Promessas e perigos de dietas da moda

Métodos nutricionais criam ilusões e podem colocar em risco a saúde da população

Por: Gabriela Bonin

Quem nunca ouviu falar no chá milagroso que “seca” barriga? Ou na receita para perder 5kg em uma semana? Inserida em uma busca incessante pelo prazer estético e em meio a tantas promessas de emagrecimento, a sociedade atual propaga informações falsas e dietas milagrosas que podem ser prejudiciais à saúde. Esse panorama causa preocupação entre os profissionais de saúde, que buscam esclarecer dúvidas e evitar que a população se deixe levar pelo estilo de vida alheio, seguindo dicas que nem sempre são baseadas em conhecimentos científicos. A nutricionista Marta Barbosa Figueiredo e a estudante do último semestre de nutrição Paloma Tebar dos Santos explicam melhor a eficácia de alguns métodos populares, assim como os mitos propagados pela população.

arte: Letícia Vieira, Jornalismo Júnior

Cortando carboidratos

Dentre tantas dietas famosas, a “low-carb” é a favorita de muitos perfis influentes do mundo digital. Ela consiste na redução da ingestão de carboidratos, como arroz, batata, macarrão e pão, e no aumento do consumo de proteínas. A justificativa para o emagrecimento se encontra na ausência de picos de insulina (hormônio responsável pela entrada de glicose nas células), o que permite a melhor liberação do glucagon, hormônio encarregado da queima de gordura estocada. “Em uma dieta pobre em carboidratos há uma oxidação lipídica, promovendo um efeito de saciedade e um aumento do gasto energético, que, ligado a outros fatores, deve promover um balanço energético negativo e consequente perda de peso”, explica Paloma. “Contudo, diversos efeitos metabólicos são gerados, pois trata-se de um processo catabólico, podendo ocorrer também a perda de massa magra, além de sintomas desagradáveis”. A estudante também cita alguns estudos que relacionam esse método com a diminuição dos triglicérides na corrente sanguínea, podendo auxiliar no tratamento de portadores de Diabetes Mellitus por melhorar a resistência à insulina e levar ao maior controle glicêmico.

Assim como todas as mudanças alimentares, porém, a utilização desse método deve ser acompanhada de um profissional. “Quando a pessoa faz uma dieta restritiva em carboidratos, ou seja, corta o açúcar de uma certa forma, isso pode levar à algumas deficiências nutricionais”, diz a nutricionista Marta Figueiredo. Ela também afirma que a dieta pode promover redução da gordura corporal e perda de peso, mas defende que o consumo de carboidratos não deve ser evitado totalmente por muito tempo. “Pode acontecer deficiência de vitaminas, principalmente do complexo B, da vitamina A e vitamina E. O que a gente observa é que, ao tirar carboidratos, a pessoa fica lenta e irritada, não dorme bem à noite. Afinal, o açúcar está envolvido no nosso metabolismo energético”, explica a profissional.

Incentivo ao consumo de gorduras

Aliada à restrição de carboidratos, como na low-carb, a dieta cetogênica se popularizou por incluir um alto consumo de gorduras, utilizando-as como fonte energética. Essa mudança incentiva a produção de corpos cetônicos — substâncias solúveis em água derivadas da quebra dos ácidos graxos —, que são consumidos como energia pelas células. Assim, o método promete queimar gordura corporal sem que haja perda de massa magra, mas, se não feito corretamente, o efeito pode não ser o desejado.

Marta explica que a cetogênica foi, na verdade, desenvolvida para o tratamento de epilepsia e que é muito eficaz nesse quesito, sendo usada posteriormente para a perda de peso. Todavia, a nutricionista alerta que, assim como na low-carb, pode haver perda de nutrientes. “Não é possível fazer uma dieta cetogênica durante toda a vida. É preciso acompanhar os níveis de cortisol e a questão lipídica do organismo. Já cheguei a atender um paciente que fez a dieta cetogênica e os níveis de colesterol ruim (LDL) subiram, ao invés de melhorarem. Então, a gente não pode deixar nosso organismo restrito, tudo tem que ser muito bem avaliado”.

