As mulheres que mudaram e continuam mudando o mundo

Livro “As cientistas” expõe o triunfo feminino na ciência e promove evento para discutir tópicos da área

Por: Gabriela Bonin (gabibonin@usp.br)

 

“Este livro conta as histórias de algumas dessas cientistas, desde a Grécia Antiga até os dias de hoje, que, diante de um ‘Não’, responderam ‘Tente me impedir’.”

É dessa maneira que Rachel Ignotofsky faz a introdução de uma obra que viria a ser o best seller científico do New York Times em 2016. “As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo” é um livro que apresenta, de uma forma muito didática e visualmente atrativa, o perfil e a história de mulheres que revolucionaram o campo da ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Um exemplo de página do livro descrevendo o perfil de Mary Anning, tida como “a maior estudiosa de fósseis que o mundo conheceu”. (Imagem: Rachel Ignotofsky Design)

Bate-papo de divulgação da obra

“As cientistas” foi lançado no Brasil em abril de 2017 pela Editora Blucher, que promoveu um evento de lançamento no dia 6 de maio, na Livraria Saraiva do Shopping Pátio Paulista, em São Paulo. O acontecimento uniu quatro mulheres relacionadas ao mundo da ciência: Julia Jolie, dona do canal do youtube Julia Jolie que divulga cultura, educação e ciência e estuda biomedicina na UFRJ; Natalia Pasternak, bióloga, pesquisadora da USP e coordenadora do “Pint of Science”; Julia Jaccoud, estudante de Matemática da USP e youtuber (canal Matemaníaca); e Cláudia Fusco, jornalista que já escreveu em revistas como a Superinteressante.

Em um evento para 40 pessoas, muitos tópicos foram discutidos, mas todas as palestrantes defenderam assiduamente a importância da divulgação científica – papel que elas exercem no mundo digital. Foi trazida à tona a redução de 44% no orçamento federal da ciência, considerada por Natalia Pasternak “uma decisão errada que vai afundar o país e refletir futuramente na saúde e na educação”. A bióloga também defendeu a importância de diminuir a dependência entre o governo e a ciência, citando a necessidade do financiamento privado.

Ainda nesse tópico, parte da discussão voltou-se à importância do jornalismo científico de credibilidade. As convidadas citaram a dificuldade de comunicação entre jornalistas e cientistas, uma vez que, em muitos casos, os veículos midiáticos apenas buscam informações que chamem a atenção e promovam visualizações. Natalia comentou o valor de uma população bem informada: “Do mesmo jeito que existem canais bons como os delas [Julia Jaccoud e Julia Jolie], existe uma enorme gama de programas e blogs que falam besteira. Como dar um filtro para a população e lidar com essa era de desinformação? A única maneira de combater isso é educar um cidadão crítico e consciente”.

As “embaixadoras” do evento: Julia Jaccoud, Julia Jolie, Natalia Pasternak e Cláudia Fusco (Imagem: divulgação)

A participação feminina na área

Ao serem questionadas sobre desafios e preconceitos sofridos por consequência de serem mulheres, todas as convidadas disseram nunca terem sido afetadas diretamente por isso. No entanto, Julia Jaccoud comentou a existência de situações de desânimo feminino na área das ciências exatas, citando a presença de um coletivo de mulheres na universidade para compartilhar tais experiências. “A gente fica desencorajada para ir até a lousa resolver um exercício, porque todo mundo vai olhar. Têm pessoas desencorajadas a perguntar […] e também existe a ideia de que a mulher tem que ser perfeita e não pode errar. São pressões de todos os lados”, disse a matemática.

Natália Pasternak também defendeu que “a ciência não tem gênero, ela só precisa de pessoas apaixonadas pelo que fazem” e disse que “bons cientistas estão interessados em bons resultados. Eles não estão nem aí se você é um homem, uma mulher ou uma ameba”.

De modo a incentivar o estudo científico, Julia Jolie defendeu a importância de experimentar novas áreas e descobrir assuntos diferentes, reiterando a relevância da ciência no cotidiano das pessoas. “Não deixe ninguém dizer para você que é impossível”, completou a matemática Julia Jaccoud.

Um pouco mais sobre o livro

A obra inicia-se com a apresentação de Hipátia de Alexandria, a primeira astrônoma, matemática e filósofa documentada. Passando por nomes conhecidos como Marie Curie, pioneira na pesquisa da radioatividade e primeira mulher a receber um Nobel, o livro traz também a história de cientistas como Rosalind Franklin, a química que provou que o DNA é uma dupla hélice, mas teve seus trabalhos lidos e plagiados por dois homens na época.

Feminista e encantada pelo mundo da ciência, a autora é formada em design gráfico e acredita muito no poder da ilustração como ferramenta de aprendizado. Por isso, cada página do livro conta com gravuras e notas feitas pela própria Ignotofsky e não deixam que a leitura se torne algo massante e cansativo. Sempre fiel a seu objetivo – tornar a ciência algo mais acessível -, ela também adicionou ao fim da obra um glossário, que explica detalhadamente e simplifica conceitos desse mundo tão distante da realidade de muitos.

Brindes entregues pelos organizadores no fim do bate-papo. (Imagem: divulgação)

Dentro do contexto atual de ascensão feminina, “As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo” mostra a história daquelas que contribuíram de forma inexplicável com o progresso da ciência, mas nem sempre tiveram o reconhecimento merecido. Além disso, com apenas 128 páginas, a leitura pode ser realizada para crianças e jovens de modo a encorajá-los a ingressar no ramo. Afinal, a mensagem deixada por Ignotofsky é apenas uma: quando o assunto é ciência, não há gênero que impeça o avanço.


Tags: , , , , , , , , ,