Como o tamanho da Rússia interfere em seus fusos horários e nas suas diferentes paisagens

Por Bianca Muniz (biancamuniz@usp.br) e Caio Santana (caiosantana@usp.br )

Esse texto faz parte do Especial da Rússia da Jornalismo Júnior. Para mais textos, clique aqui.

Com cerca de 17 milhões de quilômetros quadrados, a Rússia é o maior país do mundo em extensão. Diante desse tamanho, é de se imaginar que haja uma pluralidade de características que se diferem entre as regiões do país — se o Brasil, que cabe duas vezes no território russo, possui uma diversidade de caracteres geográficos e culturais em cada canto do país, imagine as diferenças que separam os pontos mais extremos da Rússia. Diante dessa questão, o Laboratório entrou em contato com pesquisadores e o Consulado da Rússia, a fim de verificar como a grandeza do país abriga diferentes ambientes e faixas de horário.

 

Os fusos horários

A Rússia é o maior país do mundo com uma área de 17.125.178 km quadrados. O doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), Erivaldo Costa de Oliveira diz que “a Rússia, pela sua configuração geográfica, uma latitude muito acima, ao norte, e a grande extensão territorial leste-oeste, configura-se como um país que tem muitos fusos-horários, ao todo 11”: do UTC (Tempo Universal Coordenado) +2 ao +12 (horas em relação à Londres). Esses fusos se estendem da região do Kaliningrado até a região costeira de Kamchatka. Sendo assim, o recorde de fusos horários por território também vai para os russos.

Os 11 fusos horários foram definidos pela Lei Federal “Sobre o Cálculo do Tempo” (em tradução livre) de 2014. Em 2011, o governo decidiu cancelar o horário de verão e desde então este não se aplica.

Veja a seguir as diferentes regiões com suas horas oficiais, lembrando que uma mesma região pode ter mais de um fuso horário, visto a vastidão territorial russa.

Imagem: Tiago Medeiros/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Hora de Kaliningrado: UTC +2. Kaliningrado é uma cidade com região homônima famosa por já ter sido residência do filósofo Immanuel Kant e do matemático Euler. Especial por ficar fora do território russo, a região é banhada pelo Mar Báltico.

Hora de Moscou: UTC +3. A capital da Rússia é uma megacidade. Tanto devido ao seu tamanho e população, quanto no sentido da sua diversidade étnica e cultural. É grandiosa pelos seus edifícios seculares que fazem com que a cidade respire história.

A cidade de Moscou, capital da Rússia. Foto: Sergey Kozin / Russia Trek

Hora de Samara: UTC +4. Capital da região de mesmo nome, Samara pode ser chamada como “cidade aeroespacial russa”, devido ao desenvolvimento maciço de foguetes em sua região na corrida espacial. Uma curiosidade é que ela foi a capital alternativa da União Soviética, quando os alemães invadiram Moscou na Segunda Guerra Mundial.

Hora de Ecaterimburgo: UTC +5. Considerada uma das cidades mais bonitas da Rússia, Ecaterimburgo fica na fronteira da Europa com a Ásia, separada pelos Montes Urais. É parada obrigatória do trem Transiberiano (porta de entrada para a Sibéria).

Ecaterimbugo. Foto: Russia Trek

Hora de Omsk: UTC +6. Localizada no oeste da Sibéria, a cidade (e região) de Omsk é um grande centro de transportes da Sibéria, e está situada a 2700 km de Moscou.

Hora de Krasnoyarsk: UTC +7. Capital e maior cidade do território russo de mesmo nome, Krasnoyarsk é uma região de tirar o folêgo. Suas paisagens formam um cenário videográfico único no oeste siberiano.

Vista aérea de Krasnoyarsk. Foto: Russia Trek

Hora de Irkutsk: UTC +8. Pertencente à região homônima da Federação Russa, Irkutsk está no continente asiático e é uma das maiores cidades da Sibéria. Foi considerada em 2007 pelo The Economist como uma das mais estáveis cidades russas. É um centro cultural, industrial e científico.

Hora de Iakútia: UTC +9. Mais uma república russa, é também uma das maiores regiões (três milhões de km quadrados), sendo maior que a Argentina. 40% de seu território está ao norte do Círculo Polar Ártico. Com temperaturas na casa dos 30 graus celsius negativos, a região preserva grandes minerais, sendo responsável por 20% dos diamantes brutos abastecidos mundialmente.

