Paleontólogos estudam o passado e procuram pistas para o futuro

Por Eduardo Passos (enbpassos@usp.br)

Em mais uma edição do USP Talks, especialistas Max Langer e Mario de Vivo falam sobre dinossauros, grandes mamíferos, extinções e o que esperar da dinâmica de espécies da natureza

 

Hoje em dia é quase impossível chegar a um lugar jamais visitado por um qualquer humano. A ação antrópica atingiu patamares globais e pesquisadores afirmam que estamos acelerando  – e muito – o ritmo das mudanças naturais do planeta. Porém, a nossa presença na Terra é extremamente breve, o que só comprova a volúpia que marcou o ritmo dessa evolução. Em proporção, é como se a primeira forma de vida tivesse surgido há 24 horas, e nós, há 3 segundos.

Se estamos aqui há tão pouco tempo, como saber o que veio antes de nós? Para isso, existe o trabalho dos paleontólogos, que estudam fósseis mais variados, associando-os aos diferentes indicadores de como era a Terra do passado para, assim, traçar um paralelo da fauna e flora que habitou o o nosso quintal.

Dentre esses especialistas, participaram do USP Talks, na última terça-feira (24), Mario de Vivo e Max Langer. No auditório do MASP, eles apresentaram mais sobre seus temas de interesse e responderam dúvidas da plateia, contrapondo o senso comum e jogando luz em questões pouco usuais em relação à pré-história.

 

As origens dos “lagartos terríveis”

O nome dinossauro vem do grego deinos sauros, ou “lagarto terrível”. Essa definição, porém, é ultrapassada. Foi assim que Max Langer tratou de desfazer esse e outros comuns enganos que permeiam a ideia geral sobre essas espécies.

“É um engano que se perpetuou na história, porque os dinossauros não têm nada a ver com a linhagem dos lagartos, mas das aves e crocodilos. E, também pensando sobre isso, é importante frisar o que não são dinossauros. Existem vários grupos que foram dominantes na época e muita gente confunde com dinossauros, mas que não pertencem ao grupo: como os grandes répteis voadores e os répteis de ambientes aquáticos”, explicou.

O professor abordou ainda a existência de fósseis no território brasileiro e explicou que a grande cobertura vegetal do País dificulta as descobertas, já que as peças arqueológicas acabam sempre sobrepostas por muitas camadas de solo. Em contraponto, países com grandes desertos possuem facilidade nesse aspecto.

“A fossilização é difícil, e o paleontólogo encontrar o fóssil é mais difícil ainda. No Brasil, acabamos procurando fósseis onde já há uma obra em andamento, como em ferrovias, rodovias, minas ou algo do gênero”, disse.

 

Os dinossauros não estão extintos

Ao abordar as regiões de maior prevalência de fósseis no Brasil – região central do Rio Grande do Sul, Chapada do Araripe, no Nordeste, e porção norte do estado de São Paulo – Langer também deu espaço à imaginação, e abordou as hipóteses de desenvolvimento dos dinossauros, caso não houvesse o grande evento de extinção em massa – provavelmente um meteorito que atingiu o México.

Os próprios dinossauros se aproveitaram de um grande extermínio ocorrido no início do Mesozóico, dando fim à concorrência de animais terrestres e permitindo a sua prevalência. Do mesmo modo, pode-se concluir que toda cadeia evolutiva que culminou no Homo sapiens não teria ocorrido se o cenário fosse diferente do que foi com o sumiço desses répteis.

Em fala exclusiva ao Laboratório, o professor também supôs como estariam os dinossauros num presente hipotético, ressaltando que seria provável que, sendo bípedes extremamente eficientes numa posição mais horizontal que a nossa, evoluíssem para um grau de inteligência avançada, porém sem traços humanoides.

Por fim, ainda na palestra, ele fez um comentário curioso: “As aves são dinossauros, portanto eles não se extinguiram”.

 

Gigantes pela própria natureza

O biólogo Mario de Vivo abordou as grandes e variadas espécies que habitavam o País. Camelos (que deram origem às lhamas andinas), mastodontes, bichos-preguiça de quase três metros, tatus do tamanho de carros e roedores maiores que bois constituíam uma fauna que provoca encanto e, ao mesmo tempo, pavor.

“Se você perguntar para dez cientistas que trabalham com esse assunto, nove vão dizer que a associação do desaparecimento desses bichos pelo mundo é forte com a chegada dos humanos nos continentes antes desabitados. Eles encontraram uma fauna inocente e incapaz de reagir às técnicas de caça avançada”, explicou.

O professor, contudo, fez ressalvas a essa teoria, ao citar, por exemplo, a existência atual de grandes mamíferos no continente africano. Dentre outros motivos, ele citou, também, a grande variação de temperatura média do planeta. Após a extinção dos dinossauros, a Terra experimentou um aumento de 10ºC, provocando enormes alterações na distribuição específica e favorecendo grandes herbívoros que consumiam as frondosas florestas então surgidas. A redução da temperatura até o período atual, porém, coincidiu com o sumiço desses grandes animais, que tiveram sua oferta alimentícia afetada.

 

O que esperar do futuro

Em entrevista ao Laboratório, Mario falou também sobre o futuro dos bichos, e defendeu processos de seleção genética para melhoria de espécies animais, como vem ocorrendo na pecuária, por exemplo.

“Somos uma espécie tecnológica e temos que ir até o fim. O futuro da humanidade está na intervenção pesadíssima na nossa genética e na nossa transformação em algo diferente. No momento temos biologia de chimpanzé, e biologia de chimpanzé não é capaz de se aguentar em milhões de pessoas vivendo aqui. Para transcender a humanidade, nós temos que nos transformar em algo diferente. Eu sou totalmente favorável de se estudar a intervenção genética, não vejo problema nenhum”, afirmou.

Ao ser questionado sobre o velho sonho humano de ressuscitar espécies extintas – como ocorrido no famoso filme Jurassic Park: Parque dos Dinossauros – Mário se mostrou cauteloso, e apontou dificuldades.

“Se você vai usar uma mãe elefante, por exemplo, para gestar um mamute, aquele ambiente não será exato. Então, você poderá ter fases do desenvolvimento animal que podem ser diferentes, dadas as diferentes interações genéticas”, ilustrou.

Por fim, o biólogo abordou o dinamismo da natureza, e mostrou que, uma vez extinta, uma espécie perde seu lugar no ambiente e, mesmo recuperada, não teria como se assentar. Ele também ressaltou os problemas comportamentais na relação entre as pessoas e o meio ambiente.

“Toda vez que você coloca [na Terra] um bicho que não existia mais, você afeta algum bicho que está presente hoje. Eu acho que os seres humanos terão que tomar decisões, e elas não serão científicas, mas políticas. Os cientistas adoram a natureza, e dá dor no coração imaginar espécies desaparecendo, mas a sociedade odeia a natureza. As pessoas detestam ser picadas por mosquitos, gostam de tudo lisinho e bacana. Precisamos entender a natureza e nos adaptar a ela, permitindo sua existência. Não adianta nada as fantásticas descobertas que fazemos, se não houver a vontade de preservação na decisão política”, concluiu.


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