Allons-y! Doctor Who e a abordagem ficcional da ciência do universo

Série da BBC cativa fãs desde 1963 e amplia nossa visão sobre a vida extraterrestre

Por: Gabriela Bonin (gabibonin@usp.br)
Créditos: Wallpapercave

Para você que não pegou a referência: “allons-y!” era o bordão do Décimo Doutor, personagem de David Tennant em Doctor Who, e, segundo o mesmo, significava “vamos lá!” em francês. Em meio a tantas outras frases marcantes, a série de TV ampliou-se para além das telinhas britânicas e conquistou o mundo com suas histórias alienígenas.

Contextualizando o enredo

Em 1963, a BBC lançava o primeiro episódio de Doctor Who, uma série de ficção científica que conta a história de um alienígena viajante que explora o espaço-tempo, com sua máquina em formato de cabine de polícia, a TARDIS (acrônimo para Time And Relative Dimensions In Space – Tempo e Dimensões Relativas no Espaço, em português).

Essa primeira fase, a “série clássica”, teve 26 temporadas e uma quantidade exata de 696 episódios. No entanto, cada capítulo tinha apenas 25 minutos e as histórias eram divididas em “arcos”, ou seja, vários episódios eram continuação de uma mesma narrativa. Tal modelo durou até 1989, quando a série foi cancelada por problemas de audiência.

Cena da série clássica com Tom Baker e seu marcante cachecol listrado no papel do quarto Doutor (Créditos: reprodução)

Para a felicidade dos fãs, Doctor Who retornou em 2005 com uma duração de 45 minutos e histórias individuais por episódio (exceto alguns especiais que uniam dois capítulos diferentes). O primeiro episódio após mais de 15 anos de inércia teve aproximadamente 10 milhões de espectadores e foi muito bem recebido pelo público e pelas críticas, o que fez com que os produtores investissem na continuidade da série.

Décimo Doutor? Quarto Doutor? Como isso funciona?

A enorme quantidade de episódios da série se justifica por um fator essencial na trama: o personagem principal, o Doutor, já foi interpretado por 13 atores diferentes. Isso funciona porque o Doutor é um Senhor do Tempo e tem a capacidade de se regenerar para evitar a morte. Assim, ocasionalmente, há a substituição do ator principal, sendo que cada regeneração tem suas próprias peculiaridades, sempre compartilhando as memórias e acontecimentos de seus anteriores.

O “New Who”, como é chamada a versão iniciada em 2005, conta, até então, com cinco Doutores e uma novidade: o nono (Christopher Eccleston), décimo (David Tennant), décimo primeiro (Matt Smith), décimo segundo (Peter Capaldi) e o Doutor da Guerra (John Hurt). A décima temporada foi protagonizada por Peter Capaldi, que regenerou e teve seu último episódio exibido no primeiro dia de julho de 2017. Assim, a novidade foi a apresentação de Jodie Whittaker como a primeira mulher a dirigir a TARDIS no papel de uma Doutora, fato marcante em uma série protagonizada por homens durante 50 anos.

Tal característica faz com que os fãs do seriado tenham divergências ao escolher um Doutor preferido. Cláudia Fusco, jornalista com mestrado em estudos de ficção científica pela Universidade de Liverpool, começou a assistir a série em 2010 e considera Matt Smith, o 11º Doutor, seu favorito, mas confessa que o personagem de David Tennant fica bem colado na disputa.

Aproximação com o público

Com o passar do tempo, Doctor Who atraiu uma legião de fãs, que se intitulam “Whovians” e estão espalhados pelo globo. Junto com Top Gear, o programa é um dos maiores sucessos da BBC no mundo e já faz parte da cultura britânica. Assim, é extremamente comum encontrar pessoas fantasiadas dos personagens do seriado em eventos que reúnem fãs de cultura pop.

Tal paixão pode ser justificada pelo modelo de construção da série. Em Doctor Who, o protagonista não viaja sozinho, mas com acompanhantes (companions) que exploram o espaço-tempo ao seu lado na TARDIS. Essas companhias são, normalmente, personagens com os quais é fácil se identificar, uma vez que eles trazem a tona o lado mais humano do Doutor (mesmo ele sendo um alienígena) e geram muita sensibilidade no público. Mais de 35 atores e atrizes já participaram do elenco da série como acompanhantes, mas alguns nomes da TV britânica ficaram marcados, como Elizabeth Sladen (no papel de Sarah Jane Smith, acompanhando o 3º e o 4º Doutor), Billie Piper (Rose Tyler, junto ao 9º e ao 10º Doutor) e Catherine Tate (Donna Noble, parceira do 10º Doutor).

Cláudia Fusco, assumidamente apaixonada pela série, diz que já viu “bastante gente comparando Doctor Who a uma experiência transcendental, para alguns até semi-religiosa. É uma série com levantamentos filosóficos e sociais muito relevantes para os nossos tempos”. Ao ser questionada sobre personagens, ela afirma, com convicção, que Donna Noble é sua companion favorita.

