Afinal, o Brasil realmente está livre de furacões, vulcões e terremotos?

 

Por: Jonas Santana (jonasribeirodesantana@usp.br)
Será que o Brasil está livre desses grandes fenômenos naturais? Imagem: Jonas Santana

Recentemente, o mundo foi surpreendido por diversos furacões no Atlântico, que trouxeram consequências desastrosas para algumas ilhas do Caribe e países da América Central. E, ainda mais recente, o México foi atingido por alguns terremotos que causaram milhares de vítimas. Esses fenômenos acontecem frequentemente por todo o mundo, porém dificilmente eles visitam o Brasil. Mas será mesmo? Pensando nisso, o Laboratório entrevistou alguns profissionais para explicar por que eles acontecem e se realmente este grande país está livre desses fenômenos.

Furacão, ciclone, tufão e tornado

Segundo a revista Mundo Estranho, furacão, ciclone e tufão se referem ao mesmo fenômeno, mas possuem denominações diferentes de região para região. Na Índia e Austrália, por exemplo, utilizam-se o termo “ciclone”. No Japão e na Indonésia, tufões. Já nas Américas, a familiarização é com a terminologia “furacão”. De acordo com o estudante de Astronomia da UFRGS, que é professor de Física do Aula Livre, Rafael Sarate, o furacão precisa ter condições favoráveis para surgir, uma delas é a temperatura das águas dos mares, que precisam estar acima de 27 °C para gerar uma grande quantidade de vapor no ar. Ao se condensar para formar nuvens, este libera calor latente para o ar, que por consequência se expande e move-se para regiões mais altas da atmosfera, criando uma zona de baixa pressão local. Essa zona de baixa pressão torna-se como um absorsor do ar relativamente frio da redondeza, o qual também conterá vapor de água, alimentando o processo de condensação, aquecimento do ar, formação de baixa pressão e assim sucessivamente. 

Veja mais curiosidades desse fenômeno no vídeo a seguir, produzido originalmente pela Agence France-Presse

Os mares brasileiros possuem, geralmente, temperaturas menores que a necessária para surgir esse fenômeno. Porém, segundo Sarate, com o aquecimento global, as águas dos oceanos tendem a ficar mais quentes, e, se isso ocorrer, o Brasil pode  vir a se tornar mais um país alvo de furacões.

Se bem que o país, em 2004, já foi surpreendido com um evento inédito: uma tempestade, com as mesmas características de um furacão, devastou o litoral de Santa Catarina. Muitos meteorologistas a consideram realmente um furacão. No entanto, foi a única vez que o país foi atingido por esse fenômeno desde quando se iniciaram os estudos dessas causas naturais.

Já o tornado é o único que se diferencia entre os quatro. Ao contrário dos anteriores, os tornados se formam no continente, são muito menores e duram alguns minutos, porém são bem mais destruidores: seus ventos podem ultrapassar 500 km/h. No Brasil, é muito mais comum a ocorrência de tornados que de furacões, como mostra uma pesquisa feita pela Unicamp, que resgatou registros desde 1990 até 2012. Segundo o estudo, neste período, ocorreu, no mínimo, 205 tornados, o que coloca o Brasil entre os países que mais sofrem com esse evento natural no mundo. Em um artigo do Ciência Hoje, o pesquisador e geógrafo Daniel Henrique Candido, autor da pesquisa da Unicamp, explica que os tornados se formam quando ocorre uma enorme tempestade em áreas planificadas. Durante esses eventos, o contraste entre massas de ar quentes e frias com diferentes pressões gera a nuvem com forma de cone e movimentos de redemoinho que atinge o solo e devasta o que estiver em seu caminho.

O tornado mais violento no Brasil ocorreu em 30 de setembro de 1991 na cidade de Itu, interior paulista. Ele provocou 15 mortes e destruiu casas, plantações, torres de transmissão de energia e até conseguiu derrubar um monumento de 100 toneladas. Acredita-se que os ventos atingiram pelo menos 300 km/h.

Terremoto, maremoto e vulcão

Os três eventos possuem uma coincidência: todos envolvem placas litosféricas, que, segundo a Teoria da Tectônica de Placas, são conjuntos de blocos rígidos que compõem a camada mais externa terrestre, conhecida por litosfera, responsável por sustentar os oceanos e continentes. Essas placas se movimentam e podem se afastar (zona de divergência) ou se aproximar (zona de convergência) e provocar esses fenômenos naturais. 

As principais Placas Litosféricas do mundo. Imagem: Reprodução

No caso do terremoto, as placas litosféricas acabam interagindo com maior intensidade nas zonas de convergência, acumulando tensão e liberando energia na forma de abalos. Essa energia se propaga em forma de ondas pelo planeta inteiro. O Brasil está distante das bordas de grandes placas e, por essa razão, muitos especulam que ele esteja livre de abalos sísmicos. Porém, não é o que afirma Marcelo Bianchi, professor doutor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). Segundo ele, pelo menos um terremoto acontece no Brasil todos os dias, mas, por estar longe dos encontros de grandes placas, os tremores são de baixa intensidade e muitas vezes não são percebidos pela população. Pelo país ter uma enorme extensão, os abalos podem acontecer em locais isolados e, por consequência, os tremores não são divulgados para além dessas regiões. No entanto, sempre existem exceções: de acordo com a revista EXAME, o maior terremoto registrado no Brasil foi em 1955 na Serra do Trombador, Mato Grosso, e alcançou 6,6 graus na escala Richter, na qual nunca ultrapassou a faixa dos 9. Mesmo sendo um forte abalo, a região atingida era pouco habitada, o que não trouxe grandes consequências.

Nesta mesma linha estão os maremotos, também conhecidos por “tsunamis”, que são ondas gigantes que se propagam pelo oceano, normalmente geradas pela interação de um sismo com a superfície do oceano. Por estarem no mar, quando as placas litosféricas se chocam, as ondas se propagam pelas águas. Sua intensidade, volume e tamanho são bem maiores em comparação com as ondas comuns nas praias. Tanto que quando elas atingem as costas, causam grandes desastres.

Já os vulcões são um pouco mais complexos. De acordo com Bianchi, a maioria dos vulcões surgem pelos processos de subducção, que é quando duas placas se chocam e uma se infiltra debaixo da outra. Uma parte dessa placa acaba entrando mais fundo do planeta provocando algumas reações. Essas reações, junto com o calor interno, tornam as rochas mais voláteis. Ou seja, as rochas passam para um estado de magma, chamado de processo de descompressão adiabática (variação da pressão) e nesse processo elas tendem a subir pela gravidade causando as erupções. Os vulcões estão associados às bordas das placas onde acontecem esse processo na maior parte do tempo.

No vídeo a seguir, na primeira parte é possível observar quando as placas se distanciam por estarem em uma zona de divergência. Já na segunda parte elas estão em uma zona de convergência, o que acontece, no entanto, é o processo de subducção.

Pelo Brasil não estar próximo a nenhum encontro de grandes placas acaba tornando inviável o surgimento desse fenômeno. No entanto, ainda de acordo com o professor Marcelo Bianchi, o país possui derrames antigos de lava. Na era Mesozoica, há cerca de 200 milhões de anos, houve manifestações vulcânicas nas regiões do sul e sudeste brasileiro, mais precisamente na Bacia do Paraná. Nesta época a área que hoje chamamos de Brasil ficava próxima de bordas de placas. Ainda esse derrame permanece lá, mas os vulcões se foram.


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