Os 5 casos clínicos mais estranhos de “House” – e o quão prováveis realmente são

Por Bruno Carbinatto (brunocarbinatto@usp.br)

House, M.D” é uma das séries de hospital mais clássicas da TV norte-americana. A história acompanha a equipe do genial e arrogante Dr. Gregory House, um médico viciado em analgésicos que é o melhor diagnosticista do mundo. Cada episódio apresenta um misterioso caso clínico que intriga os médicos e que culmina em um diagnóstico inusitado e, muitas vezes, estranho.

 

A série é baseada em uma coluna do New York Times chamada “Diagnosis”, escrita pela doutora Lisa Sanders, que também acompanhou toda a parte científica da série. A coluna reunia casos curiosos de médicos ao redor do mundo, comparando o processo de diagnóstico com o de uma investigação de detetive.

Sempre monitorada por uma especialista, “House” promete ser fiel à realidade. De fato, todas as doenças, síndromes e distúrbios presentes na série existem na vida real; no entanto, é comum que o seriado exagere ou distorça alguns fatores pela licença poética. Algumas vezes isso gera episódios singulares ou até bizarros, mas que cumprem o papel de roubar a atenção do telespectador. O Laboratório separou alguns desses diagnósticos que transitam entre realidade e ficção. Confira abaixo:

Atenção! Contém spoilers dos episódios citados.

01 – Perigo brasileiro (S04x06 – Whatever It Takes)

 

 

As terras brasileiras já foram importantes na série. No sexto episódio da quarta temporada, House é contratado pela CIA para diagnosticar um de seus agentes secretos que acaba de voltar de uma missão e apresenta sintomas como fraqueza e queda de pele. Por se tratar de um segredo de Estado, poucas informações são reveladas para os médicos: o homem estava na Bolívia e não é alcoólatra. Após deliberação, os médicos concluem que o paciente está infectado por radiação, diagnóstico que House não concorda. Conversando com o paciente, o arrogante doutor acha inconsistências em sua história e descobre que o agente na verdade nunca esteve na Bolívia, e sim no Brasil. Aqui, ele teria ingerido muitas castanhas-do-pará, o que teria causado intoxicação por selênio, resultando em sintomas semelhantes à radioatividade e câncer.

O quão provável é: É fato que a castanha-do-pará, tipicamente brasileira, é rica em selênio. Porém, a quantidade é ínfima: segundo a Embrapa, uma castanha vinda do Acre, por exemplo, possui menos que 5,5 mcg de selênio; a quantidade necessária para uma intoxicação é de, aproximadamente, 850 mcg. Há, porém, regiões em que as castanhas-do-pará possuem mais quantidade de selênio, como a região Amazônica. Ainda assim, seria necessário um consumo muito exacerbado da semente para causar esses sintomas, o que caracteriza o caso da série como um exagero.

02 – A menina que não sentia dor (S03x14 – Insensitive)

 

 

Na terceira temporada, House se encontra com Hannah, uma garota que apresenta febre alta após um acidente de carro. O grande problema, porém, é que a paciente é portadora de Insensibilidade Congênita à Dor com Anidrose (CIPA) – uma síndrome muito rara que causa a incapacidade do indivíduo de sentir dor. O que pode parecer um benefício é na verdade um pesadelo: a dor é um mecanismo de defesa do nosso corpo, que nos alerta quando algo está errado. Sem essa resposta natural, os médicos não conseguem localizar exatamente o problema, o que torna o diagnóstico da garota cada vez mais difícil. A equipe considera a possibilidade da paciente estar com deficiência de vitamina B12, o que causaria os sintomas; descartam a hipótese, no entanto, após a ingestão do nutriente não surtir efeito. House então monta uma teoria e, para prová-la, corta a barriga da garota durante uma cirurgia – sem nenhuma anestesia – e retira de seu intestino uma tênia de 5 metros. O parasita, também conhecido como solitária, estava se alimentando dos nutrientes da garota, causando deficiência de vitamina B12; por não sentir dor, a garota não tinha indícios da verminose.

O quão provável é: A teníase é uma doença relativamente comum em áreas com pouco saneamento. Nos EUA, porém, é rara, sendo uma consequência mais direta da ingestão de carne crua. Já a CIPA é uma síndrome extremamente rara, afetando principalmente populações específicas; a combinação das duas doenças é possível, mas improvável.

03 – A garota com câncer nos testículos (S02x13 – Skin Deep)

 

Uma modelo de 15 anos é tratada pela equipe da série após desmaiar na passarela. Um histórico de uso de drogas parece ser o diagnóstico mais simples, mas House não está convencido. Após sucessivas pioras da paciente, a equipe chega à conclusão que a garota está com câncer – mas simplesmente não conseguem achar a localização do tumor. Analisando o histórico da paciente, House percebe que ela nunca menstruou, e, através de uma ressonância magnética, descobre que o tumor está alojado no testículo esquerdo da paciente. Acontece que a modelo possui Síndrome de insensibilidade a andrógenos completa (CAIS), uma condição que faz com que as células não consigam responder aos estímulos da testosterona em um homem, de modo que o pênis, os testículos e as características sexuais secundárias não se desenvolvem durante a fase embrionária. Dessa forma, um indivíduo XY vai possuir vagina, peitos e outras características femininas durante toda sua vida. Os testículos, embora existentes, ficam reclusos dentro do corpo, e, por esse motivo, a equipe de House não conseguiu achar o tumor tão rapidamente.

