Uma substância amada e poderosa

Por: Giovana Christ (giovanachrist@usp.br)

Aquela que nos deixa em pé nos piores dias, nos concentra no trabalho, aumenta o foco e a memória, nos deixa mais dispostos para fazer atividades físicas, acelera o coração e é a melhor amiga de muitos. Isso mesmo, a cafeína. Substância tão querida, tem uma lista imensa de benefícios (e malefícios também, não se engane) que a tornam tão famosa e desejada por quem vive as rotinas puxadas da nossa sociedade.

Se engana quem acha que só no café que se encontra a cafeína. O composto está presente em diversos alimentos que consumimos diariamente, como chás, refrigerantes, no cacau e no guaraná, sendo, dessa lista, o café um dos que têm o menor teor do componente em seu grão. Para ter uma ideia, o café só tem em torno de 1 a 2% de cafeína, o cacau chega a ter 1,7%, os chás têm por volta de 3,5%, enquanto o guaraná tem em torno de 4%, como informa o Dr. Miguel Antonio Moretti, médico e pesquisador do InCor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP). Isso mostra que na maior parte do tempo, o café não é consumido apenas para a ingestão de cafeína, e sim, por um hábito que foi instituído em diversas sociedades há décadas.

Embora pareça ser a salvação das rotinas puxadas, a cafeína deve ser ingerida com moderação e de forma consciente, respeitando a dose máxima segura como sugere o Dr. Moretti de 500 mg diárias (sendo essa quantidade distribuída durante o dia, e não ingerida de uma vez só). O que, dependendo da forma de preparo, corresponde a mais ou menos 500ml de café. Portanto, em pesquisa feita com estudantes de pré-vestibular e graduação, cerca de 30% dos jovens toma mais café do que a quantidade recomendada, o que pode trazer diversos efeitos contrários dos desejados pelos consumidores do componente.

o café entra rapidamente na corrente sanguínea e faz efeito em diversos órgãos e sistemas
Créditos: Giovana Christ

O consumo exagerado de cafeína pode trazer consequências diferentes para cada pessoa, mas as mais comuns são: irritabilidade, ansiedade, dor de cabeça e insônia, segundo a nutricionista Karina Abbud. As pessoas propensas a terem arritmia cardíaca, pressão alta e gastrite devem ter um cuidado maior ainda ao consumir o composto, respeitando os limites do seu organismo para não o prejudicar.

Um dos motivos de a cafeína ser tão procurada e amada por muitos é por ter um efeito que nos deixa mais despertos e com menos sensação de sono, o que ajuda os que não conseguem dormir as horas necessárias. Na mesma pesquisa com estudantes, foi mostrado que dos 127 participantes, 82% dormem menos que 8h a média indicada como ideal o que propicia o uso de alimentos com cafeína para disfarçar a sensação de sono. Mas, como explica o Dr. Moretti “se você toma uma dose muito alta de cafeína pra ficar acordado, você esgota o seu corpo, então quando chega a hora da prova do dia seguinte, você tem ‘branco’ por ter esgotado seus neurotransmissores, não os tendo na hora que você precisa deles para se concentrar na prova, porque a cafeína não fornece essas substâncias químicas”, e ressalta também que “se a privação do sono for estimulada com o consumo da cafeína, não se terá apenas os efeitos da privação do sono, como também os malefícios da cafeína”.

As pesquisas atuais envolvendo os prós e contras tanto da cafeína como do café especificamente são muitas. Descobertas sobre os poderes do café, por exemplo, mostraram resultados positivos do consumo em associação a doenças como câncer de colo, de mama, de fígado e doença de Parkinson. Investigações nessa área são feitas com grupos de pessoas que tomam café em comparação a grupos que não tomam. Em uma dessas pesquisas, foi descoberto que os participantes que tomavam a bebida tiveram menor incidência dessas doenças. Entretanto, esses resultados só podem ser dados de forma genérica, por ser impossível isolar o efeito da cafeína no cotidiano das pessoas, tornando difícil a relação direta de doenças com a substância e do fornecimento de dados conclusivos pela sociedade científica.


Tags: , , , , , ,