Vilarejo em Iakútia. Foto: Russia Trek

Hora de Vladivostok: UTC +10. Sendo a maior cidade portuária russa no Oceano Pacífico, é o ponto final da ferrovia Transiberiana, que possui quase 10 mil km de extensão. Foi uma cidade fechada ao mundo até o fim da URSS, e mesmo os próprios russos tinham dificuldades para ir à localidade.

Hora de Magadan: UTC +11. A cidade de Magadan está situada em uma região de mesmo nome. Tem na pesca e na construção naval suas atividades econômicas mais importantes. É nessa região que está a “estrada dos ossos” (Estrada de Kolyma), considerada uma das mais perigosas do mundo. Construída por prisioneiros durante o regime ou ditadura de Stalin, estes eram fuzilados ou morriam com as condições extremas da região: o isolamento e o frio de menos 70 graus celsius.

A cidade de Magadan. Foto: Howard Flower / Russia Trek

Hora de Kamchatka: UTC +12. Posicionado na península homônima, a região também foi de restrito acesso até 1991. Sendo alvo de testes militares nucleares, a cidade, de difícil acesso ainda atualmente, possui vulcões congelados e ativos, além de fontes termais e gêiseres — fontes termais que, em períodos regulares, sofrem pequenas erupções, lançando colunas de água quente e vapor para o ar — e hoje atrai cerca de 800 mil turistas anualmente. Nesta região concentra-se o maior número de ursos-pardos no mundo.

 

Clima e vegetação

Em entrevista, o geógrafo e professor do Instituto Oceanográfico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Nicolai Mirlean relembrou outro aspecto influenciado pela grandeza russa: os biomas. É possível encontrar desde ambientes congelados até desertos áridos no território russo, com suas particularidades de clima e vegetação. Nicolai e Erivaldo listaram algumas das principais zonas naturais encontradas no território, mencionadas a seguir.

 

Imagem: Tiago Medeiros/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

No extremo norte do país, há a Tundra. Essa região tem seu nome derivado da palavra finlandesa tunturia, que significa “planície sem árvores”, o que resume a principal característica de sua vegetação. É uma área de planícies, com gramíneas, e as poucas árvores presentes são muito pequenas, de cerca de um metro e meio de altura. A tundra ocupa um décimo do território russo e, devido ao frio intenso, é recoberta de gelo em grande parte do ano, o que torna o seu solo pobre.

Tundra russa (foto: Encyclopedia Britannica)

Descendo algumas “latitudes” no mapa-múndi, se encontra a Taiga, zona de mata conífera que pode ser dividida em três subzonas: Taiga norte, média e sul. Ela também é diferenciada em Taiga oriental e ocidental, dividida pelo rio Yenisei; enquanto a primeira apresenta relevo de altitudes elevadas, a segunda é caracterizada por planícies.

Segundo Erivaldo, deve-se ser destacada a reserva florestal russa, onde se encontra grande parte da floresta de coníferas: “pensamos que a maior reserva florestal vem do Brasil, com a Amazônia, mas a Rússia tem uma formação florestal muito maior, é o país que tem a maior reserva florestal do mundo”.

Taiga russa (foto: Encyclopedia Britannica)

Por fim, os especialistas citaram os estepes russos, um tipo de formação vegetal onde praticamente há ausência de árvores, mas tem a presença de gramíneas e alguns pontos de floresta.

Vale do rio Borzya, região dos estepes russos (Foto: N. Tseveenmyadag)

Os pesquisadores ressaltaram que há mais zonas naturais russas entre as mencionadas, como zonas de transição. Além disso, há ainda áreas de deserto com clima semi-árido nas planícies do Mar Cáspio, uma pequena região localizada no sul da Rússia.

Assim, percebe-se que o posto de “gigante” ocupado pelo território russo não diz simplesmente sobre sua extensão: a grandiosidade russa também está presente em sua diversidade ambiental e cultural, possibilitando a observação de características tão diferentes, que dá até para pensar em várias “Rússias” dentro de um único país.

O Sala33, portal de cultura da Jornalismo Júnior, conta um pouquinho mais dessa diversidade do país na parte culinária! Leia aqui.

 


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