O que rolou no primeiro dia do Pint of Science

O Pint of Science é um evento que ocorre no mundo inteiro, reunindo pesquisadores e entusiastas das mais diversas áreas da ciência. Diferentes palestras são ministradas por especialistas acerca de vários temas com apenas um detalhe: todas elas são realizadas em bares, cafés e restaurantes. Em 2018, a cidade de São Paulo contou com mais de 60 palestras em 12 bares diferentes.

O evento ocorreu nos dias 14, 15 e 16 de maio. No primeiro dia, o Laboratório esteve presente no Café Journal, Tubaína, Bar da Avareza e Cerveja Artesanal São Paulo. Os temas das palestras variaram desde jornalismo científico até o conceito de tempo e infinito na física e matemática, aquecimento global e alimentos transgênicos.

 

A flecha do tempo: Porque envelhecemos e nunca rejuvenescemos (Por Bianca Muniz)

Toda matéria é constituída por átomos e moléculas, em um certo nível. Essas partículas e suas interações são governadas por Leis da Física, que são reversíveis no tempo. O que são essas “Leis da Física”? E se toda matéria obedece à elas, por que não conseguimos reverter alguns processos, como o envelhecimento? Essas e outras perguntas foram respondidas na palestra “A flecha do tempo: Porque envelhecemos e nunca rejuvenescemos” do professor do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista (IFT-UNESP), Gastão Krein.
Uma lei da Física começa a partir de uma ideia. Para essa ideia ser entendida por todos, ela precisa ser transformada em uma equação capaz de predizer algo. Se várias predições se revelarem experimentalmente corretas, chega-se a uma teoria, que se for aplicável à muitas situações, leva o nome de Lei da Física. Uma lei bastante conhecida é a Lei de Newton: um objeto parado ou em movimento não muda sua condição, a não ser que você force ele a mudar, colocando uma força. Isso é o que chamamos de Equação da Força. A Equação da Força é reversível no tempo, como quase todas as equações fundamentais na Física. Se uma partícula se movimenta para a frente, ao reverter sua velocidade naquele instante, ela volta para onde partiu, mas com a velocidade invertida.
Entretanto, não observamos isso acontecer na natureza. “Vemos, por exemplo, a fumaça saindo da chaminé e nunca entrando; um ovo quebrando e nunca se regenerando, mas eles são feitos de átomos e moléculas que respeitam leis que podem ser revertidas no tempo. Então, de onde vem essa assimetria? Essa assimetria se chama flecha do tempo; as moléculas e os átomos que nos compõem podem reverter o movimento, se reagrupar, mas para nós, objetos feitos de muitas partículas, é muito difícil”, explica Gastão, em entrevista para o Laboratório.

 

Gastão Krein (Foto: organização do evento)

O professor explica que isso está relacionado com a disparidade entre os mundos microscópico e macroscópico, além de um fator chamado de condição inicial, ou seja, de onde que o sistema partiu. É muito mais provável um sistema, em sua condição inicial, ir para um estado com mais possibilidades, do que para uma única possibilidade. É mais fácil um copo se quebrar em vários cacos (pois há várias possibilidades de quebra) do que ele, após de quebrado, reunir todos os cacos, em uma única possibilidade de conformação. “Isso não significa que o sistema não pode voltar para trás; podemos sim, ver a fumaça de uma chaminé voltando, mas a chance disso acontecer é muito pequena”, completa Gastão.

Essa situação vem do evento formador de tudo o que conhecemos até hoje: o Big Bang. Antes desse fato, a condição inicial do Universo era mais ordenada e, a partir de então, foi se desordenando e formando as galáxias, os planetas, a vida. A medida que isso foi acontecendo, as possibilidades de ele se organizar novamente para a condição inicial foram diminuindo. Essa informação foi adicionada às Leis da Física, com o nome de Entropia: uma equação que prevê o número de possibilidades de um evento e que, graças ao Big Bang, tende sempre ao estado com maior número de opções, mais desordenado. Assim, é difícil reverter a flecha do tempo, o envelhecimento, a quebra de um ovo, ou o Big Bang, pois todos esses eventos caminham para uma condição menos organizada.

