Dívida ao clássico: as noções de ciência atuais como fruto dos gregos

Por: Daniel Medina (danieltmedina@gmail.com)

Ao pensarmos em ciência, é possível que associemos a ideia às nossas noções atuais do científico. Provavelmente imagens muito enigmáticas desse mundo meio distante podem vir à nossa mente, como imaginar laboratórios, elementos ligados à natureza ou coisas básicas como uma maçã caindo de uma árvore. Justamente, algumas dessas figurações mais comuns e simplórias existem por um motivo: tudo iniciou-se pela observação e pela curiosidade em entender os acontecimentos mais simples que ocorrem a cada momento entorno do ser humano.

É natural ao homem querer compreender tudo aquilo que ocorre ao seu redor e, mais do que isso, evidencia estar motivado por uma noção de “controle” dos fenômenos que presencia. Assim, seria quase instintivo da humanidade sentir a necessidade de dar significação ao mundo externo. É dessa curiosidade e tentativa que foi se desenvolvendo a ciência.

É comum afirmar que o surgimento do pensamento científico está vinculado à Grécia e também à China, mas há certas diferenças entre a forma como as noções foram desenvolvidas por cada um.

Por que o destaque à Grécia Antiga? 

Créditos: Daniel Medina

Algo importante a se ressaltar é que já existiam certos conceitos que podem ser entendidos como científicos antes do aporte trazido pelos gregos. A diferença, então, entre as noções anteriores (como técnicas medicinais baseadas em ervas nos egípcios e a utilização da roda para transporte) e as dos gregos, foi que os últimos realizaram uma separação entre a origem dos fenômenos. De acordo com o professor Osvaldo Pessoa Jr., que ministra a disciplina de Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência I, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), na sociedade grega “surgiu um grupo que discutia questões sobre a natureza sem projetar nele seres antropomórficos”. Esse fenômeno, define ele, é comum: “Mesmo hoje há aqueles que são mais materialistas e os que são mais espiritualistas: essa variância é normal em sociedades.”

Dessa forma, é associado aos gregos a responsabilidade por separar um pouco mais as noções mitológicas das noções naturais, dando assim uma outra possibilidade de entendimento para as questões. Na China ocorreu um processo semelhante, porém os chineses e os gregos diferenciavam-se devido à sua especificação: os primeiros eram mais avançados nas técnicas, de acordo com Osvaldo “muitas delas foram exportadas para o Ocidente, como a bússola, a pólvora e a imprensa de tipos móveis (…). Os gregos e seus povos vizinhos introduziram modelos geométricos sofisticados na astronomia, ao contrário dos chineses, a teorização tinha maior variedade no mundo grego e helenístico.”

Segundo Silvio Seno Chibeni, doutor em Lógica e Filosofia da Ciência pela Universidade Estadual de Campinas, “a Grécia Antiga testemunhou o surgimento de uma perspectiva cognitiva nova: a busca do conhecimento pelo próprio conhecimento, por mera curiosidade intelectual. Aqueles que cultivavam essa busca do ‘saber pelo saber’ foram chamados filósofos.” apontando aqueles  “que amam ou buscam a sabedoria”. Essa busca, porém, era limitada a apenas uma parcela da sociedade, que podia se dedicar ao ócio, ao pensamento, à reflexão. Dessa maneira, com o surgimento de novas ideias e posicionamentos, criou-se o que ficou conhecido como ‘filosofia natural’, que englobava grandes áreas das ciências naturais, hoje conhecidas e mais divididas em física, química e biologia, por exemplo.

Ao mesmo tempo, pode ocorrer o questionamento: por que na Grécia Antiga, e não em outro momento ou lugar? Segundo o professor Osvaldo “uma contribuição decisiva foi dada pela organização política de cidades-estado como Mileto, Atenas e Corinto, onde os cidadãos participavam ativamente na escolha de membros do governo e na elaboração de leis.” Por isso, é atribuído aos pensadores da cidade de Mileto, conhecidos como filósofos ‘pré-socráticos’, uma grande parte das contribuições que surgiram no séculos V a.C. e VI a.C.

Alguns dos primeiros dilemas 

Dos assuntos destacados por esses pensadores em Mileto, abordaram-se diversas questões. Dentre elas, houve um destaque para entender “da onde surgiram todas as coisas”. Tales (624-546 a.C) foi um dos pensadores que se questionou a respeito disso, indagando  qual era o “princípio de tudo” e que se mantém mesmo com as mudanças sofridas pelos objetos, concluindo que era  a água.   

Anaxímenes (c. 585-525 a.C.), seguindo mais a orientação proposta por Tales, sugeriu que o ar seria a base do surgimento das coisas, e que a partir disso se transformaria em outros elementos, como água, pela condensação, e fogo, pela rarefação.

Das teorias que debruçavam-se sobre a origem das coisas e o que fazia os diferentes elementos da natureza mudarem surgiram as teorias do átomo, por exemplo, e inúmeras outras noções sobre questões básicas.

Por ser uma concepção filosófica de ciência, haviam também algumas noções mais metafísicas. De acordo com Pessoa Jr., algumas teorias sugeriam que os seres vivos teriam surgido do barro, ou que haveria uma combinação de elementos essenciais (como água e terra, por exemplo). O filósofo que teorizou as noções de junção foi Empédocles, que definia diferentes estágios para o surgimento da vida. Inicialmente, então, ocorre a junção de elementos, que seriam separados pela força do ódio e se reconfigurariam graças às forças do amor.

É possível observar, então, que as noções apontadas pelos filósofos gregos até hoje continuam a permear concepções que são a base de diversas teorias científicas. As influências gregas se estendem a quase todas as áreas da vida humana.

Da mesma forma, muitas outras civilizações também transferiram diversos conhecimentos ao mundo ocidental, sendo os gregos apenas um exemplo de uma influência geral que ajudou a configurar a sociedade atual que conhecemos./


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