Antes de julgar um procrastinador, entenda o que se passa pela cabeça dele

Procrastinar pode ser reflexo de uma série de transtornos pessoais em meio a um convívio social agressivo

por Caio VN (caiovn.usp@gmail.com)

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O velho hábito de deixar tudo para depois é o jeito que muitas pessoas encontram para fugir dos seus compromissos. Embora procrastinar seja uma prática muito frequente em determinados momentos da vida, isso pode resultar em perda de produtividade, culpa e sensação de fracasso. Certos casos são pontuais, contudo a procrastinação pode ser crônica e psicologicamente nociva.

Há uma série de distúrbios e emoções negativas que podem estar por trás desse perigo. De acordo com o professor do departamento de psicologia social da PUC-SP, Hélio Deliberador, a mentalidade autodestrutiva e o perfeccionismo paralisante mexem com a dinâmica emocional do ser humano. Para o professor, essas características podem ser o ponta pé inicial para a procrastinação.

“O perfeccionismo é um alto grau de exigência e, do ponto de vista humano, é uma eterna busca àquilo que é inacessível. Podemos sempre dar o melhor da gente com persistência, determinação e capacidade de buscar as melhores respostas, mas nunca alcançaremos a perfeição, porque ela é um ideal humanamente inatingível”, dispara o psicólogo.

Segundo Hélio, esses quadros de sofrimento psíquico têm como natureza a incapacidade de tomar decisões. “A pessoa fica aprisionada no seu modo engessado de ser e não consegue se posicionar. Esses fatores levam o indivíduo a adiar tarefas”, conta.

Sofia, de 23 anos, se identifica com esses fatores. Portadora de depressão e de um baixo grau de esquizofrenia, a jovem se trata por meio de remédios de tarja preta prescritos por um psiquiatra. “Quando não me encaixo no comportamento padrão, nas normas de convívio social, eu desanimo. Isso faz com que eu não consiga fazer as coisas e eu acabo adiando tudo”, explica.

Remédios de tarja preta acompanham a rotina da jovem (Imagem/Reprodução: Sofia constante)
Remédios de tarja preta acompanham a rotina da jovem (Imagem/Reprodução: Sofia constante)

Com uma procrastinação crônica, Sofia diz ver a vida de uma forma platônica e auto reflexiva em meio a uma solidão que a deixa aflita e a faz adiar tarefas. No Ensino Médio, pensava que as pessoas falavam mal dela pelas costas e, devido a isso, deixou de dar conta das obrigações escolares. “No colégio, eu estava numa nóia muito forte de que as pessoas não gostavam de mim. Comecei a faltar nas aulas. Me sabotei bastante e ainda faço isso em outros ambientes”, relata.

Por conta do quadro de esquizofrenia, antes de se medicar, Sofia era bastante sensível à perda de foco e procrastinava suas atividades ao lembrar de fatos da sua vida que já se passaram. Ela se distraía repetindo gestos e expressões faciais de momentos do passado sem sequer perceber. “Na minha cabeça eu só estava olhando para o lado de fora da janela”, conta. “Mas quem me observava via eu levantando o braço ou fazendo algo estranho. As pessoas julgavam meu jeito e a minha falta de foco sem sequer saber o que se passava dentro de mim.”

O contexto social influencia na procrastinação

O psiquiatra, professor e pesquisador Bill Knaus, conhecido pelo seu trabalho em revolução cognitiva na área da psicoterapia, afirma que mais do que um simples ato de evitar tarefas, procrastinação envolve um processo de percepções conectadas, sensações, pensamentos, emoções e ações ocorrendo dentro de um contexto social.

Carolina M., de 21 anos, se aproxima dessa afirmação de Bill Knaus. A jovem, que sonha em estudar arquitetura, completou o ensino médio em uma escola pública sucateada e conciliou os estudos para o vestibular com um emprego que lhe garantia parte do sustento financeiro. À época do vestibular, esse contexto econômico e educacional se tornou, segundo ela, um obstáculo para alcançar as expectativas que tinha em relação aos estudos. Além disso, as críticas ácidas que os colegas e familiares faziam contra ela no que diz respeito aos estudos, refletiram sobre as ações da estudante.

