Os grandes gênios injustiçados

Eles revolucionaram a ciência, mas outras pessoas levaram o crédito.

Por: Bruno Carbinatto ()
Da esq.: Rosalind Franklin, César Lattes, Tycho Brahe e Nikola Tesla

Em 1609, o matemático e astrônomo alemão Johannes Kepler publicou o livro “Astronomia Nova”, revolucionando todo um campo científico ao descrever o movimento de todos os planetas com 3 leis matemáticas relativamente simples, que entrariam para a história como “Leis de Kepler”. O feito é ainda mais significativo num contexto de Inquisição que, embora já começasse a perder a força, ainda ditava os moldes cultural-religiosos de toda uma época. O que pouco se comenta, entretanto, é o fato de que as descobertas de Kepler pouco têm de original: praticamente tudo foi baseado na obra e estudos de Tycho Brahe, astrônomo dinamarquês e orientador de Kepler.

Brahe fez um trabalho extremamente inovador, combinando o modelo teórico de Copérnico com observações astronômicas de planetas e estrelas – em uma época que precedeu a invenção do telescópio. Suas descrições dos astros através dos anos foram tão precisas que permitiram a Kepler enunciar suas leis sem ao menos realizar novas observações, revolucionando a física e a astronomia. O esforço de Tycho Brahe, entretanto, se mantém em segundo plano até os dias de hoje. Não é o único: a história da ciência está repleta de nomes esquecidos, porém imprescindíveis para o avanço do conhecimento.

O gênio injustiçado

Talvez o mais famoso caso de desmerecimento na ciência seja o de Nikola Tesla. Sérvio, nasceu em 1856 e foi um dos mais importantes inventores nas áreas de engenharia, especialmente elétrica. “As bobinas de Tesla são dispositivos geniais e, se você utiliza Wi-Fi, deve isso a ele”, explica o físico e professor Huemerson Maceti, se referindo ao transformador simples – mas extremamente potente – criado pelo cientista.

O grande contraponto de Tesla, porém, ocorre em um embate contra Thomas Edison, nome muito mais conhecido atualmente. Assim como Tesla, Edison era um inventor renomado. A grande diferença, entretanto, era que o último tinha uma relevância política e econômica muito maior, devido às inúmeras marcas patenteadas que lhe renderam fama e dinheiro. Contemporâneos, Edison utilizou de muitos trabalhos e estudos de Tesla sem remuneração ou créditos.

O mais emblemático embate entre os dois ficou conhecido como “A guerra das Correntes”, em que Tesla era defensor da corrente alternada para circuitos domésticos e Edison, da corrente contínua. Por ser mais barata e eficiente, a corrente alternada de Tesla prevaleceu, não só nos EUA como em todo mundo, mas não foi suficiente: ainda que o nome de Nikola seja lembrado hoje pela física, inclusive como unidade de medida de fluxo magnético, pouquíssimo reconhecimento foi lhe dado durante a vida, rendendo-lhe o título de “O gênio injustiçado”, enquanto Edison alcançou, talvez injustamente, a alcunha de “Pai da eletricidade”.

Lugar de mulher?

Os cientistas James Watson e Francis Crick entraram para a história por descobrir o formato helicoidal do DNA, recebendo, inclusive, o Prêmio Nobel de Medicina de 1962. A grande polêmica, porém, vem de um caso peculiar: a foto da molécula de DNA usada não foi conquistada por eles, e sim por Rosalind Franklin, bióloga inglesa morta 4 anos antes da premiação. A prova essencial para o feito fora enviada para os médicos através de um colaborador que trabalhava no mesmo laboratório de Franklin – sem o consentimento dela. Mais grave que isso é a burocracia por trás do caso: Rosalind foi registrada como uma mera assistente, enquanto, na verdade, era a chefe da pesquisa que revolucionou a biologia.

O Nobel se justifica: não havia e nem há premiações póstumas. No entanto, a inglesa permaneceu sem nenhum tipo de reconhecimento, enquanto dois homens levaram todo o crédito, mesmo que, embora fossem pesquisadores importantes, se basearam numa prova que não lhes pertencia.

O episódio gera discussões sobre desigualdade de gênero na ciência: seria Rosalind Franklin apenas mais um exemplo de desmerecimento da mulher na ciência? O sociólogo e mestre em Sociologia da Ciência Airton Moreira analisa: “O gênero influencia não apenas no modo como se interpreta os resultados de pesquisa das pessoas, mas também na divisão do trabalho. Mulheres participam muito mais de pesquisas empíricas, enquanto os homens constroem o pensamento e divulgam os dados”.

E no Brasil?

O fenômeno de roubo de ideias na ciência não é apenas internacional. César Lattes, físico curitibano que hoje é homenageado na grande plataforma de currículos brasileira, foi extremamente injustiçado durante sua vida.

“Ele descobriu sozinho, e sem apoio de seu grupo, o méson-pi, mas foi o chefe do seu grupo, Cecil Powel, que ficou com o Nobel de Física”, conta Huemerson. O descobrimento da partícula subatômica é de extrema importância para ciência moderna, mas o brasileiro é pouco lembrado e reconhecido. O Nobel novamente se justifica: a política adotada pelo prêmio até 1960 era de congratular apenas o cabeça do grupo na pesquisa.

Fenômeno atual

Embora todos os casos de roubo de ideias pareçam distantes, ainda existem diversos episódios no mercado científico moderno. “O roubo de ideias e o plágio continuam crescendo, ainda mais em um contexto onde há um crescente produtivismo na ciência”, explica Moreira. “Somos pressionados a publicar mais – em quantidade, não necessariamente em qualidade – o que leva a plágios, fragmentações de pesquisas e até divulgação de pesquisas ‘inéditas’, sem que de fato sejam”.


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