Arquivar memórias está mais perto do que se imagina

Por: Iolanda Paz (iolanda.rpaz@gmail.com)

“Se a tecnologia é uma droga – e ela se assemelha a uma droga –, então quais são, exatamente, seus efeitos colaterais?” Foi assim que Charlie Brooker, criador da série britânica Black Mirror, resumiu as preocupações que o motivaram, em artigo no The Guardian. Quanto ao nome, ele explica: “É aquele espelho preto que você encontra em toda parede, em cada mesa, na palma de todas as mãos: a tela fria e brilhante de uma TV, de um monitor, de um smartphone”. Num cenário em que a tecnologia avança velozmente e amplia suas possibilidades de uso, a proposta da série é escancarar a forma como nossos comportamentos estão sendo moldados por ela.

A cada episódio, futuros alternativos e novas personagens são apresentados. A temática é comum, possuindo sempre de fundo a ironia em relação a nossa dependência tecnológica – e aonde ela ainda pode nos levar. O presente é caricaturado pela ficção científica, que o coloca em situações extremas, incluindo aqui nossas relações e natureza humana. Mas o que nos assusta – e por isso o sucesso da série – é perceber que esse horizonte não está,  social e tecnologicamente falando, tão distante assim.

É o caso, por exemplo, do episódio “The Entire History of You”, o terceiro da primeira temporada. Em uma realidade paralela, cidadãos possuem um dispositivo implantado atrás da orelha chamado “grão”. Por meio da “memória granular”, eles conseguem gravar ininterruptamente tudo o que fazem, ouvem e veem ao longo do dia: seus olhos viram câmeras ligadas 24 horas. Com um controle remoto, acessam uma espécie de linha do tempo de suas vidas. As imagens salvas podem ser assistidas – inclusive com recursos de pause e zoom –, sobre os próprios olhos ou em qualquer tela próxima, como televisões e celulares.

No episódio, os olhos turvos sinalizam que memórias granulares estão sendo assistidas pela pessoa. (Imagem: reprodução)
No episódio, os olhos turvos sinalizam que memórias granulares estão sendo assistidas pela pessoa.
(Imagem: reprodução)

Gravando  cenas do dia a dia

Consultado sobre a veracidade desse tipo de tecnologia, Rodrigo Pimentel, mestre em Aprendizado Computacional pelo Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) e gerente de engenharia na empresa Blippar, falou sobre o aspecto mais interessante da série Black Mirror: “Quase nada lá parece estar muito longe de acontecer”. Ele recordou que, em 2013, a Google já havia lançado um óculos de realidade aumentada: o Google Glass. Por meio de uma pequena tela posicionada acima da lente direita, era possível projetar imagens diretamente no olho do usuário. Ele tinha acesso a informações online como mensagens, e-mails e GPS, além de poder fotografar e fazer vídeos de seu ponto de vista. O dispositivo possuía uma memória interna de 16GB e sua bateria – que durava cerca de 4 horas – era recarregada por conexão USB.

 

“O Google Glass já era uma forma pouco intrusiva, embora rapidamente estigmatizada, de se armazenarem cenas do dia a dia”, pontuou Rodrigo. (Imagem: reprodução)
“O Google Glass já era uma forma pouco intrusiva, embora rapidamente estigmatizada, de se armazenarem cenas do dia a dia”, pontuou Rodrigo.
(Imagem: reprodução)

Contudo, o Google Glass não estava totalmente pronto quando foi lançado. Sergey Brin, cofundador da empresa, quis colocá-lo no mercado e usar o feedback dos consumidores para aprimorá-lo. Mas, em razão das falhas, como bugs e pouca duração de bateria, o óculos caiu em desuso e parou de ser vendido – não sem antes criar um debate sobre os locais em que poderia ser utilizado e acerca da invasão de privacidade.

Recentemente, em novembro deste ano, a Snap – empresa responsável pelo aplicativo Snapchat – lançou seus próprios óculos. Equipados com duas câmeras, eles têm tecnologia para gravação de vídeos de dez segundos e publicação na rede social. Os Spectacles custarão pouco mais de cem dólares e Rodrigo acredita que serão mais populares do que o Google Glass – que custavam dez vezes mais. “Embora não pareçam tão high-tech quanto as lentes de contato de Black Mirror, os Spectacles são um passo importante naquela direção, uma vez que demonstram tecnologia boa o bastante, acessível e – o mais importante – socialmente aceita”, ele diz.

