Garantia de sanidade: o processo de criação analisado pelo olhar da psicanálise

Por: Daniel Medina (danieltmedina@gmail.com)
Créditos: Laura Barrio (laura.barrio@usp.br)

A cultura como fator determinante

As revoluções tecnológicas e sociais do século XX imprimiram novos aspectos para a experiência humana. O incrível aumento de velocidade nos processos, assim como o incentivo massivo ao consumo e a constante necessidade de transformação e dinamismo provocaram uma desconexão entre o ser humano e o ambiente que o rodeia.

Em sua tese de mestrado para o Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, a psicanalista Silvana Rea destaca diferentes olhares para a cultura no século passado e seus reflexos na modernidade. Analisando o contexto mencionado, afirma que “não nos reconhecemos como protagonistas da nossa própria época e tanto a cultura quanto o mundo contemporâneo não nos oferecem abrigo seguro. Vivemos, mas não nos sentimos ‘em casa’ ”.

Ao abordar as opiniões de diferentes pensadores que se debruçaram sobre o estado sociocultural do século XX, destaca as ideias de Jean Baudrillard, o qual acentua que “na sociedade contemporânea só nos resta a simulação, após o que ele denomina a orgia da explosão sexual, política e artística da modernidade”.  A ideia comum abordada, então, seria a de dispersão universalizada, determinada por um desencontro do indivíduo com o seu contexto e que, mesmo assim, tudo “coexiste na plena indiferença”.

Seria possível, ainda, analisar muitos outros aspectos que moldam o estado atual de alta volatilidade, dentre eles o constante narcisismo e a solidão generalizada em um ambiente no qual parece haver, sempre, conexão entre pessoas.

Obra de Barbara Kruger, artista que, por meio de colagens, criticava a sociedade consumista nos anos 80

A expressão artística como reflexo do indivíduo e sua cultura

As relações entre cultura, indivíduo e sociedade já se tornam fortemente aparentes em Freud, que também se questionou sobre aproximações entre a produção artística e a psique humana. A princípio, para ele, como menciona Silvana em sua tese, é necessário analisar e “estabelecer uma analogia entre o individual e o social”. De acordo com a professora Carmen Gonzalez-Roman, professora de Teoria da Arte da Universidade de Málaga, na Espanha, analisando o processo criativo pelo pensamento freudiano, destacam-se duas vertentes: a biográfica-psicanalítica e a da criação como processo de simbolização.

O processo biográfico-psicanalítico está diretamente relacionado com o estado da cultura na qual o indivíduo se insere e suas assimilações pessoais. A criação seria, então, uma explosão de um aglomerado de fatores. Primeiramente, o inconsciente tem um papel importante, uma vez que esse indivíduo, através da sua vivência, guarda constantemente referências relacionadas às vivências diárias, que desenvolvem diversas fantasias em sua mente. Por outro lado, o que permite que a criação artística se efetive seria o que é conhecido como sublimação: o processo pelo qual deslocam-se pulsões sexuais a objetos não sexuais. Em Freud, a pulsão sexual seria constante nos seres humanos e nossas ações estariam diretamente relacionadas a uma tentativa de suprir as vontades vindas dessas.

Ao mesmo tempo, a personalidade do artista estaria intimamente ligada a uma estrutura narcisista e assim, essa personalidade, que deseja ser autossuficiente e procura reafirmação em seus próprios processos mentais, encontraria na arte uma forma de liberação. Ao mesmo tempo, como também afirma Silvana em sua dissertação, através das concepções de Hanna Segal, o impulso criativo também surgiria de um contexto que pode ser definido como ‘depressivo’. Citando Marcel Proust, define-se que “o artista cria pela necessidade de recuperar um passado perdido, um objeto que está morto”. Essa informação pode ser intimamente relacionada ao contexto atual, exposto no início do texto, em que o indivíduo, em descompasso, desorientado, atingiria um estado de depressão inconsciente, e que, na arte, encontra uma possibilidade de canalização.

Ao explorarmos a criação como processo de simbolização, a interpretação torna-se ainda mais ampla. Em Freud, a arte e o impulso pela criação seriam considerados, em seu valor simbólico, como uma demonstração do inconsciente e o  processo em si pode ser comparado a outros procedimentos simbólicos, como os sonhos, manifestando-se das mais diversas maneiras.

Ainda tendo como base a simbolização, é possível trazer ideias de Carl Gustav Jung, que considera o homem como criador de símbolos e determina a permanência desses na mente de forma atemporal (chamados de arquétipos), e que pode ser relacionada com o processo artístico, ao destacar a presença constante ao longo do tempo de simbologias semelhantes na arte. Seria como se, com o passar da História, o ser humano se utilizasse da simbologia para retratar aquilo que se passa de forma inconsciente em sua mente e que, ao mesmo tempo, esses símbolos não

estão limitados a apenas um momento, mas se manifestam constantemente em diferentes contextos, obviamente adaptando-se a diferentes realidades culturais e sociais da civilização.

Tendo em conta todas as diferentes interpretações, podemos delimitar um certo padrão a respeito da sensação trazida àqueles que se dedicam ao processo artístico. Indo de um contexto amplo, evidenciando aspectos da cultura e se aproximando do espectro individual de cada pessoa, podemos entender que o processo surge como uma forma de liberação, seja de um mal estar comum, de um mal estar individual ou até de um mal estar inconsciente.

O indivíduo que produz em contato com a psicanálise

A artista plástica Louise Bourgeois frequentou análises por mais de 30 anos e ao longo da sua vida registrou tanto as impressões relacionadas ao processo psicanalítico quanto sobre o efeito disso em sua produção. Em suas anotações, revelava os aspectos mais profundos de seu pensamento, registrando momentos de extrema insegurança e depressão.

“Autorretrato”, de Louise Bourgeois

Em anotações feitas às pressas, em lugares diferentes, listou seus medos: “Tenho medo do silêncio/ tenho medo da escuridão/ tenho medo de cair/ tenho medo da insônia/ tenho medo de me sentir vazia”; suas inseguranças: “De me machucar/ medo de me machucar/ de machucar alguém antes de ser machucado/ o que machuca?”; respondendo à suas próprias perguntas: “ser abandonada/ ser criticada/ser atacada/ receber muitas perguntas/ ser usada/ ser rejeitada” e seus sentimentos pela psicanálise: “A análise é um trabalho/ é uma armadilha/ é um privilégio/ é um luxo…é uma piada/ me deixa impotente/ me torna um policial/ é um sonho ruim”.

“I want to love you more”, de Louise Bourgeois e Tracey Emin

Ela mesma chega a definir a arte como sua “forma de psicanálise”, tendo acesso a áreas remotas de sua mente e considerando-a uma forma de “liberação psicológica”. Em um artigo feito pelo jornal britânico The Guardian, relatando a divulgação de seus registros pessoais, seu trabalho é citado como algo “reparador” e uma forma de “curvar a mente”. Dessa maneira, o estudo do processo artístico pela análise psicológica pode, também, ajudar a entender o porquê do próprio fazer, e está bem resumido em uma frase de Bourgeois:

“A arte é uma garantia de sanidade.”

 


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