De resto, só nos resta cair na real

Documentário encerra Virada Sustentável falando da importância da participação de todos no combate ao desperdício

Por: Julia Mayumi (juliasueyoshi@gmail.com)
Cartaz do documentário Cultura do Desperdício. foto: Julia Mayumi

A 7ª edição da Virada Sustentável em São Paulo (SP) se encerrou neste domingo (27) com o coquetel de lançamento do documentário “Cultura do desperdício – por uma sociedade mais consciente”, dirigido por Paula Galacini. O evento reuniu os principais envolvidos no projeto, entre realizadores, patrocinadores e apoiadores.

A Virada Sustentável, idealizada pelo jornalista André Palhano e pela publicitária Mariana Amaral, tem como principal objetivo mostrar o “lado alegre, lúdico e divertido da sustentabilidade, para que a mensagem chegue nas pessoas através do coração, e assim se conscientizem para o tema”, de acordo com Mariana. André completa: “É lógico que queremos melhorar o mundo, mas podemos fazer isso de uma maneira festiva, inspiradora, reunindo tantas organizações e projetos que já fazem a diferença na cidade.”

Um deles, a ONG Banco de Alimentos, criada há 18 anos por Luciana Quintão, ofereceu um delicado coffee break aos convidados, com antepastos e frutas que seriam descartadas mas que ainda são próprias para consumo. É a primeira vez que a ONG participa da Virada, e Luciana mostrou-se satisfeita com o evento. Ela participou do documentário, que trata especificamente do desperdício de alimentos, e explicou a relevância do assunto: “Trazer esse tema é fundamental, porque não deveria mais existir fome no mundo. Existem recursos financeiros suficientes para criar programas para que as pessoas não passem fome”.

Anteriormente à apresentação do documentário, Sérgio Lopes, da produtora Conteúdos Diversos, destacou a urgência de debater sobre o desperdício de comida, um dos principais problemas da atualidade. Fabiana Alves, do Rabobank Brasil, principal patrocinador do filme, pontuou que a sustentabilidade deve ser prioridade nas agendas dos governos e acredita que iniciativas como esta aumentarão a consciência social acerca disso.

Evento da virada sustentável reúne diversas pessoas. Foto: Júlia Mayumi

Cultura do desperdício – por uma sociedade mais consciente traz entrevistas com representantes de todas as etapas da produção de alimentos: produtores, distribuidores, consumidores e catadores. A trilha sonora traz um rap criativo que torna o tema mais atrativo ao público jovem, bem como a presença constante de infográficos. A ausência de narração, característica de vários documentários, não atrapalha de maneira nenhuma a continuidade do filme, cuja montagem merece destaque, intercalando especialistas e pessoas comuns.

O conteúdo versa por várias faces do problema principal: a legislação brasileira, que coloca empecilhos à doação de alimentos através de um longo processo burocrático; a própria cultura brasileira, que dita que “é melhor sobrar do que faltar”, fazendo com que as pessoas não pensem duas vezes antes de jogar sobras no lixo; o trabalho dos catadores; a dificuldade dos moradores de rua em conseguir alimento, pois a maioria dos restaurantes lhes nega ajuda, mesmo quando há comida sobrando; e os cursos que ensinam a utilizar partes que normalmente são jogadas fora, como talos e cascas, para fazer pratos deliciosos. De forma dinâmica, o filme segue a proposta da própria Virada: falar de meio ambiente sem ficar maçante.

“O discurso da sustentabilidade nasceu de uma forma negativa”, acredita Mariana, uma das criadoras do evento. “A Virada tá aí exatamente para conscientizar as pessoas de que o planeta é nossa casa e que precisamos ter amor por ele”.

Cuidar do meio ambiente em São Paulo ainda é uma tarefa árdua, conforme aponta Luciana Quintão, do Banco de Alimentos: “somente 2% do lixo da cidade é reciclado. É um tema que precisa ser visto com seriedade”. O jornalista André Palhano acredita, porém, que algumas atitudes estão avançando nesse sentido: “Aqui nasceram os grandes movimentos de agricultura urbana e de hortas comunitárias”. Mariana corrobora, mencionando também a Paulista Aberta e o maior uso do espaço público pelos paulistanos nos últimos anos.

Mas com uma coisa todos concordam: é dever das novas gerações garantir um planeta melhor para todos. “São o futuro do Brasil”, pontua Luciana. “Tá na mão de vocês fazerem um futuro diferente”. André destaca a festividade com que os jovens encaram tarefas importantes para o meio ambiente. “Essa energia de estar junto fazendo a diferença, seja ocupando uma rua, defendendo uma causa, compartilhando o carro com os amigos, são exemplos de que é possível mudar o mundo com uma visão positiva e inspiradora da vida”. Mariana tem maiores expectativas quanto aos pequenos: “Hoje as crianças têm muito mais consciência do que na minha época. Eu tenho muita esperança e sinto que vai crescer cada vez mais”.

O encerramento dos quatro dias de eventos da Virada Sustentável colocou em pauta um dos temas mais necessários do momento – a alimentação compõe metade dos Objetivos do Milênio da ONU. Assunto de interesse global, explorado pelo documentário em âmbito nacional, o desperdício de alimentos precisa ser combatido por todas as camadas da sociedade. É em momentos como a Virada que a informação circula de maneira precisa e viva, deixando um legado sobre a cidade – o alerta de que algo precisa ser feito para combater o problema. Caia Amoroso, que prestigiou o evento a convite de amigos, traduz a mensagem da Virada: “precisamos pensar em sustentabilidade, em uma forma de sermos mais felizes consumindo menos”.

 


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