 

Mudanças climáticas: O que estamos fazendo com o clima de nosso planeta? (Por João Pedro Malar)

A Terra surgiu há, aproximadamente, 4,5 bilhões de anos, passando por uma série de transformações que determinaram o clima global. Já os primeiros Homo sapiens surgiram há apenas 200 mil anos, mas já conseguiram alterar e influenciar o clima mundial. Desde de 1750 (ano de criação da primeira máquina a vapor) até os dias de hoje, a temperatura global aumentou, em média, 1,2º C, levando a uma série de transformações e impactos ambientais. Tal fenômeno, conhecido como aquecimento global, não dá sinais de trégua, agora ameaçando a própria continuidade da espécie humana.

É a partir dessa análise que Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), inicia sua palestra, que abordou a questão das mudanças climáticas.

O professor destaca que a atmosfera terrestre é um fino reservatório, formado por diversos compostos químicos. Entre eles, estão os gases responsáveis pelo efeito estufa, como o dióxido de carbono e o metano. Nesse fenômeno, a radiação solar refletida pela superfície terrestre é absorvida por esses gases e mantida na Terra. Essa radiação é percebida como calor, ou seja, aquece o planeta.

Segundo Artaxo, o efeito estufa foi essencial para o surgimento da vida na Terra, e para a manutenção da mesma, ao manter a temperatura global em um nível adequado para os seres vivos. O problema é que, devido à ação humana, a concentração dos gases estufa na atmosfera aumentou muito, o que levou a uma retenção maior de radiação no planeta e, com isso, um aumento da temperatura mundial. Esse fenômeno é o chamado aquecimento global, que traz uma série de impactos negativos para o planeta e a humanidade.

Segundo o professor, as previsões atuais quanto ao efeito desse fenômeno são extremamente preocupantes. Caso as emissões de CO2 se mantenham, em algumas décadas haveria a elevação de 5 a 7 graus celsius na média global. Partindo dessa previsão, os impactos seriam grandes, e extremamente prejudiciais. O processo de fotossíntese das árvores, por exemplo, seria reduzido, diminuindo a produção de oxigênio e a absorção de gás carbônico. A agricultura também seria muito afetada, o que levaria a crises de fome no planeta. Ao mesmo tempo, o nível do mar aumentaria, causando uma série de impactos socioeconômicos e ambientais.

Artaxo ressalta que, para realmente conter o aquecimento global, é necessário uma profunda mudança na estrutura socioeconômica atual. Ele defende que deve ocorrer uma descarbonização da economia, com a busca de novas fontes de energia e métodos de produção, e uma redução dos níveis de consumo dos países mais ricos. Outro desafio é permitir que os países mais pobres tenham a mesma qualidade de vida dos desenvolvidos, sem aumentar a emissão atual de poluentes. Para gerar todas essas mudanças, o professor destaca a importância da pressão popular, e da educação, como fatores de mobilização e mudança.

Em entrevista ao Laboratório, Artaxo cita duas medidas importantes que o Brasil deve tomar para contribuir para a luta contra o aquecimento global: reduzir o desmatamento para zero e utilizar projetos de energia renovável. O país ainda está “engatinhando” nessa direção, mas estabeleceu metas importantes dentro do Acordo de Paris. Além disso, o professor ressalta que o Brasil possui, atualmente, um papel de liderança em pesquisas de mudanças climáticas, mesmo com a falta de recursos.

Perguntado sobre a questão dos grupos negacionistas, o professor questiona se os integrantes dos mesmos realmente não acreditam no aquecimento global ou se estão defendendo essa posição devido a certos interesses econômicos. Nesse sentido, há a questão do apoio financeiro de empresas ligadas a setores que contribuem para o aquecimento global, ou o simples desejo de uma manutenção da ordem econômica atual. De qualquer maneira, para Artaxo, o movimento é pequeno e, hoje, não há dúvidas que o homem é responsável pelo aumento de CO2 na atmosfera, e pelos efeitos desse aumento. Ele ressalta, porém, que a diversidade de opiniões é importante e essencial para a discussão do tema.

Ao final do evento, o professor conclui que reduzir a desigualdade é essencial para construir um planeta sustentável e que, por mais que toda ação humana impacte o meio ambiente, deve-se reduzir esse impacto ao mínimo possível. O grande desafio, para ele, é conseguir que todos consigam concretizar seu direito de ter uma vida boa, evitando um forte impacto ambiental. O professor finaliza a palestra com uma contundente observação: “Não há plano B.”

 

O conceito de infinito na física e matemática (Por Bianca Muniz)

Os gregos da Antiguidade Clássica definiam o Infinito como ápeiron: sem limite, sem fronteira, sem fim, ilimitado. Esse termo é proveniente da ideia da Cosmologia (ramo da Astronomia que estuda a origem do Universo) de que o planeta Terra era uma grande massa que boiava em um mar infinito – um infinito para todas as direções do tempo e do espaço.

