Interestelar: como ficções despertam nosso lado científico

Por: Gabriela Bonin (gabibonin@usp.br) e Ane Cristina (anecristina34@gmail.com)

Lançado nos cinemas em novembro de 2014, Interestelar (Interstellar, 2014), dirigido por Christopher Nolan, dividiu opiniões. O filme se passa em um futuro muito distante (séculos a frente de nosso tempo), no qual há uma praga que está progressivamente destruindo plantações no planeta e consumindo o oxigênio disponível para a humanidade. Visto que a Terra está com os dias contados, a solução encontrada é realizar uma viagem interestelar buscando um planeta habitável para os seres humanos.

Dentre os escolhidos para tal missão, temos Cooper (Matthew McConaughey), ex-piloto da NASA, que embarca na viagem e deixa para trás sua família, mesmo com a possibilidade de nunca mais ver sua filha, Murphy (interpretada por Mackenzie Foy na infância e por Jessica Chastain na fase adulta), de quem é muito próximo. Um dos principais ingredientes da trama é a teoria de relatividade temporal, que explica o porquê da viagem ser urgente: o tempo na galáxia em que os planetas possivelmente habitáveis estão, passa muito mais vagarosamente do que no Sistema Solar e existe a chance de que, ao encontrar um novo planeta, a vida na Terra já tenha sido extinguida e seja tarde demais.

Além disso, Interestelar expõe as relações interpessoais e seus desdobramentos, já que a tripulação também inclui a Dra. Amelia Brand (Anne Hathaway), outros cientistas e dois robôs muito simpáticos, TARS e CASE.

O filme é conhecido por ser uma das ficções científicas mais realistas dos últimos tempos, contando com o astrofísico Kip Thorne, que contribuiu para a construção dos conceitos apresentados como consultor científico e produtor executivo.

Explicação científica dos eventos

Apesar do auxílio de Thorne, as cenas de Nolan geraram muita controvérsia entre fãs de ficção científica, promovendo dúvidas sobre a veracidade da representação. O professor Rodrigo Nemmen do IAG-USP (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas) realizou a palestra “A Ciência do Filme Interestelar”, onde explicou minuciosamente os aspectos científicos, classificou-os e avaliou o panorama geral do filme. Tendo trabalhado na NASA como astrofísico e pesquisado muito sobre buracos negros, Nemmen fala com convicção e autoridade, o que ajuda o público leigo que deseja aprender mais sobre o assunto.

Algumas das cenas mais marcantes foram classificadas pelo professor Rodrigo como falsas, verdadeiras ou pura especulação e, baseado nisso, seguem explicações mais detalhadas (algumas podem conter spoilers, mas não o final do filme): 

Imagem: Bruno Menezes/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Ainda no início do longa, a tripulação viaja para próximo dos planetas possivelmente habitáveis por meio de um buraco de minhoca aberto próximo a Saturno. Tal buraco funcionaria como um atalho para longas viagens no espaço-tempo, um “tubo” conectando dois locais diferentes, seguindo a Teoria da Relatividade. Segundo Rodrigo Nemmen, as equações de Einstein permitem os buracos, porém não há provas da existência de tal fenômeno, o que os classifica como especulação.

Imagem: Bruno Menezes/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Um buraco negro é um astro massivo no qual a gravidade é tão intensa que acaba aprisionando tudo em seu interior, um fenômeno existente na vida real. Em Interestelar, o buraco supermassivo (de massa um milhão de vezes maior que o sol) recebe o carinhoso nome de “Gargantua” e é responsável por toda a distorção temporal que preocupa Cooper, Amelia e a tripulação da Endurance. Além de condizer com a teoria da relatividade de Einstein, o buraco negro também possui uma representação avaliada positivamente pelo professor Rodrigo Nemmen. Apesar de ser uma simulação de algo real, o disco de acreção (disco de gás que rodeia um buraco negro) é considerado “um ótimo palpite de como seria”. 

Imagem: Bruno Menezes/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Ainda discutindo o tópico anterior, Interestelar explora muito os buracos negros e seus arredores. Isso porque os planetas classificados como habitáveis para a humanidade se localizam em um sistema ao redor do Gargantua, o que é classificado como algo impossível por Nemmen. Sua justificativa ao avaliar negativamente esse aspecto é a de que os planetas ficariam constantemente em contato com o disco de acreção e não seriam habitáveis.

Imagem: Bruno Menezes/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Os momentos de maior tensão do filme ocorrem quando os astronautas precisam ser muito rápidos nos planetas que pousam, já que o tempo neles passa de maneira diferente do terrestre. A explicação disso é decorrente da elasticidade temporal, descrita pela teoria da relatividade de Einstein. Seguindo esse pensamento, quanto mais próximo a um buraco negro, mais devagar o tempo passa no relógio. Desse modo, é totalmente verdadeira a possibilidade de passarem 7 anos na Terra durante uma hora de estadia em um planeta da outra galáxia, como o filme cita. 

