A MUSCULAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA É RUIM?

Por: Thaís Navarro (thaisnavarro@usp.br)

Existe um certo senso comum que diz que não se deve praticar musculação e frequentar academia na adolescência, pois isso prejudicaria o processo de crescimento e maturação. Porém, não é exatamente assim: desde que sejam levados em conta a moderação, os objetivos desejados pela prática e as devidas precauções, a musculação não é necessariamente prejudicial.

Entenda porque não é errado

Para o profissional de educação física Edmilson, formado em Educação Física e pós graduado em treinamento desportivo, deveria haver uma recomendação médica de um pediatra: este, em sua opinião, “orientaria de forma mais precisa sobre o processo de maturação desse adolescente”. Para ele, ainda, a idade considerada apta para que se possa dar início à prática é aquela após o indivíduo passar pelo processo maturacional: “se for mulher, se já passou pela primeira menarca; se for homem, se ele já sofreu o processo hormonal, o que pode ser identificado pelo aparecimento de pequenas penugens”. Edmilson ainda diz que obteve resultados positivos com os adolescentes com os quais já trabalhou: eles “desenvolveram-se mais, aumentaram a estatura e tiveram mais ganhos com a aplicação de atividades físicas do que vivendo em uma vida sedentária”.

O Prof. Dr. Hamilton Roschel, docente da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP), explica que embora esse senso comum tenha surgido a partir de alguma base fisiológica, ele não se traduz, necessariamente, em uma observação científica de fato. Ele explica o receio que permeia a prática nesse período: “sabemos que crianças e adolescentes são mais suscetíveis a lesões estruturais e ósseas do que indivíduos adultos, principalmente do que é chamado de cartilagem epifisária, que é por onde os ossos crescem. O osso cresce a partir desta estrutura, e, uma vez cessado o crescimento, essa cartilagem fecha”. Como em indivíduos mais jovens essa cartilagem, que existe em todos os ossos, pode ainda não ter fechado, pois eles estão em crescimento, essa estrutura torna-se “mais frágil e suscetível a lesões”. Porém, Roschel explica que isso não é necessariamente vinculado com a modalidade: “para que a criança ficasse mais baixa, como resultado da musculação, por exemplo, você teria que igualmente interromper o processo de crescimento de maneira simultânea em todos os ossos, e isso simplesmente não acontece”.

Créditos:www.peakconditioning.ca/adolescent-training.html

Sobre o uso de anabolizantes

Edmilson e Hamilton concordam que o uso de substâncias anabólicas é prejudicial e danoso, independente da idade daqueles que as usam. “O grande uso de esteroides anabólicos hoje, pelo jovem ou adulto, é com vistas à estética, o que é um quadro alarmante, porque isso é extremamente perigoso”, comenta Hamilton. Ele alerta, ainda, para os danos colaterais futuros: “Todo mundo sabe que esteroides anabólicos funcionam para o ganho de massa muscular. O custo disso, porém, é uma conta que se paga um pouco mais para frente e ninguém se atenta para isso. A lista de efeitos adversos é infindável”.

O instrutor Edmilson identifica um problema estrutural na população brasileira: “o ideal sempre é a alimentação. No Brasil, as pessoas procuram buscar suplementação, mas a maior falha da população brasileira é a falta de alimentação. Eu sou rigorosamente contrário ao uso de anabolizantes para qualquer idade”. Vale ressaltar, ainda, que a Lei federal 9965/2000 diz que a liberação e a venda desses produtos estão “restritas à apresentação e retenção, pela farmácia ou drogaria”, da cópia da receita “emitida por médico ou dentista devidamentes registrados nos respectivos conselhos profissionais”. Contudo, o professor Hamilton Roschel considera que, mesmo com a prescrição médica, o uso não é totalmente seguro.

A questão social envolvida por trás

Apesar de, a longo prazo, gerar resultados muitas vezes desejáveis, como a hipertrofia muscular com objetivos estéticos, a musculação tem aspectos sociais e culturais envolvidos por trás dela que devem ser considerados. “Há todo um contexto social que cobra da pessoa que ela seja capa de revista. Isso é um problema, porque leva a distúrbios comportamentais, do ponto de vista do autoconceito e da autoimagem; leva a transtornos e compulsões alimentares e pelo próprio exercício.”, diz Hamilton.

O docente trabalha, também, com fins terapêuticos do exercício. “Nós trabalhamos com doenças crônicas, e, em manifestações juvenis de algumas doenças, [a musculação] parece ser um tratamento”. Por isso, ele opina que recomendar a musculação para crianças e adolescentes que não sofrem dessas doenças não seria prejudicial, mas também seria pouco adequada para a maioria “em termos sociais, de desenvolvimento psico-sócio-afetivo. É uma atividade solitária, monótona, de pouco engajamento social. A não ser que se percebam necessidades específicas, não é algo absolutamente necessário (…). Tem que se fazer alguma coisa que tenha mais a ver com ser criança e ser adolescente”.

A associação da musculação na adolescência como algo necessariamente prejudicial não é verdadeira. A prática se torna mais natural e aceitável se “feita as adequações de dimensões dos equipamentos e de controle da sobrecarga”, comenta Hamilton. Porém, leve sempre em conta os fins que deseja com essa prática e a moderação que dará a ela. O docente da EEFE conclui que “o melhor exercício é aquele que você vai gostar, porque é nele que você vai se manter engajado (…). Você tem que dimensionar o grau de importância que vai dar a isso, para que não vire um transtorno, o que parece acontecer quando os fins desejados são meramente estéticos”.


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