Seguindo o mesmo pensamento, Paloma reitera que essas dietas podem ocasionar sintomas como cansaço, fadiga e até desidratação, além de problemas cardiovasculares quando a qualidade das gorduras consumidas não são levadas em conta. “Em alguns casos a restrição pode ser interessante, mas devem ser recomendadas apenas por nutricionista”, reforça.

Desmistificando o vegetarianismo

“De onde você tira suas proteínas?”. Essa é a frase mais ouvida por vegetarianos e veganos, que precisam explicar repetidamente a existência da proteína vegetal. Esse estilo de vida vem ganhando força e se provou mais sustentável que o consumo de carne animal. “Estudos sobre vegetarianismo citam melhora no bem estar, aumento da longevidade, além do consumo de carnes estar algumas vezes relacionado ao desenvolvimento de doenças cardíacas e à produção de toxinas no organismo”, diz Paloma ao ser questionada sobre os benefícios de uma dieta vegetariana.

Marta Figueiredo garante que é uma dieta super possível de se fazer, uma vez que há uma enorme variedade de grãos carregados de proteína. “A única preocupação nossa é a questão do complexo B, então sempre fazemos exames e o acompanhamento, mas aqueles que comem bem normalmente não tem esse tipo de problema”.

A desintoxicação nas dietas líquidas

Qual é a real eficácia dos famosos sucos milagrosos do emagrecimento? Paloma esclarece que esse método consiste em beber líquidos, exclusivamente sucos de frutas e hortaliças, podendo também acrescentar as frutas e hortaliças in natura. No entanto, a estudante relembra que, segundo o CFN (Conselho Federal de Nutricionistas), faltam evidências científicas que comprovem a “desintoxicação”, visto que o processo de desintoxicação ocorre naturalmente e diariamente no corpo humano, quando utilizada uma alimentação adequada e saudável. 

Muitas marcas investiram em “kits detox”, nos quais estão inclusos sucos prensados a frio para um dia de alimentação restritivamente líquida (Foto: Urban Remedy)

Ambas as profissionais, Marta e Paloma, dão ênfase em um ponto específico: o comprometimento da vida social. Uma dieta como essa faz com que a pessoa deixe de se alimentar ao sair com amigos ou família, podendo até levar ao isolamento, justificado pela necessidade de cumprimento da dieta. “O ser humano foi desenvolvido para comer. Temos um sistema de mastigação! Dieta líquida é prescrita para pacientes pós cirurgia bariátrica ou dentária, aqueles que realmente não podem comer“, cita Marta.

Glúten: vilão?

Restringir o glúten se tornou, de modo errôneo, característica de quem busca ser saudável. Paloma explica que o glúten é uma proteína composta por gliadina e glutenina, ambas presentes nas sementes de trigo, cevada, centeio e em menor quantidade na aveia. “A doença celíaca ou sensibilidade ao glúten é uma doença autoimune, caracterizada pela intolerância permanente a qual é ocasionada pela presença da gliadina. Ela ocasiona diversos sintomas indesejados tais como diarreia, dor e deficiências nutricionais”, diz a estudante. Assim, a restrição é indicada para aqueles que fizeram exames e se provaram intolerantes. Marta ainda sugere: “o que dá pra fazer com o paciente que não é celíaco é colocar outras formas de farinhas, agregar valor nutricional para não ficar só na farinha refinada, sem realizar uma restrição total sem necessidade”.

Reeducação alimentar: a solução final para as dietas da moda

Atualmente, profissionais da área da nutrição têm uma preocupação redobrada com a saúde pública. Isso porque o compartilhamento rápido de informação faz com que muitos alcancem visibilidade e propaguem um conhecimento errado. “Hoje, eu me espanto ao ver que existem pessoas que compram cardápios pela internet ou seguem receitas sem fundamento algum”, diz a nutricionista Marta. “As pessoas precisam buscar ajuda profissional, afinal cada pessoa tem um organismo e é preciso uma avaliação antes de começar qualquer tipo de dieta”, ela completa.

Técnica em nutrição e cursando seu último semestre na faculdade, Paloma se mostra contrária às dietas da moda, alegando que é necessário realizar adaptações baseadas no objetivo da pessoa. “Prefiro atuar com a reeducação alimentar para que o indivíduo seja esteticamente atingido, mas priorizando o lado fisiológico. Corpo e organismo precisam trabalhar em conjunto e os benefícios precisam ser para a saúde e para o bem estar”.