Para Alberto Saa, professor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas (IMECC – Unicamp), definir Infinito é uma tarefa complexa. “Você não diz o que é o Infinito, você diz o que o Infinito não é. Infinito está sendo definido como algo que não tem limite, não tem fronteira, não tem fim. Assim, o Infinito não é definido pelo que ele é, mas por uma propriedade que ele tem.”


O problema de se definir algo desta forma é que se cria uma vasta gama de definições, levando a alguns paradoxos. Exemplo disso é conceito de eternidade, muitas vezes usado como sinônimo de Infinito; porém, isso não é tão aceito, pois os acontecimentos podem ser eternos “para frente” temporalmente, mas são limitados “para trás”, pois possuem um ponto de partida.

Há noções diferentes de Infinito em áreas diferentes de conhecimento, como na Matemática e na Física. Na Matemática, Saa diz que, apesar de existirem conjuntos com infinitos números, “o Infinito não é um número, pois seu conteúdo quantitativo é diferente do conteúdo quantitativo de um número”. Além disso, o Infinito não está sujeito a manipulação aritmética: ao se multiplicar infinito por 2, por exemplo, não se chega a uma resposta numérica.

 

Professor Alberto Saa, em sua palestra “o conceito de Infinito na física e na matemática”

Na Física, também existem algumas ressalvas sobre o que conhecemos como Infinito. Um exemplo é a hipótese atômica, que demonstra que a unidade fundamental da matéria é o átomo e este, por sua vez, é constituído por elementos ainda menores, como os prótons, nêutrons e elétrons. Logo, se você dividir a matéria várias vezes, haverá um momento em que ela será indivisível, demonstrando que essa divisão é finita.

A ideia de Infinito espacial também é contestada, pois o que conhecemos do espaço tem finitude. “Ao se fazer uma observação de uma coisa muito distante, muito antiga, você começa a ir para trás no tempo e espaço, até encontrar o Big Bang. Então o que você consegue enxergar e experimentar do Universo não é infinito, é limitado”, explica o professor.

 

Jornalismo científico – Física e astronomia (Por Carolina Fioratti)

Quando alguém pensaria em discutir sobre Stephen Hawking, lançamento da Space X e assessoria de imprensa em um único evento? Bom, o Pint of Science foi capaz de trazer todos esses assuntos para uma aconchegante conversa de bar no Café Journal, restaurante localizado em Moema. O evento foi denominado “Jornalismo científico – Física e astronomia”.

Os palestrantes da noite foram Salvador Nogueira, jornalista de ciência e colunista da Folha de São Paulo; André Jorge de Oliveira, repórter da revista Galileu; e Juliane Duarte, assessora de imprensa do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

O primeiro levantou a questão sobre a popularidade de Hawking e se esse poderia ser comparado a ícones da física, como Albert Einstein e Isaac Newton. Para responder a questão, foi considerada a resiliência do astrofísico (capacidade de resistir e se adaptar às circunstâncias) e também suas pesquisas, como a teoria do big bang e a ideia de que buracos negros não são eternos.

A discussão seguinte, ministrada pelo André, tratou do lançamento da nave Falcon Heavy pela SpaceX (companhia aeroespacial) e de seu impacto na sociedade atual. A discussão teve início com comentários sobre a corrida espacial e a síntese das décadas atuais como era da “corrida espacial 2.0”, em que há uma maior democratização do acesso ao espaço sideral devido ao barateamento das tecnologias, surgimento da internet, consolidação do vale do silício e criação de startups espaciais.

Antes do debate entre público e palestrantes, teve ainda a explicação sobre o funcionamento da assessoria de imprensa na ciência. Juliane citou os cortes de verba para a Fundação de Pesquisa em São Paulo (FAPESP) e como isso refletiu no fato de os pesquisadores passarem a procurar os jornalistas para realizar divulgações. Foram levantados também dados sobre a opinião pública diante da ciência, indicando que as pessoas não dão ao assunto a devida credibilidade e muitas vezes não confiam na mesma. Por fim, abordou as famosas “fake news” e o que isso interfere no jornalismo científico honesto.