Imagem: Bruno Menezes/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Já no final do filme, Christopher Nolan retrata Cooper em uma dimensão extra às conhecidas pelo ser humano, dentro de algo interpretado como uma “máquina dimensional”. A explicação do professor Rodrigo é a seguinte: nosso universo possui 3 dimensões espaciais e uma “extra”, que é o tempo. Nessa cena, Cooper estaria em uma quarta dimensão espacial, acontecimento permitido se a teoria das cordas fosse comprovada. Essa teoria, resumindo ao máximo, une a relatividade geral com a física quântica e teria como consequência a existência de 10 dimensões espaciais e uma temporal. Dessa maneira, uma vez que a teoria das cordas não foi comprovada, a dimensão extra representada no filme não passa de especulação.

Imagem: Bruno Menezes/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Ainda na mesma cena citada anterior, Cooper é capaz de mudar eventos do passado por meio de perturbações gravitacionais. Apesar da teoria das cordas tornar tal acontecimento um pouco mais plausível, mudanças no passado desse modo poderiam causar grandes paradoxos e por isso, são classificadas como um evento falso em seu aspecto científico (embora extremamente emocionante cinematograficamente). 

Como ficções nos aproximam do universo científico

Buracos negros, buracos de minhoca, teoria da relatividade: tudo isso parece muito distante e surreal quando comparado ao cotidiano de um terráqueo comum. Mesmo que sejam baseados em especulações ou nas possibilidades mais remotas, os filmes de ficção científica agem como um portal para um universo que pode ser majoritariamente fantasioso, mas também pode retratar um futuro não muito distante.

Clássico das ficções científicas, 2001 – Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odissey) é um filme que nos mostra como o futuro pode estar sendo antecipado através do cinema. Em uma das cenas iniciais, o personagem David Bowman (Keir Dullea) conversa com sua filha através de uma tela, onde a vê em tempo real e pede a ela que dê alguns recados à sua mãe. Uma realidade muito distante em 1968, ano de lançamento do filme, mas totalmente comum agora, ainda que com alguns anos de atraso.

(imagem: reprodução)

A escritora de ficção científica e dona do blog Momentum Saga, Sybylla, diz que sem dúvida alguma, filmes de ficção científica, séries ou livros podem levar a um maior interesse pela ciência”. Ela exemplifica sua afirmação citando Mae Jamison, uma astronauta que foi incentivada por Star Trek a buscar carreira na ciência, e diz que também cabe à escola “educar cientificamente nossas crianças e nossos jovens”.

O filme Interestelar chamou atenção por ser “o mais fiel possível à ciência” e acabou sofrendo críticas por apresentar algumas incongruências. Sybylla afirma: Uma obra pode sim ser 100% baseada em ciência, mas se ela for só isso não é ficção, é um livro universitário. A ficção científica precisa de ciência, mas precisa de sua parcela ficcional.” Segundo a autora os filmes de ficção científica não precisam ser precisos, mas plausíveis. Ela cita Rod Serling, o criador da Twilight Zone, que disse: “fantasia é o impossível tornado provável. A ficção científica é o improvável tornado possível”. Ela esclarece: “Então, é improvável nós termos teletransporte? É, mas a ficção científica torna isso possível. Essa ciência fictícia que as séries, livros e filmes trazem precisa ser plausível ou a gente cai na área da magia e a ficção científica perde a credibilidade.”

Perguntada sobre o que achava do filme, Sybylla foi sincera e não escondeu o entusiasmo ao falar sobre: “É um dos meus filmes favoritos para a vida! […] Muita gente xingou o final mas as pessoas esqueceram de uma coisa: a partir do horizonte de eventos de um buraco negro, é tudo especulação. Stephen Hawking tem um livrinho ótimo, chamado Buracos Negros, onde explica o que pode acontecer dentro de um buraco negro. Mas não há meios de provar isso ainda. E uma das coisas é você poder viajar no tempo. Se uma entidade, uma inteligência muito superior à nossa pode controlar o que acontece dentro de um buraco negro, ela poderia muito bem manipular o tempo. Mas a nossa mente, o nosso cérebro, não tem condições de compreender essa dinâmica, então aquilo se apresentou como um cubo dimensional para o Cooper. Achei que foi um filme que tratou de ciência com respeito. Que aliou o ficcional, com o científico. E, de novo, as pessoas dentro da história são importantes, especialmente a Murph.”

Entre especulações, possibilidades e o que já é comprovado cientificamente, os filmes de ficção científica mexem com nossa imaginação de uma forma que filmes de outro gênero não conseguem atingir. Interestelar, com toda sua grandiosidade e pesquisa aprofundada, ainda que contestado, cumpriu seu papel em nos fazer questionar e sonhar com tudo que pode acontecer, da mesma maneira como, em 1968, toda a realidade do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço era impossível e hoje está ao alcance de nossas mãos. Então, que venham as viagens interestelares tanto na vida real quanto no cinema. Afinal, estamos na expectativa de uma continuação!

 


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