O que rolou no segundo dia do Pint of Science

Quem disse que cerveja e ciência não combinam? O Pint of Science é um evento que reúne pesquisadores e curiosos em bares e restaurantes ao redor do mundo para conversar sobre os mais diversos assuntos científicos. Em São Paulo, 12 bares diferentes receberam especialistas para palestrar durante os dias 14, 15 e 16 de maio. No segundo dia, o Laboratório esteve presente no Quintal do Espeto e no Bar da Avareza e te conta um pouquinho como foi.
Confira também a cobertura do primeiro dia.

 

O cientista jornalista (Por Carolina Fioratti)

 

A ciência ainda é um núcleo pouco popular no jornalismo, não costumam aparecer notícias de viés científico nas televisões brasileiras com frequência, e quando aparecem, tratam em sua maioria do ramo da saúde. O que poucos sabem é que esses trabalhos andam lado a lado, tal que se tornou tema do segundo dia do Pint of Science, “O cientista jornalista”.

 Nessa mesa, foram recebidas as jornalistas científicas da Folha de São Paulo, Mariana Versolato e Suzana Singer. O primeiro fato interessante apontado na conversa foi a existência de cientistas trabalhando dentro do jornal em conjunto com as palestrantes. Mariana conta que os colegas trazem diversos assuntos para pautar, no entanto, muitas vezes há uma complicação no entendimento da matéria, por isso a necessidade do trabalho em equipe. Suzana completa com a questão da importância do didatismo dentro do jornal.

Mariana Versolato e Suzana Singer. Imagem: Carolina Fioratti

 Não demorou muito para que a conversa se tornasse um debate e envolvesse todos os que estavam assistindo. O público era em sua maioria cientistas e logo abriram uma discussão sobre o corte de verbas para pesquisas, além disso, afirmam que o problema do investimento público é não garantir a divulgação posterior. As jornalistas contam que assessorias de centros de pesquisa não têm buscado os profissionais para que haja a divulgação do trabalho e os cientistas também afirmam que não são treinados a falar com a mídia e realizar esse serviço.

 Além disso, muitos físicos, matemáticos, biólogos e outros profissionais da área têm receio de como serão vistos pelos colegas no meio acadêmico caso realizem esse tipo de divulgação, chegando a se referir ao doutor Dráuzio Varella e sua popularização.

 

Astrobiologia: a busca pela vida fora da Terra (Por João Pedro Malar)

 

Estamos sozinhos no universo? Foi essa pergunta que motivou o surgimento de uma promissora área da ciência, a astrobiologia – o campo que pesquisa pelas origens e a evolução  da vida no universo. Hoje, graças a essa ciência, a humanidade está cada vez mais próxima dessa respostas, mas ainda há vários desafios pela frente.Com o foco nessa área, Jorge Ernest Horvath, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Astrobiologia (NAP Astrobio) da USP realizou uma palestra dentro do evento Pint of Science.

Segundo Horvath, o universo é um ambiente favorável à vida, e o ser humano seria uma evolução natural dessa receptividade. O professor ressalta que a Terra não é o único local que permitiria o surgimento de vida, já que outros planetas teriam características semelhantes.

Ele define a vida como um “sistema de interações complexas e diversas com o ambiente”. Um sistema de desequilíbrio térmico, com mecanismos de memória (no caso, genética) e de leitura dessas informações. Todo ser vivo apresenta uma capacidade de auto-replicação. Vale ressaltar, porém, que mesmo com o carbono sendo a base da vida humana, ele não é, necessariamente, a base de toda vida. Horvath aponta que a água é fundamental para se ter vida, e procurá-la em outros planetas, ou até evidências da sua existência no passado, é um objetivo da astrobiologia.

Outro fator importante na questão da existência de vida é a localização do planeta no qual o ser vivo está localizado. Hoje, sabe-se que um planeta presente na chamada zona habitável, em uma determinada distância da estrela do seu sistema solar (a distância varia conforme o tipo de estrela), tem chances maiores de possuir vida, já que é nesse zona que poderia haver água no estado líquido. No caso do sistema solar, a Terra é o único planeta na zona habitável.

