Vende-se o sucesso: os perigos da automedicação de estimulantes

Por Larissa Silva (larissa.carolina_@hotmail.com)
Imagem: Larissa Vitória/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

A automedicação é uma prática muito comum entre aqueles que querem um resultado rápido, mas sem a opinião de um profissional. Essa atividade, além de ser prejudicial para a saúde dos usuários, ainda movimenta um mercado lucrativo no Brasil: a comercialização ilegal de remédios.

Neste ínterim, está a venda e distribuição de fármacos conhecidos como nootrópicos. Essas substâncias são comercializadas prometendo um aumento na atividade cognitiva dos indivíduos, propiciando horas sem sono, aumento do foco, melhor memorização e a perda da fome.

Altamente requeridos por universitários e concurseiros, os nootrópicos, também conhecidos como smart drugs ‒ “as drogas da inteligência” são a fórmula perfeita para o sucesso. Entre elas, as mais procuradas são a Ritalina, Modafinil e Adderall, sendo esta última ilegal no Brasil, porém com uma alta demanda entre estudantes nos EUA.

Metilfenidato, popularmente conhecido por ritalina, é uma substância utilizada para déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Ela é uma anfetamina que age no sistema nervoso central, aumentando a concentração e o foco. “Eu não conseguia estudar para o vestibular. Estava sempre cansada. Não ficava focada quando sentava para estudar”, afirma Giovanna Terni, universitária diagnosticada com TDAH. “Demorou dois meses para eu ser diagnosticada.”

 

Aumento dos casos de TDAH

Na década de 1960, a ritalina foi muito aplicada em crianças, mesmo sem terem sido diagnosticadas com TDAH. A ideia vendida para os pais e professores era crianças mais empenhadas nas aulas e supostamente “mais inteligentes”, tornando o fármaco um verdadeiro viral no ensino infantil. Mais tarde, ela passou a ser consumida também por adultos.

Se antes era difícil encontrar uma criança com déficit de atenção, com a chegada da ritalina os casos de TDAH multiplicaram-se. Hoje, com a regulamentação do medicamento e a necessidade de uma prescrição médica, os que almejam bons resultados nos estudos recorrem a revendedores que estão espalhados pelas redes sociais.

 

A comercialização de remédios nas redes sociais e seus perigos

“Quer aumentar os rendimentos nos estudos? Só chamar no inbox.” Essa pergunta frequentemente feita por perfis fakes é um atrativo para os desesperados. Porém, as chances de receber “comprimidos de farinha” ou outros tipos de substâncias são altas. Nesse caso, os usuários compartilham quais são os fornecedores mais confiáveis e justos no preço. Da mesma forma que, quais são as melhores formas de consumir, os horários e as quantidades, principalmente associadas com outras substâncias estimulantes. Alguns exemplos são a Taurina, encontrada em energéticos, e a própria cafeína. Assim, tudo isso cria uma comunidade de automedicação, onde no pior dos casos o indivíduo terá palpitações, crises de ansiedade, dependência química ou até mesmo um ataque cardíaco.

Mesmo entre todas as consequências que uma droga controlada pode causar em pessoas saudáveis, receitas são vendidas por perfis fakes nas redes sociais que afirmam ser legais. É comum se deparar com discursos como “não vendemos nada. Temos equipe médica que prescreve a receita médica. É legalizado”. Mesmo assim, meses atrás um fornecedor foi preso por falsificação e comércio ilegal de remédios.

Outro ponto que chama a atenção é o preço. A ritalina de 10mg pode sair entre 30 e 70 reais, dependendo do estoque do fornecedor. Entretanto, a ritalina LA de 10mg, que tem um efeito mais lento e duradouro, pode sair na faixa dos 90 a 130 reais. Já o modafinil de 200mg, um remédio utilizado para quem tem distúrbios do sono mas utilizada também por quem quer intensificar as horas de estudos  pode sair por cerca de 400 reais.  Esses são, aproximadamente, os preços que muitos usuários pagam pela internet por substâncias que podem ser falsas. Mas será que o risco vale a pena?

Para muitos, sim. “Você só precisa encontrar a dosagem certa para você”, afirma um usuário de ritalina do Facebook. Porém, para outros, essa prática apenas deu mais dores de cabeça: “Tomei antes de uma prova. Tive palpitações e muito mal-estar. Fiquei em pânico, eu não conseguia dormir. Só me prejudicou”, conta outro internauta.  

Especialistas da área da saúde afirmam que essa automedicação pode acarretar na dependência química e agravar problemas de saúde, além de que não há estudos sobre os efeitos dessas substâncias no cérebro a longo prazo. Vale lembrar que, mesmo que muitos indivíduos afirmem que o rendimento nos estudos aumenta após o uso das drogas, não há nenhuma prova real sobre esse fato. Os efeitos são diferentes para cada pessoa.

 

Ética x sucesso

Se muitos estão em busca de seus sonhos, outros tentam se manter neles. Nesse caso, os nootrópicos são requeridos principalmente por empresários e empreendedores, para conseguir trabalhar mais e, consequentemente, ter mais lucros.

Esse método é normal entre os empresários no Vale do Silício. De acordo com CEO do Bulletproof (empresa especializada em aprimorar o desempenho das pessoas) o uso de substâncias para aumentar o desempenho cognitivo é uma prática já muito utilizada nos altos cargos das empresas.  

No entanto, a questão ética disso ainda é muito discutida, pois a competitividade acaba sendo desigual. Por exemplo: como comparar e avaliar os trabalhos de dois profissionais, sendo que um deles se droga para conseguir melhores resultados? É nítido que para uma empresa essa prática é lucrativa. Possuir indivíduos mais produtivos através de pílulas é algo atrativo para as corporações. Mas, onde fica o limite entre a ética e o sucesso?

 

Doping nos esportes

Se nem as universidades e empresas estão livres do consumo compulsivo de medicamentos, nos esportes esse quadro não é diferente. De acordo com Guilherme Artioli, doutor em Educação Física pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP), além dos esteróides e hormônios, os estimulantes estão entre as substâncias mais usadas pelos atletas.

Para Artioli, usar o doping é quase um pré-requisito para competir nos esportes de alto nível: “enquanto um grupo de atletas estiver disposto a fazer uso de substâncias e métodos ilícitos, todos os demais serão obrigados a fazê-lo para poder competir em igualdades de condições”.  

Ainda de acordo com o profissional, não existem estatísticas confiáveis do percentual de atletas que fazem ou já fizeram o uso de doping no Brasil. E quando o assunto são os esportes amadores, a situação é mais complicada, pois não existe nenhum tipo de fiscalização. “A não ser que a organização do evento esteja disposta a arcar com os custos (bastante elevados, por sinal) de testagem, via de regra não há controle”, completa ele.


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