De losers a exemplos: a influência dos programas de TV nos alunos estudiosos

Por: Julia Mayumi (juliasueyoshi@gmail.com)
Arte: Julia Mancilha

Antes de Hermione Granger (da saga Harry Potter), Spencer Reid (da série policial Criminal Minds) e Tony Stark (da franquia Os Vingadores), conquistarem os fãs com seus cérebros geniais, os personagens intelectuais passaram anos sofrendo nas mãos de valentões – entregando seus lanches, fazendo tarefas alheias e tendo as cabeças enfiadas em privadas. A ideia, de maneira geral, era uma só: estudar é para fracassados. Esse tipo de representação prejudica muito o comportamento dos estudantes na vida real, conforme explica Emiliano Chagas, coordenador da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) em São Paulo e professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP): “os alunos em desenvolvimento, tanto intelectual quanto social, captam as coisas ao redor deles. Se eles são bombardeadas pelos pais ou pela TV que estudar não faz diferença, isso acaba chegando em sala de aula.”

Programas educativos desenvolvidos por diversos estúdios surgem aos poucos, com o objetivo de estimular o interesse dos pequenos pelas ciências. Paralelamente, diversas campanhas contra o bullying sofrido pelas crianças estudiosas e a criação de personagens inteligentes e descolados vieram para mudar o estereótipo de nerd loser, o “CDF perdedor”.

Ciência pode ser divertida

O programa educativo que mais marcou presença nas salas de aula foi “O Mundo de Beakman” (Beakman’s World, 1992-1998). Estrelado por Paul Zaloom no papel do Prof. Beakman, a série foi exibida no Brasil pela TV Cultura entre 1994 e 2002. Inspirada nas tirinhas de “You Can With Beakman and Jax”, criadas por Jok Church, em que dois personagens respondem a questões sobre ciência, tecnologia e história “enviadas” por leitores, O Mundo de Beakman seguia essa mesma ideia, tendo Lester, um homem vestido de rato, como auxiliar do protagonista. No seu auge, a série chegou a receber mil cartas por semana – sim, as perguntas eram enviadas por telespectadores reais, que aprendiam, com Beakman, a reproduzir experiências científicas em suas próprias casas.

Paul Zaloom, embora bastante convincente no papel de um cientista, mas não de fato um, reconhecia a importância e o lado divertido da ciência. “Sou curioso em saber como as coisas são, como funcionam, o jeito que funcionam e a Ciência me fornece as ferramentas para descobrir muitas dessas coisas, o que é muito legal”, afirmou em entrevista à Saraiva Conteúdo durante visita ao Brasil em 2012.

Para as crianças que assistiam à TV Cultura entre 2001 e 2005, a principal responsável por satisfazer curiosidades clássicas, como a origem da chuva e do arco-íris, era a pequena Kika, protagonista da série de curtas “De Onde Vem”. Com apenas 20 episódios, foi um grande sucesso, registrando de 4 a 5 pontos de audiência. Se eu contar, você não vai acreditar, mas todos estão disponíveis na íntegra no youtube.

Campeã de programas educativos em sua grade, a TV Cultura também trouxe aos lares brasileiros o inesquecível lêmure Zooboomafoo, que protagonizava a série homônima. Martin e Chris Kratt, irmãos biólogos, acompanhavam o primata nas descobertas do mundo animal, estimulando a curiosidade das crianças acerca das outras formas de vida que vivem no planeta. Rafael Marques, de 19 anos, foi uma delas. Estudante de Ciências Biológicas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), ele conta que a série motivou seu interesse pela biologia: “o programa explicava como as coisas funcionam para os animais, me instigando cada vez mais a procurar outras fontes de informação, em canais como o Animal Planet; fui me apaixonando cada vez mais pelo assunto”.

Maria Cecilia Ribeiro, pedagoga e especialista em psicopedagogia e gestão escolar, explica que é muito importante incentivar o gosto pela ciência desde cedo: “a parte de ciências traz a possibilidade de desenvolver nos alunos um raciocínio, levando-os a pensarem melhor suas ações futuras, facilitando o convívio em sociedade. As ciências também tornam o indivíduo ativo, fazendo com que ele tenha espírito investigativo e promova a cidadania.”

Visando esse fim, trazer personagens cientistas aos desenhos e filmes é tão importante quanto explicar o conteúdo em si. Ribeiro aponta que as crianças aprendem a partir de exemplos: “por meio da própria imagem do desenho animado, são mostradas determinadas características, que podem influenciar positivamente no desenvolvimento das crianças.”

As Aventuras de Jimmy Neutron: o Menino Gênio (The Adventures of Jimmy Neutron: Boy Genious, Nickelodeon, 2002-2006) e o Laboratório de Dexter (Dexter’s Laboratory, Hanna-Barbera Studios, 1996-2003) são dois desenhos que trazem laboratórios como principais cenários e garotos com QI acima da média como protagonistas. Ruan Rossato, 20 anos, estuda Engenharia Mecatrônica na Escola Politécnica da USP e afirma que esses programas o motivaram à área: “eu os via tendo as ideias e fazendo as invenções e queria poder fazer isso também”. Além disso, o estudante destaca a proposta de resolver problemas usando tecnologia e inteligência, abordada por ambos os personagens, que considera muito pertinente.