O professor, na palestra, elenca o que seria uma lista de condições para o surgimento e posterior manutenção da vida humana na Terra, algo que pode ou não se repetir em outro planeta mas que serve de base nos estudos da astrobiologia. Os fatores são:

 

  • Presença de água na superfície por pelo menos 1 bilhão de anos;
  • Intenso bombardeio de meteoros;
  • Intensa atividade geológica;
  • Existência de campo magnético;
  • Atmosfera contendo os gases CO₂, O₂ e N₂;
  • Estabilidade climática por um certo período de tempo;
  • Resistência a catástrofes por aproximadamente 1 bilhão de anos.

 

Jorge Ernest Horvath. Imagem: Organização do evento

No caso específico dos meteoros, Horvath explica que esses corpos celestes são importantes por contarem uma série de moléculas orgânicas. Quando eles caem em um planeta, como o Terra, fornecem mais moléculas orgânicas para o ambiente, facilitando o desenvolvimento de vida no local.

Já o campo magnético seria importante para a proteção contra diversos tipos de radiação emitidos pela estrela de um sistema. O professor também ressalta que a estabilidade climática é um fator preponderante para o desenvolvimento de vida.

Horvath esclarece que, hoje, o foco das buscas não é encontrar seres macroscópicos, mas sim microscópicos e não inteligentes. O grande alvo seriam os seres hipertermófilos, que conseguem sobreviver em ambientes extremos, o que aumenta a probabilidade de existirem em outros planetas.

No sistema solar, a busca é concentrada em Marte e nas duas luas de Júpiter, Europa e Encélado. No caso do planeta vermelho, explorado por diversas missões de várias agências, a descoberta da existência passada de água foi um grande marco. Com isso, também aumenta a possibilidade de existência de vida no planeta em algum momento. Horvath conclui que a chance de existir vida em Marte é muito alta, e prevê que ela será descoberta nos próximos anos.

Já em relação às duas luas de Júpiter, as evidências da existência de um oceano não congelado abaixo de uma calota glacial despertaram o interesse dos cientistas, e reforçam a teoria da existência de vida nos satélites naturais. Também já se sabe que existem seres vivo que sobreviveriam em um ambiente semelhante.

Por fim, o professor indica que existem diversos planetas fora do sistema solar que hoje são pesquisados. Um agente limitador, porém, é a distância desses planetas ao nosso, o que leva a uma demora muito grande, até de décadas, para se obter dados, o que impossibilitaria o estudo desses planetas. A solução é buscar planetas não tão distantes do nosso, já que o intervalo para o envio de estudos e a recepção de dados seria menor. Um planeta promissor é o Kepler 186f, que encontra-se na zona habitável do seu sistema e é muito semelhante à Terra. Nesses planetas, a base das pesquisas é a busca por compostos químicos associados à vida, como vapor d’água e oxigênio.

Em entrevista ao Laboratório, Horvath aponta que é apenas uma questão de tempo até que o homem encontre vida em outros planetas ou satélites naturais, e a chance de que essa descoberta ocorra no próprio sistema solar é alta.

Essa descoberta, avalia o professor, traria uma série de desdobramentos para a espécie humana, mas também geraria muitos questionamentos novos. Nesse sentido, Horvath ressalta a perspectiva de Stephen Hawking, de que talvez o homem simplesmente não devesse procurar a vida em outros planetas, já que, ao encontrar um ser vivo superior, a espécie humana poderia ser aniquilada. Que o homem encontrará vida no universo é quase uma certeza, a questão é: onde ela estará, e quais características ela terá?

 

Mudanças climáticas na (ex) terra da garoa (Por Carolina Fioratti)

 

 A cidade de São Paulo é conhecida por muitos como terra da garoa devido ao alto índice pluviométrico em determinadas épocas do ano. Para entender mais sobre o assunto, o Pint of Science trouxe o doutor em meteorologia pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), Nilton Évora do Rosário.

 O pesquisador citou o aquecimento global e o relacionou com as atuais mudanças climáticas, especificamente na cidade de São Paulo. Também indicou os problemas do desmatamento da Amazônia e como isso interfere, por exemplo, nas questões da seca que a grande cidade passou recentemente. Apesar dos termos técnicos, foi uma conversa descontraída e de fácil entendimento para quem o assistia.

 Após citações sobre massas de ar e frentes frias, veio para encerrar a pergunta: “mas São Paulo ainda é a terra da garoa?” – e o pesquisador responde que sim, mas do jeito que o clima vai, está mais para terra da tempestade.


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