O quão provável é: a CAIS realmente existe, apesar de ser rara; a maioria das pessoas não são diagnosticadas até a vida adulta, quando não menstruam ou não conseguem engravidar. Câncer de testículo é o câncer mais comum em homens, e, teoricamente, nada impede de uma pessoa com CAIS desenvolver essa doença, mesmo que os testículos não tenham se desenvolvido totalmente.

 

04 – Aliens, chips e irmão gêmeo do mal (S03x02 – Cane & Able)

 

Um dos episódios mais controversos e peculiares da série. A equipe trata um garoto de 7 anos que tem alucinações com alienígenas e acredita ter sido abduzido, além de ter sangramentos espontâneos pelo corpo. A grande questão que intriga a equipe é a coagulação sanguínea do paciente – em um teste, o sangue coagula normalmente; em outro teste, feito pouco tempo após, o garoto sangra ininterruptamente por 20 minutos.  O caso fica mais bizarro quando o garoto, durante uma alucinação, corta a própria nuca com uma faca, alegando que ali estaria um chip implantado pelos extraterrestres – e os médicos realmente encontram um pedaço de metal dentro de seu corpo. Os problemas circulatórios sugerem uma doença cardíaca, mas os exames estão normais – exceto por uma pequena parte do coração, que não bate. Analisando o DNA da parede do coração na parte defeituosa, a equipe descobre que é diferente do DNA do resto do corpo do menino – é um DNA invasor, “alienígena”. As alucinações, o pedaço de metal na nuca, o sangue que cada hora se comporta de uma maneira e o DNA estrangeiro – tudo parece indicar realmente um resultado de experiência alienígena. Após muito pensar, no entanto, House chega a conclusão que o menino é portador de quimerismo, uma síndrome extremamente rara em humanos em que um embrião absorve o outro, ainda no útero, “roubando” parte do seu DNA; isso explica por que o garoto tinha células defeituosas e células saudáveis. O DNA invasor do irmão gêmeo estava presente no cérebro (causando alucinações), na medula e no coração (causando problemas sanguíneos), e por isso seu sangue se comportava de uma maneira diferente: na verdade, eram células diferentes. E quanto ao suposto chip na nuca? Apenas um pedaço de titânio desprendido de um pino que o garoto tinha no corpo devido a uma cirurgia de osso quebrado anos antes.

O quão provável é: o quimerismo é extremamente raro em humanos, sendo mais comum em plantas e alguns animais específicos. Até hoje, são documentados cerca de 40 casos na literatura médica, sendo a maioria resultado de inseminação artificial, processo que facilita a absorção de um óvulo fecundado por outro (e também o caso do paciente na série). Mesmo assim, não há comprovação que o DNA “intruso” cause tantos danos como o episódio mostrou, além da conveniência do titânio que se se passou por “chip” ser muito improvável.

 

05 – Psicopatas gostam de castanhas (S06x11 – Remorse)

House e sua equipe tratam uma mulher bem sucedida que passa a ter dores intermitentes. O estranho comportamento da paciente leva à equipe a examinar seu cérebro através de uma ressonância magnética, que mostra que a área de seu cérebro responsável por sentir emoções não responde a estímulos. Isso significa que ela é uma psicopata – uma pessoa que sabe o que são emoções, mas não as sente de verdade. Esse diagnóstico explica a falta de remorso com que a paciente age – traindo seu marido, sabotando seu colega de trabalho, mentindo para familiares e médicos – além da completa indiferença com os outros ao seu redor. De início, a equipe de House não relaciona a psicopatia com a doença a ser diagnosticada, mas, após descobrirem que o distúrbio só se desenvolveu após a puberdade, os médicos consideram a psicopatia como um sintoma. Associada à mudança recente de hábitos alimentares da mulher – que passou a consumir mais castanhas, ricas em cobre – a psicopatia indica Doença de Wilson, uma doença que causa a incapacidade do fígado de filtrar o cobre do sangue, acumulando-o em lugares do corpo como os olhos e causando intoxicação, ao mesmo tempo que causa insuficiência de cobre digerido.

O quão provável é: a Doença de Wilson é rara, mas existe; seu sintoma mais comum são anéis coloridos ao redor da córnea do paciente, devido ao acúmulo de cobre (sintoma esse que não estava presente na paciente do episódio, embora ela tivesse tais anéis nas unhas). Não há associação clara entre psicopatia e a Doença de Wilson, embora seja notório que, em estágios avançados, o acúmulo de cobre possa causar transtornos psicológicos e neurológicos diversos. O fato da paciente ter vontade de comer castanhas é coerente, visto que, por não filtrar o cobre, o corpo manda um alerta para o cérebro para maior ingestão de alimentos ricos do nutriente, como castanhas.


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