Abordagem científica do programa

O fato é: Doctor Who é magia. Uma magia distante da realidade da maior parte daqueles que estão assistindo. No entanto, não é difícil enxergar ciência nos episódios, mesmo que ela venha acompanhada de fantasia. Dentre tantos tópicos que podem ser relacionados ao mundo científico, alguns são muito interessantes e foram elencados a seguir.

TARDIS, a cabine telefônica que permite as viagens do Doutor. Créditos: Daniel Medina

Primeiramente, é preciso discutir viagem no espaço-tempo. O físico americano Michio Kaku, em um especial da BBC sobre a série, relembra que a Teoria da Relatividade de Einstein permite a viagem pro futuro, uma vez que, segundo ela,  quanto mais rápido você se move no espaço, mais lentamente o tempo passa dentro de sua espaçonave. Desse modo, para quem não está viajando, o relógio gira normalmente, criando uma diferença temporal que faz com que as ações dos viajantes tomem menos tempo do que se contadas em um relógio terrestre. Assim, como Doctor Who aborda uma tecnologia muito avançada, alcançar uma velocidade próxima à da luz seria algo plausível, que tornaria possível o avanço ao futuro. Todavia, a complicação acontece com a possibilidade de viagem ao passado. Para isso ocorrer, seria necessário superar a velocidade da luz, o que é considerado impossível pela mesma Teoria da Relatividade que permite a ida ao futuro.

Nesse mesmo contexto de deslocamento espaço-temporal, o conceito do buraco de minhoca é trazido à tona. O episódio “Planet of the Dead”, um especial lançado em 2009, expõe uma situação na qual um ônibus atravessa um túnel em Londres e acaba em um deserto de outro planeta. Tal ocorrência baseia-se no conceito do buraco de minhoca, ou seja, uma distorção no espaço-tempo que permite a aproximação de dois eventos muito distantes. Em suma, Doctor Who demonstra nesse episódio a possibilidade (embasada cientificamente) de pegar um “atalho” no espaço-sideral.

A segunda discussão da abordagem científica é em relação à chave de fenda sônica. Na série, o Doutor possui essa arma, apelidada de “canivete suíço cósmico”, que cumpre várias funções, dentre elas detectar vida alienígena, controlar átomos e moléculas, destrancar portas e funcionar como um controle remoto universal. O canal do YouTube Nerdist abordou esse assunto, respondendo à seguinte questão: seria possível construir uma chave de fenda sônica? A conclusão foi que uma das atribuições da ferramenta é plausível. Na vida real, existe a possibilidade do direcionamento de ondas ultrassônicas visando movimentação de partículas, o que já foi realizado por um professor da Universidade de Bristol, na Inglaterra. Todavia, essa tecnologia ainda está muito longe do retratado no seriado, uma vez que os testes realizados foram com partículas extremamente pequenas.

O 11º Doutor (Matt Smith) junto ao 10º (David Tennant) no especial de 50 anos da série: cada um deles possui uma chave de fenda sônica diferente. (Créditos: reprodução)

Em último lugar, e a vida extraterrestre? Estaria a raça humana sozinha nesse grande universo? Afinal, toda a temática da série desenvolve-se em torno da existência de alienígenas (o Doutor sendo um de seus representantes) e essa possibilidade é, no mínimo, intrigante. Em um documentário chamado “A ciência em Doctor Who” (The Science of Doctor Who, BBC), Brian Cox, físico e professor da Universidade de Manchester, explica a existência do “paradoxo de Fermi”: em 1950, o italiano Enrico Fermi argumentou que a vastidão do universo deveria permitir a existência de civilizações mais avançadas que a nossa, mas não há evidência de tal fato desde então. Todavia, Cox relembra que a astronomia atual tem um grande candidato para vida extraterrestre: o planeta Kepler 62e, que orbita na constelação de Lyra e parece ter o tamanho, a massa e a localização perfeitos para ser um planeta rochoso e possuir água na superfície.

Gerando afinidade com o mundo da ciência

É inevitável: a ficção científica aproxima o público desse tema e, com Doctor Who, isso não é diferente. Sendo a série de sci-fi de maior duração da televisão, ela tem fãs renomados, como Stephen Hawking e George Lucas. No entanto, o mais importante é sua capacidade de fazer com que novas gerações se interessem pela ciência e até acabem trabalhando com isso no futuro. Cláudia Fusco afirma ter certeza que a série é capaz de aproximar as pessoas dessa temática e completa: “o fascínio está lá, na ideia de atingirmos um conhecimento científico tão ilimitado que nos possibilite viver aventuras tão incríveis quanto as do Doutor”.

Em meio a tanta fantasia e ciência, a mensagem de Doctor Who sempre foi clara: mostrar que pessoas comuns podem mudar o mundo e que o bem sempre triunfa sobre o mal. Como dito pelo 11º Doutor, “somos todos histórias no final; então vamos fazer com que sejam boas”.


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