 

Transgênicos (Por Caio Santana)

Os organismos geneticamente modificados (OGMs) surgiram para revolucionar a forma como a humanidade passou a produzir. Em se tratando da agricultura, a transgenia (processo de alteração do material genético de uma espécie pela introdução de um gene de outra espécie) cresceu esporadicamente no Brasil, desde o início do uso das sementes transgênicas há duas décadas. Porém, nem tudo se sabe sobre essa milagrosa biotecnologia, iniciada e patenteada por uma empresa que ainda hoje detém tal monopólio.

Na segunda-feira, no bar Cerveja Artesanal São Paulo, aconteceu um bate-papo para lá de controverso: Transgênicos. Amados por uns e odiados por outros, os OGMs vêm a longos anos tentando alavancar um número de simpatizantes. Tarefa difícil devido a falta de esclarecimento por parte das empresas idealizadoras quanto ao que estavam fazendo e o que isso representava para todos os setores da sociedade

Público que estava presente aproveitava o momento para tomar uma dose de conhecimento e cerveja, além de outras opções do bar. Foto: Caio Santana Rodrigues.

Os palestrantes eram três experts do meio: Débora Leite (bióloga que já trabalhou na Monsanto), Adriana Brondani (diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia) e Guilherme Cruz (Gerente de Assuntos Científicos da Monsanto).

Uma das questões abordadas foi a não classificação dos alimentos transgênicos em orgânicos. Formada em biologia na USP, Débora Leite explicou à reportagem falando ser uma consequência da legislação dos orgânicos, tornando-se até uma contradição dos critérios. “A agricultura orgânica diz que é orgânico tudo aquilo que veio do meio ambiente. O que é contraditório, porque o transgênico utiliza um gene que veio de outro organismo vivo da natureza, a diferença é que ele não estava no próprio organismo”.

Com papo descontraído, especialistas debatem sobre os tão polêmicos transgênicos. Foto: Caio Santana Rodrigues.

O uso de inseticidas e herbicidas está completamente atrelado às lavouras de transgênicos, para o bem ou para o mal. A diretora-executiva do Conselho de Informação sobre Biotecnologia (CIB), a doutora Adriana Brondani, ressalta que o Brasil é um país tropical, o que pode interferir no aparecimento de mais pragas ou em chuvas devastadoras. “O consumo de químicos é muito difícil de dissociar de vários pontos da agricultura. Quando se fala em números absolutos, eles realmente cresceram porque aumentou a área plantada e a produção agrícola. Tudo isso em um país que continua com os desafios da agricultura tropical”.

Os especialistas lembraram da dificuldade com a identificação da causa agrícola. Quem mora em São Paulo, por exemplo, não se preocupa com o produtor que está enfrentando uma chuva de granizo ou infestação de pragas destruindo sua plantação. São muitos prejuízos e o produtor optará por aquilo que lhe entregará um ótimo custo benefício, nesse caso os transgênicos.

Todo mundo lembra da Monsanto quando o assunto é transgênico. E não é à toa. Ela foi pioneira e cresceu muito no ramo. Quando perguntados diretamente sobre a empresa, os palestrantes diziam que ela não é a única no ramo.  Apesar disso, é evidente o monopólio da empresa: ela é líder mundial nas vendas das sementes geneticamente modificadas e de herbicidas.

Em resposta à pergunta sobre o objetivo central das empresas que comandam as patentes sobre as sementes transgênicas e herbicidas, Adriana Brondani diz que “assim como a medicina precisa de medicamentos, a agricultura precisa de ferramentas para os produtores”. Acrescentando ainda que como consequência disso há a geração de alimentos. “Mas o foco delas é o desenvolvimento de tecnologias para melhorar a agricultura de um modo geral”, finaliza.

Equipe do Pint of Science, responsável pelo evento no bar, posa para fotos com os convidados. Foto: Caio Santana Rodrigues.

Verdade seja dita: os transgênicos, mesmo com toda oposição de setores específicos ambientalistas (como o Greenpeace) e demais órgãos, continuam com sua produção em crescimento recorde todos os anos. E o Brasil segue, sem errar o caminho, essa estrada mundial.

A palestra foi encerrada com muitos ensinamentos absorvidos, como que transgênico não é só alimento, visto que uma das coisas pioneiras no ramo dos OGMs foi a produção de insulina para diabéticos através de bactérias. Ser a favor ou contra os transgênicos vai de cada um. Deve-se analisar os benefícios e malefícios. Uma coisa é certa: muitos que chegaram ali, naquele papo descontraído, não faziam ideia da posição a ser tomada e saíram com tal posição.

 


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