Alô, alô, barsoomiano, aqui quem fala é John Carter

 

Por: Julia Mayumi (juliasueyoshi@gmail.com)

 

Edgar Rice Burroughs é um velho conhecido dos amantes de ficção científica e um ilustre aleatório para os que não costumam ler esse gênero. O criador do Tarzan (sim, o da Jane, do filme da Disney) emprestou a coragem e a resiliência do homem da selva para John Carter, protagonista de Uma Princesa de Marte (Editora Aleph, 2012), primeiro livro dos onze romances barsoonianos escritos entre 1912 e 1943.

John Carter é um veterano de guerra da Virgínia, EUA, que, com a derrota sulista na Guerra Civil, vai para o oeste americano em busca de minas de ouro, como tantos de seus compatriotas. Sua viagem, porém, sofre um pequeno desvio e o capitão se descobre perdido nas monocromáticas terras de Marte – ou Barsoom, como é chamado pelos locais.

Chegando lá, Carter se envolve em diversos conflitos com as belicosas tribos marcianas e se apaixona pela princesa de Helium, a honrada e bela Dejah Thoris. Ao longo das 269 páginas da edição publicada pela Editora Aleph em 2012, o protagonista conhece a fundo as peculiaridades da vida em Barsoom e de seus habitantes, fazendo aliados importantes e inimigos perigosos.

Uma Princesa de Marte é considerado um marco na literatura pulp, um estilo de publicação da primeira metade do séc. XX que se caracterizava pela baixa qualidade do papel usado e pelas histórias de ficção construídas para agradar ao grande público, sem promover grandes reflexões. A imaginação fértil de Edgar Rice cria um universo fascinante e detalhado, explicando desde a composição atmosférica marciana até o funcionamento das sociedades que ali vivem de forma coerente e impressionante.

Em contrapartida à qualidade da ambientação, o desenvolvimento dos personagens deixa bastante a desejar. John Carter é desenhado como um heroi de caráter, astúcia e bravura, mas não tem nenhum grande aprendizado, a não ser, talvez, sobre o poder do amor. O amor, aliás, é equivocadamente usado pelo autor como desculpa para as inúmeras mortes causadas pelo protagonista ao longo da história, que, embora se autoproclame um cavalheiro da justiça e da liberdade, não hesita em matar em incontáveis momentos. Dejah Thoris, o par romântico, não tem qualquer destaque além de ser “a namorada do heroi”, e suas falas sobre tradições e costumes, que deveriam soar com dignidade, mais parecem frescuras. Sola, aliada do casal, tem um background incrível que só é mencionado uma vez até o final do livro. Tars Tarkas, líder guerreiro, é um personagem confuso – fica difícil ter certeza se ele é amigo ou inimigo de Carter – e, estranhamente, tem um papel muito importante e ao mesmo tempo apagado pela narrativa.

O romance foi adaptado para os cinemas pela Disney em 2012 com o título “John Carter – Entre Dois Mundos” (John Carter, 2012), mas foi um fracasso nas bilheterias.

Uma Princesa de Marte tem seu valor literário inegável, ainda mais pela época em que foi escrito, mas há vários pontos que comprometem a satisfação do leitor. Ainda assim, vale a pena conhecer o incrível universo de Barsoom, ainda que seus habitantes não encantem tanto quanto sua história e sua natureza.


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