A pílula anticoncepcional também importa para homens. Por que eles não tomam?

Por Ane Cristina (anecristina34@gmail.com )

As primeiras pílulas anticoncepcionais surgiram em 1960. Apesar de serem reconhecidas como precursoras da Revolução Sexual do século XX, alguns estudiosos acreditam que o pontapé inicial dessa “liberdade sexual” que conhecemos hoje foi, na verdade, a penicilina, descoberta na em 1920 e usada clinicamente para tratar a sífilis Doença Sexualmente Transmissível (DST) que é conhecida por deixar sequelas graves, podendo até provocar a morte na década de 1940. Segundo pesquisa realizada por Andrew Francis, economista da Universidade Emory, nos EUA, ao passo que as mortes por sífilis diminuiam, os casos de gonorreia, outra DST, e de filhos indesejados cresciam. Desses dados é possível depreender que, com um tratamento eficaz para a sífilis, um “processo” de revolução sexual já estava a caminho. Faltava ainda uma forma confiável de se evitar gravidezes indesejadas, o que não estava muito longe de ser alcançado.

Margaret Sanger foi a pessoa responsável por idealizar um método de contracepção feminino que não dependesse da permissão do parceiro para ser usado. Margaret, que era enfermeira e ativista, contou com o auxílio de Gregory Pincus, cientista, biólogo e pesquisador; John Rock, ginecologista e obstetra; e Katharine McCormick, bióloga, ativista feminista e responsável pelo financiamento do projeto de desenvolvimento da pílula.

O primeiro anticoncepcional, Enovid, passou a ser comercializado em 1957. Na verdade, o medicamento era vendido como uma forma de se regular distúrbios menstruais. Na bula estava descrito um possível efeito colateral: a suspensão temporária da fertilidade. Foi esse efeito colateral que popularizou o Enovid. Em 1960, o medicamento passou a ser vendido como contraceptivo.

 

Efeitos causados pela pílula anticoncepcional

 

Independente da forma como o anticoncepcional é ingerido seja em pílulas ou de forma injetável o fato é que alterar de maneira artificial os hormônios que temos no corpo pode trazer consequências. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mulheres que tomam anticoncepcional têm de 4 a 6 vezes mais chances de desenvolver trombose doença causada por uma coagulação não esperada do sangue. Entretanto, a possibilidade ainda é pequena se não existirem outros fatores de influência, como o hábito de fumar, diabetes, obesidade e/ou enxaqueca e histórico de trombose na família.

Há ainda a relação entre o uso de anticoncepcionais e o desenvolvimento de depressão risco maior para as adolescentes. Segundo um estudo da Universidade de Copenhague, realizado com todos os registros médicos da população feminina da Dinamarca, para quem usa anticoncepcional, a chance de desenvolver depressão pode ser até 100% maior, comparado às mulheres que não utilizam do método contraceptivo. O risco aumenta para quem consome o medicamento através de adesivo sintético. Usando pílula, a chance de desenvolver depressão aumenta apenas 23%. Segundo o estudo, entre adolescentes de 15 a 19 anos, o perigo é ainda maior. As jovens que tomam a mini-pílula combinada apresentaram 120% a mais de chance de desenvolver depressão.

Existem também reações comuns descritas nas bulas dos anticoncepcionais: ganho de peso, alterações de humor, dor de cabeça, náuseas, etc. A estudante Letícia Martins, de 20 anos, toma anticoncepcional há quatro anos e conta que passou por várias oscilações ao tomar a primeira pílula, o que a levou a trocar por outra com uma composição diferente: “A primeira não deu muito certo, justamente por causa dos efeitos colaterais. Fisicamente, eu inchava muito, ganhei 4 kg só por causa da pílula. Internamente, eu sentia muito estresse, tudo me deixava muito agitada ou então não sentia nada, era uma total apática quando se tratava de me comover com algo.” Segundo Letícia, a nova pílula não provoca esses efeitos, mas ela ainda sofre com enxaquecas constantes.