“Ao menos três vezes por semana, eu acordava por volta das oito com um peso na consciência que me afundava na cama. Parecia um soldado covarde”, dispara.

(Imagem/Reprodução: Caio Nascimento)
(Imagem/Reprodução: Caio Nascimento)

Outra barreira que a fazia adiar tarefas era a síndrome de inferioridade e a ansiedade. “Me acostumei com gente falando que não vou passar no vestibular, que sou burra. Acabei me afundando no meu próprio eu, nos meus desejos, sonhos e por fim, acabei me tornando uma fracassada. Acho que me acomodei em reclamar de mim e não faço nada para mudar.”

Apesar do histórico que há por trás de sua procrastinação, Carol, como prefere ser chamada, afirma que o seu círculo social não se sensibiliza em ampará-la. Por conta disso, a jovem procurou ajuda profissional. “Passei por oito sessões com o psicólogo, mas tive de parar porque fui demitida do meu emprego e precisei cancelar o convênio médico”, explica. Por fim, Carol desabafa: “Só falo, só penso, só planejo. Não consigo sair do lugar”.

De acordo com a pesquisa de Dr. Knaus, a procrastinação aflitiva de Carol é corriqueira na nossa sociedade e se associa ao gosto de planejar mais do que fazer. De acordo com o professor, essa aflição envolve sempre uma percepção negativa sobre a atividade que poderia ser antecipada. “A procrastinação começa com um sussurro de emoções negativas que precedem um desconforto que antecipam a realização de tarefas, e isso se estende em atrasos e mais atrasos”, aponta o professor.

“A ansiedade é um fator determinante para a procrastinação”

O instrutor em produtividade David Allen afirma que a principal causa psicológica da procrastinação é a ansiedade.

Sofia se enquadra nisso. O seu jeito ansioso é reflexo de pensamentos cíclicos, paranoicos e esféricos, como ela própria aponta. “Toda essa conturbação que anda ao meu lado reflete na minha procrastinação”, explica a jovem, dando ênfase ao caráter crônico do seu hábito de adiar tarefas. “Acabo sempre girando em falso. Vou para um lado, vou para o outro e não faço nada”, desabafa.

Ainda pequena, Sofia já se classificava como uma pessoa sem muitos amigos, insegura e tomada pelo medo de sofrer rejeição. Desde a infância, diz ela, a escassez de pessoas com quem conversar a afeta psicologicamente e lhe desperta uma ansiedade muito grande. “Isso sempre me angustiou; me atrapalhou ao fazer as minhas obrigações. Tenho sequelas disso até hoje”, afirma.

Supere a sua procrastinação

Para lutar contra esse mal, Bill Knaus acredita que os procrastinadores precisam ser fortes contra o hábito de procrastinar, mas, antes disso, é preciso agir de forma gentil consigo mesmos. Pessoas que procrastinam, diz ele, são duras com elas próprias e suaves com os problemas que as machuca. “Isto é como manter os olhos olhando para dentro de si e preocupando-se com sentimentos de impotências sobre o que elas procrastinam”, explica o pesquisador. “Ao invés de concentrar-se em si mesmo, concentre-se em interagir com o seu meio e tomar medidas positivas dentro dele para avançar”, aconselha.

A procura por psicólogos, psiquiatras e terapeutas também pode ajudar a contornar a situação. Procrastinar, segundo especialistas da área psíquica, não é um caso fútil que prescinde de ajuda profissional. A Jornalismo Júnior acompanhou o trabalho de terapeutas e percebeu que, ao buscar auxílio com profissionais da área, é possível desvendar obstáculos associados ao inconsciente e, dessa maneira, encontrar soluções que ajudem o procrastinador a redefinir os rumos da sua vida, com saúde mental e maior controle sobre aquilo que lhe aflige.


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