Outro personagem cientista muito importante, principalmente para as crianças brasileiras, é o Franjinha, criado por Mauricio de Sousa para a Turma da Mônica. Responsável por diversas aventuras da turma graças às suas invenções, como a máquina do tempo, o menino é retratado como um garoto normal, sem parecer louco ou esquisito. O professor Emiliano elogia o personagem: “eu gosto da representação do Franjinha, não vejo ele como alguém maluco e muito nerd, que é o estereótipo dos cientistas”. Ele acredita que é importante colocar químicos, físicos, biólogos e matemáticos, entre outros, como pessoas comuns: “a proposta da exposição de um personagem cientista deveria ser alguém que é ‘normal’, que não tem superpoderes e contribui para a sociedade”.

Ser o melhor da turma nem sempre é a melhor posição na turma

Quando Cady conta a seu novo amigo que gosta de matemática, a reação do menino é dizer “que nojo”. Em diversos momentos do filme “Meninas Malvadas” (Mean Girls, 2004), a personagem vivida por Lindsey Lohan precisa disfarçar e até mesmo denegrir sua própria identidade, uma vez que se juntar à equipe de matemática, que se ligava aos interesses dela, significaria a derrocada de sua imagem perante os colegas.

Assim como Cady, vários estudantes da ficção tiveram suas boas notas como “justificativa” para a chacota sofrida por outros alunos. Brian Johnson, um dos protagonistas do clássico “O Clube dos Cinco” (The Breakfast Club, 1985), é um exemplo de nerd que é ridicularizado pela turma, ao ponto de, em determinado momento do filme, os personagens “populares” afirmarem que não o cumprimentariam se o vissem no corredor. George McFly, em “De Volta Para O Futuro” (Back to the future, 1985), chega a precisar da ajuda do próprio filho para conquistar sua futura esposa. Velma, em “Scooby-Doo 2: Monstros à Solta” (Scooby-Doo 2: Monsters Unleashed, 2004), é convencida por Daphne a mudar completamente sua personalidade para conquistar Patrick, o curador do museu por quem tem uma paixonite. Até mesmo Howard, Leonard, Sheldon e Raj, da série Big Bang: a Teoria (The Big Bang Theory, 2007-presente) que têm suas mentes brilhantes e seu gosto pelo mundo geek como motivos de orgulho, são motivo de piada perante outros personagens.

Essas situações não estão restritas, logicamente, à ficção. Barbara Benvenuto, 18 anos, conta que suas notas altas chamavam a atenção dos professores e afastavam os colegas. “Eu era excluída. Teve vezes que eu pegava a prova, via que tinha tirado dez e chorava, porque ao mesmo tempo que eu era obrigada a ir bem, eu não queria”. Assim como Cady, em Meninas Malvadas, em certo momento Barbara começou a acreditar que ir mal nas provas de propósito melhoraria a situação, mas não chegou a fazê-lo. “Achava que seria legal se eu começasse a tirar nota baixa e zoar na sala, para que os professores não gostassem mais de mim, achava que isso ia me fazer mais descolada”.

Para a pedagoga Maria Cecilia, esse tipo de bullying acontece porque a classe percebe o favoritismo do professor pelos alunos com melhores resultados nas provas. “O professor deve ser imparcial e parabenizar a todos; não pode mostrar nenhum tipo de preferência em sala de aula, ele deve dar chance de todos falarem, mostrar que todos são importantes”. E, embora filmes como os citados anteriormente desestimulem os nerds, Emiliano Chagas reforça: “o professor não deve desistir de mostrar ao aluno que estudar é legal, é uma das missões dele”.

Em 2014, uma campanha publicitária criada pelo canal VH1 trazia uma paródia da música “I will survive”, de Gloria Gaynor. Frases como “eu vou ser o CEO e você vai lustrar meus sapatos” compunham a paródia, que trazia a mesma mensagem de uma conhecida música da banda Os Seminovos: “o nerd de hoje é o cara rico de amanhã”. A propaganda gerou certa polêmica, pois parte da imprensa acreditou se tratar de promoção de vingança, enquanto muitos a consideraram um modo criativo de falar sobre bullying. De qualquer forma, foi relevante ao chamar a atenção das pessoas para esse problema.

Personagens estudiosos e programas sobre ciência em si são muito importantes para que o futuro traga novos cientistas que contribuirão com o desenvolvimento da sociedade. E, para os que estão caminhando entre os espinhos do bullying rumo a essa área, Barbara, que hoje estuda Bacharelado em Estatística no Instituto de Matemática e Estatística da USP, dá um conselho: “não liguem para o que falam, no futuro vai valer tudo a pena”.


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