 

Anticoncepcional além do contraceptivo

É importante ressaltar que o medicamento não é utilizado só para prevenir gestações indesejadas. É o caso de Letícia, que, além da finalidade contraceptiva, também toma para aliviar os sintomas menstruais: “Hoje eu tomo porque a minha menstruação era muito agressiva (cólicas, dores, enjoos, etc) e o ac corta tudo isso.” Segundo a Dra. Mariana Telles Brandão, ginecologista e obstetra, o uso dos anticoncepcionais só aumentou nos últimos anos, já que também são utilizados no tratamento de doenças como a Síndrome do Ovário Policístico (SOP), endometriose, sangramento uterino anormal, TPM, etc.: “O anticoncepcional é grande aliado no tratamento da SOP [e de outras doenças], mas não podemos esquecer que, por ser uma doença metabólica, deve ser instituído tratamento coadjuvante com outros medicamentos e mudança no estilo de vida.”

 

O que recomendam os ginecologistas

Na opinião da Dra. Mariana, o melhor método contraceptivo é a camisinha que, além de prevenir gestações indesejadas, é a única forma de se evitar também a transmissão de DSTs. Segundo a Dra., se a paciente manifestar vontade, ela orienta a dupla proteção, que é o uso combinado de camisinha e anticoncepcional: “Dentre os [anticoncepcionais] hormonais eu recomendo o que mais se adapte a paciente de acordo com sua vida cotidiana e também financeira.” A médica ressalta que existem muitos métodos hormonais, até para mulheres que não podem usar estrogênio, como o Implanon NXT, um anticoncepcional que é implantado por dentro da pele, como um adesivo interno. Seu uso, que é contínuo, pode durar até 3 anos. É muito importante que, antes de utilizar qualquer método contraceptivo, a paciente consulte seu médico ginecologista.

 

E o anticoncepcional masculino?

Há aproximadamente um ano, saiu em diversos canais de comunicação a notícia de que testes de anticoncepcionais masculinos haviam sido cancelados após os voluntários terem sofrido aparentemente as mesmas reações que as mulheres sofrem há mais de meio século. A injeção, uma mistura de testosterona sintética e enantato de noretisterona, era aplicada a cada 8 semanas. O medicamento se mostrou seguro, alcançando 96% de eficácia na prevenção da gravidez, chegando perto dos 98% da pílula feminina. O fator decisivo para que os pesquisadores interrompessem os testes foram as alterações comportamentais, que afetaram 20% dos voluntários e não eram esperados pelos cientistas.

Ainda que a notícia tenha irritado muitas mulheres, já que os efeitos colaterais causados a elas nunca impediram pesquisas nesse âmbito é importante que o anticoncepcional masculino só seja liberado depois de testes que comprovem sua segurança — para que os homens não precisem arcar com as mesmas consequências que mulheres arcam atualmente.

 

Outras opções

Ainda não há data para que as pílulas anticoncepcionais masculinas cheguem às mãos dos consumidores, mas existem outras possibilidades que parecem estar mais próximas. Uma delas é o Vasalgel, desenvolvido pela Parsemus Foundation (prometido para chegar ao mercado este ano, o que não aconteceu). O medicamento em forma de gel não modificaria a produção de hormônios. O gel, que já foi testado em primatas e obteve 100% de sucesso,  é injetado no canal que leva os espermatozoides ao pênis, bloqueando a passagem, como ocorre na vasectomia. A diferença entre o Vasalgel e o procedimento cirúrgico é que um deles seria revertido com uma simples injeção de bicarbonato de sódio. O Vasalgel foi inspirado no RISUG, outro gel, de origem indiana, que também está em fase de testes. Segundo os responsáveis por tais pesquisas independentes, o problema está no fato de que os géis não são interesse da grande indústria farmacêutica, a falta de verba atrasa as pesquisas e o consequente lançamento dos produtos no mercado.

Por ora, além da camisinha, a única forma disponível para que os homens possam evitar gestações indesejadas é a vasectomia, método cirúrgico e irreversível.

 


Tags: , , , , , , , ,