“Nós”: a primeira das infinitas revoluções

Por: Breno Deolindo (breno.deolindo.silva@gmail.com)

George Orwell e Aldous Huxley são amplamente reconhecidos como mestres das distopias. “1984” e “Admirável Mundo Novo” são obras-primas atemporais e até hoje influenciam títulos contemporâneos, como “Maze Runner” e “Jogos Vorazes”. O início desse estilo, no entanto, é pouco citado: ele veio com “Nós”, de Ievguêni Zamiátin. O romance russo foi publicado em 1924 e pavimentou os caminhos de Orwell e Huxley para produzirem seus livros.

A história de “Nós” é ambientada num futuro distante, onde a civilização como conhecemos é chamada de “antiga” e até mesmo de “selvagem”, e em seu lugar existe o Estado Único, governado por um líder chamado de Benfeitor, que é sempre reeleito por unanimidade. O leitor é conduzido por esse universo nas palavras de D-503, um dos habitantes dessa sociedade, que narra a trama por meio de suas anotações. De início, demora-se alguns capítulos para compreender todas as nuances do modo de vida do narrador; o fato de seu nome e de todos os outros indivíduos ser um número, por exemplo, causa certo estranhamento.

Créditos: Beatriz Gomes

Dúvidas ainda maiores surgem quando a Tábua das Horas é citada: uma espécie de relógio que dita o comportamento de toda a população do Estado Único. Seguindo seus padrões, todos os números (como são chamados os habitantes) têm de dormir e acordar no mesmo horário, assim como trabalhar, almoçar e jantar. Suas relações sexuais também possuem momentos específicos para acontecer, e são controladas por talões. Cada folha do talão permite que as cortinas de suas casas transparentes sejam fechadas, o único momento de privacidade concedido pela lei.

Dessa maneira, os sentimentos e emoções dos números são praticamente nulos; D-503 defende que essa é a maneira de manter uma sociedade tão exata e metódica em pleno funcionamento. Além disso, D é um dos responsáveis pela construção da Integral, uma espécie de foguete que levará as características do Estado Único para mundos distantes, ultrapassando o Muro Verde que os isola totalmente da natureza. Essa obra, promovida pelo governo, toma grande parte do tempo do protagonista, que sempre se mostra íntegro e disposto a obedecer às regras impostas pelo Benfeitor, até desenvolver a doença da imaginação.

O encontro do protagonista com I-330, uma mulher que o atrai à primeira vista, começa a desvirtuar suas concepções sobre a rotina dos números. A partir do momento que começa a imaginar e experimentar algumas práticas proibidas, como o consumo de álcool, D não consegue voltar a sua metódica de sempre e se une a I numa revolta contra o sistema ditatorial em que vivem, ainda que tenha muitas dúvidas sobre o movimento que ele está participando.

Zamiátin tem um estilo de escrita que flutua livremente entre o abstrato e o concreto, dificultando o entendimento de algumas passagens. Sua consciência política, por outro lado, é um destaque no livro e chega a ser elogiada pelo próprio George Orwell, em sua resenha anexada ao livro. Além desse extra, a edição da Aleph traz um interessante jogo de fontes, que vão se alterando de acordo com o momento da narrativa, aliado a inúmeras páginas com belíssimas artes e citações que rodeiam o universo do livro. “Nós”, traduzido diretamente do russo para o português pela primeira vez, pode ser tanto a porta de entrada do leitor às antigas distopias quanto um ótimo complemento aos romances de Orwell e Huxley.


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