A epidemia de sífilis e como se proteger dela

Por: Julia Mayumi (juliasueyoshi@gmail.com)

Charles Baudelaire, Henri de Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin, Oscar Wilde, Al Capone e Friedrich Nietzsche. O que o poeta, os pintores, o escritor, o gângster e o filósofo têm em comum, além de serem figuras recorrentes nos livros de história? Todos morreram de sífilis.

Não há uma origem precisa para a doença; acredita-se que tenha surgido na América e levada ao Velho Mundo pelas Grandes Navegações. No entanto, um grupo de estudos liderado pela Prof. Sabine Eggers, do Instituto de Biociências da USP, contesta essa teoria, pois haveria indícios da doença há, pelo menos, 5 mil anos – dessa forma, não seria possível o surgimento no Novo Mundo, uma vez que seria necessária uma evolução muito rápida do microorganismo.

créditos: Julia Mancilha

Mas que doença é essa?

Conforme explicação do livro Dermatologia Prática (Ed. Guanabara Koogan, 2009), da Prof. Valeria Petri, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a sífilis é causada pela bactéria Treponema pallidum e possui quatro estágios. O primeiro se manifesta através de feridas indolores que duram de quatro a oito semanas e desaparecem sem deixar rastros, dando a falsa sensação de cura. O segundo, que pode chegar entre seis semanas e seis meses após o primeiro, traz feridas pelo corpo, principalmente nas mãos e nos pés, que, novamente, somem depois de um tempo, podendo ser confundidas com alergias. O terceiro estágio, chamado de latente, pode durar décadas, pois a doença fica estacionada e perde seu caráter infeccioso. O quarto, conhecido como sífilis terciária, é o que desencadeia os sintomas mais ferozes: lesões cutâneas, ósseas, cardiovasculares e neurológicas, podendo levar à morte.

O Dr. Daniel Dantas, infectologista do Hospital Cruz Azul de São Paulo, explica que o tratamento consiste na injeção de penicilina benzatina, que, de acordo com a fase da doença, deve ser ministrada entre duas e seis aplicações, em um período variável entre um e três semanas, sendo necessária internação hospitalar em alguns casos especiais, como quando o sistema nervoso central é afetado.

Quantas são e como são tratadas as vítimas

Em outubro de 2016, o Ministério da Saúde reconheceu que o Brasil passa por uma epidemia de sífilis. Desde 2010, quando a notificação de casos da doença passou a ser obrigatória, o número de pacientes infectados pela sífilis adquirida (contraída por via sexual) saltou de 1.249 para 65.878 – um aumento de mais de 5.000%, de acordo com o Boletim Epidemiológico de 2016.

A falta de penicilina benzatina é apontada por muitos profissionais como uma importante razão para a epidemia atual. Em artigo no Jornal do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), o conselheiro Krikor Boyaciyan coloca interesses financeiros como motivadores dessa carência no abastecimento. “O preço da Penicilina G é muito baixo, e as indústrias têm pouco interesse em fabricá-lo; a Fundação do Remédio Popular (Furp), da Secretaria do Estado de São Paulo, fabricava, mas descontinuou o trabalho porque a Anvisa colocou dificuldades na importação de componentes da fabricação da penicilina”.

Como evitar a doença

Como a maioria das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), a sífilis foi espalhada para todas as camadas da sociedade até o surgimento da camisinha, que foi amplamente divulgada nos anos 1960. De lá pra cá, após um ápice no uso dos preservativos, principalmente graças às campanhas contra a AIDS, pesquisadores têm notado um decréscimo na prevenção, chegando a níveis alarmantes: um levantamento da Gentis Panel, empresa especializada em pesquisas de mercado, divulgado pela Revista Saúde em outubro de 2016, mostrou que 52% dos brasileiros nunca ou raramente usam preservativos, 10% utilizam às vezes e só 37% se protegem sempre ou frequentemente.

O Dr. Dantas acredita que a prática de sexo sem proteção é outro fator responsável pelo aumento dos casos de sífilis adquirida. “As gerações mais novas ‘perderam o medo’ das DSTs; não temos mais grandes campanhas públicas e o tratamento evoluiu, de modo que elas parecem ter desaparecido. Mas os números do Ministério da Saúde mostram exatamente o contrário”. O infectologista afirma, ainda, que, atualmente, o preservativo é o único método de proteção contra a doença.

Outra forma de sífilis que tem gerado grande preocupação no sistema de saúde é a congênita, cuja taxa em 2015 chegou a 6,5 casos a cada mil nascidos vivos – 13 vezes mais do que é aceito pela Organização Mundial de Saúde. A deficiência no atendimento pré-natal na rede pública em escala nacional é a principal causa desse aumento. Estudo divulgado pelo IBGE em 2010 mostrou que 42,4% das gestantes não realizaram o pré-natal de maneira adequada, o que dificulta imensamente o combate aos problemas de saúde de transmissão vertical, isto é, de mãe para filho(a). Durante essas consultas, é importante que a mãe realize o VDRL (Venereal Disease Research Laboratory), exame de sangue que diagnostica sífilis e deve ser feito tanto no início do pré-natal quanto no segundo trimestre.

Quando a sífilis é identificada na gestante, o tratamento com penicilina é realizado e o teste também deve ser feito no parceiro, a fim de evitar nova contaminação.

Para o Dr. Dantas, a educação deve ser utilizada como arma no combate à epidemia. “O assunto tem que ser falado sem tabus nas escolas e dentro das casas. Os sintomas têm que ser reconhecidos para que os pacientes busquem tratamento rápido. Temos que alertar de forma eficiente e permanente as populações vulneráveis e fazer saber que todos podem procurar os serviços de saúde de forma sigilosa e discreta”.

Não apenas os médicos acreditam na importância da educação no combate às DSTs. Felipe (nome fictício), 35 anos, contraiu sífilis aos 28, “provavelmente por fazer sexo oral sem camisinha, já que faço sexo anal com proteção”. O diagnóstico aconteceu durante exames de rotina, uma vez que ele é soropositivo, e o tratamento foi feito no próprio Serviço de Atendimento Especializado do Butantã.

Ele acredita que o tabu e o preconceito que cercam as DSTs dificultam a prevenção da doença. “Ainda tenho escutado que HIV e DSTs são doenças de homossexuais. E isso não é verdade! Muitos heterossexuais são soropositivos”. Ele enfatiza a necessidade de proteção em todos os tipos de sexo, pois a transmissão das DSTs ocorre por diversas vias: “tenho certeza absoluta que a maior parte das pessoas não usa camisinha em sexo oral”.

Assim como Dantas, Felipe acredita que a família e o poder público devem participar do combate à doença: “os pais devem continuar conversando com seus filhos e o governo deve fazer a parte dele também, ou seja, continuar incentivando políticas públicas de prevenção das DSTs (incluindo a sífilis), com a finalidade de que a camisinha continue sendo usada”.


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