“A ficção científica não prevê; descreve”

Por: Júlia Mayumi (juliasueyoshi@gmail.com)

 

A frase citada faz parte da introdução, escrita por Ursula K. Le Guin, para seu premiado romance “A Mão Esquerda da Escuridão” (The Left Hand of Darkness, 1969), publicado no Brasil pela Editora Aleph. O livro, seguindo esse mandamento, descreve um planeta habitado por humanos com uma característica peculiar: não possuem sexo definido, são homens e mulheres e nenhum dos dois ao mesmo tempo. Genly Ai é o protagonista, cuja missão é convencer os habitantes de Gethen a se unirem a uma organização interplanetária chamada Ekumen, semelhante à ONU. Para isso, ele precisa entender como aquela complexa sociedade funciona – o que implica na difícil superação de seus preconceitos a respeito de machos e fêmeas.

A premissa, apesar de interessante, decepciona os leitores mais dispersos, pois há poucas reflexões diretas por parte do protagonista acerca dos impactos da não-binariedade de Gethen. Porém, as discriminações de gênero enraizadas na mente de Genly Ai se mostram em todas as percepções do embaixador acerca daquele planeta. Sua missão é atrasada em diversos momentos por decisões tomadas a partir de conceitos que não se aplicavam naquele mundo, pois Genly Ai estabelece, como todos nós, o gênero como um dos principais fatores de definição de um indivíduo.

O personagem se mostra bastante machista em vários momentos, mas, considerando o contexto em que o próprio protagonista se encontra – o questionamento da sua própria identidade enquanto homem –, são declarações coerentes, ainda que bastante revoltantes – revolta esta que fazia parte da segunda onda feminista dos anos 60-70, época em que o livro foi escrito. Nesse período, as mulheres lutavam principalmente pelo fim da discriminação e pela igualdade total entre os sexos, apoiando-se na primeira onda, que conquistou direitos políticos.

O romance é, inclusive, feminista por definição, uma vez que trata de uma sociedade sem papeis estabelecidos por gênero. A decisão da autora de criar um narrador homem, o sexo que detém os privilégios na maioria das sociedades terráqueas, serviu para reforçar o impacto que a natureza getheniana traz ao leitor. A relação de Genly Ai com Estraven, um político de Karhide, uma das nações do planeta alienígena, é um dos pontos mais explorados da narrativa, de forma magistral. Em vários momentos, o terráqueo admite demorar a confiar em Estraven por não ter certeza acerca das intenções do getheniano, pois Genly Ai, como humano, considera o gênero essencial para a definição do caráter de um ser.

 

Embora alguns capítulos sejam mais lentos, é neles que reside a oportunidade de abraçar os sentimentos de Genly Ai, discretos diante do estilo frio que caracteriza a maior parte do romance – que combina bastante com a temperatura de Gethen, também conhecido como Inverno. Dessa forma, é necessário paciência, pois as ações demoram a se concretizar. É preciso, também, prestar muita atenção no idioma getheniano, na forma como é concebido, principalmente em comparação com o português, que marca com tanta ênfase o gênero nas palavras – o protagonista, em várias ocasiões, encontra dificuldade em utilizar adjetivos e pronomes.

Além de Genly Ai e Estraven, os outros personagens têm pouco destaque; suas participações são restritas a partes específicas da história. São, no entanto, bastante eficazes em sua missão, como secundários, de influenciar no desenvolvimento do protagonista, que se dá de forma tão criativa quanto o próprio enredo.

Ursula K. Le Guin se consagrou como uma das principais autoras de ficção científica, famosa não só pela série O Ciclo de Hainish, da qual A Mão Esquerda faz parte, mas pelo “Ciclo de Terramar”, que inspirou um filme do Studio Ghibli e uma minissérie do canal Sci-Fi. Recebeu também diversos prêmios, sendo a primeira pessoa a ser laureada, duas vezes, pelos prestigiados Hugo e Nebula.

A Mão Esquerda da Escuridão traz uma análise antropológica interessante e bem apresentada, mas que pode não agradar aos que não estão acostumados com narrativas mais analíticas. É uma leitura instigante, embora um pouco travada em determinados momentos. Mesmo assim, Neil Gaiman define, em prólogo presente na edição da Aleph, o romance como “um clássico porque destrinça nossas suposições enquanto conta uma história e nos faz nos importarmos com as pessoas nela, e porque Le Guin é sempre elegante e precisa em seu texto”.


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