizam suas viagens. Os Eternos conhecem bem até o século 70 mil, e referem-se aos séculos abaixo de 27 como um tempo “primitivo”, em que a história ainda não poderia ser mudada, já que a Eternidade ainda não existia. Assim, a leitura do livro pode ser um “soco na cara” daqueles que consideram o século 21 um paraíso tecnológico, já que os personagens vêem nossa atualidade como vemos talvez a pré-história. Toda a história da humanidade até o século 27 pode nos parecer grande, e hoje não poderíamos nem imaginar por completo. Para os Eternos, porém, esses quase 3000 anos são como uma fração de segundo dentro de dezenas de milhares de séculos que já são conhecidos por eles. Isso também faz com que a obra mantenha-se extremamente atual até os dias de hoje, podendo continuar assim por muito tempo mesmo que tenha sido escrita no ano de 1955. Também pelo fato de apresentar explicações físicas e utilizar-se de informações históricas reais, a verossimilhança presente na narrativa muitas vezes chega a assustar, por mais absurda que a história possa parecer.

Tudo isso, somado ao suspense presente em toda a narrativa, fará com que o leitor se prenda a cada página do livro, às vezes relendo trechos para entender conceitos mais complexos, às vezes interrompendo a leitura para refletir sobre questões que Asimov deixa em aberto, e que podem ecoar por vários dias na mente dos que têm contato com a obra. Com certeza, a única palavra que não pode descrever “O fim da eternidade” é “previsível”, já que a história mostra-se a todo tempo surpreendente, trazendo reviravoltas e suscitando reflexões inimagináveis, que farão seus leitores reverem suas definições do impossível e criarão verdadeiros nós em suas cabeças.


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