 

Spectacles: os óculos de sol conectados ao aplicativo Snapchat (Imagem: divulgação)
Spectacles: os óculos de sol conectados ao aplicativo Snapchat
(Imagem: divulgação)

Não são os óculos, mas sim as chamadas “lentes inteligentes”, que mais se aproximam do que é apresentado no episódio. Existem diversas iniciativas de produção delas e as aplicações são diversas: dar zoom quando se pisca, detectar níveis de glicose no sangue, aprimorar a visão humana e, claro, gravar e armazenar vídeos. “Eu imagino que, em cinco anos, já existam lentes inteligentes no mercado”, afirma Rodrigo. “Talvez caras, provavelmente com capacidade limitada, mas toda tecnologia passa por essa fase”, completa.

Várias empresas já têm patentes na área, sendo a Samsung um dos exemplos. Seu objetivo é desenvolver uma lente com micro câmeras integradas e conexão Wi-Fi. Para proporcionar a realidade aumentada, uma “tela” ficaria bem em cima da íris projetando imagens direto nos olhos. Além disso, o usuário conseguiria fotografar e filmar qualquer cena: tudo seria capturado e salvo direto na memória de um smartphone, que funcionaria como controle remoto.  

A Google também registou uma patente que chamou atenção: uma espécie de chip  – instalado cirurgicamente dentro do olho – com funções similares às das lentes acima. Para utilizá-lo, seria preciso que um médico removesse o cristalino (lente natural do olho humano) e colocasse o chip dentro dele, posicionando depois tudo de volta. O dispositivo teria Wi-Fi e câmeras de alta definição, também sendo controlado pelo smartphone.

Controle remoto utilizado no episódio. Rodrigo lembra que tanto ele quanto a projeção em telas já existem há muito tempo. (Imagem: reprodução)
Controle remoto utilizado no episódio. Rodrigo lembra que tanto ele quanto a projeção em telas já existem há muito tempo.
(Imagem: reprodução)

Conseguiremos ser ciborgues?

Sobre a possibilidade de se implantar chips em corpos humanos, Rodrigo diz que as experiências começaram nos anos 90. Hoje, segundo ele, os que são normalmente implantados chamam-se chips RFID. “Basicamente, eles identificam o usuário – da mesma forma que chips em mercadorias de lojas, ou em cartões de crédito que aceitam contactless payments (pagamentos sem contato)”, explica.

Entretanto, o chip do episódio é mais complexo por dois motivos: capacidade de armazenamento de dados e quantidade de energia necessária para que funcione. Pensando, por exemplo, nas lentes da Samsung, os arquivos de foto e vídeo seriam enviados para um smartphone, mas não é isso que ocorre em Black Mirror. Todos as memórias granulares – da vida inteira da pessoa – ficam salvas no grão atrás da orelha, sem que tenham de ser descarregadas em outro dispositivo.

A questão da energia também é bastante delicada, porque, como explica Rodrigo, chips que trabalham constantemente, armazenando vídeos e outras informações, exigem uma fonte sem fio praticamente ininterrupta. E essa não é a situação em que os atuais chips RFID funcionam. Eles são ativados aproximando-os de dispositivos específicos – como um leitor de cartão ou um totem em espaço público –, e não precisam de energia própria. É com essa tecnologia que vai funcionar, por exemplo, a lente inteligente que mede o nível de glicose no sangue: ela não precisa estar ligada o tempo todo, bastando que o usuário aproxime o leitor de vez em quando.

Para Rodrigo, uma possível solução, dentro do universo do episódio, seria colocar a fonte de energia no controle remoto que todos carregam. “Imagine que o chip consuma energia eficientemente, que o controle remoto tenha uma boa bateria e, finalmente, que ele consiga transmitir energia a distâncias maiores que as dos chips RFID – no caso, pelo menos à distância entre o bolso e a orelha de uma pessoa de estatura mediana”, ele propõe. Isso ainda não é factível com a nossa tecnologia atual, mas, segundo Rodrigo, é só uma questão de se atingir a eficiência necessária, sendo possível em alguns anos.

Já outros estudos buscam maneiras de usar as ondas eletromagnéticas ao nosso redor (da TV, do rádio e de outros dispositivos) para fornecer energia em uma grande rede. A Nokia, por exemplo, tem um projeto de celular que funciona exatamente dessa maneira – “sugando” a energia do ambiente. A própria patente do chip da Google pretende que ele seja carregado assim. A grande questão é, de acordo com Rodrigo, como fazer isso de forma razoavelmente eficiente, a distâncias aceitáveis e sem prejudicar a saúde das pessoas.

Ainda não se sabe se os sinais de Wi-Fi, GPS e Bluetooth são danosos ao ser humano, especialmente nessa proximidade e constância. “Ou seja, todo esse cenário pode ir por água abaixo se os chips implantados forem cancerígenos”, completa Rodrigo. Além disso, existiria a possibilidade de hackers invadirem eles e, então, saberem exatamente quem é você e sua localização. Também haveria o perigo de serem colocadas imagens falsas diante dos olhos dos cidadãos.

Perturbado com as memórias granulares, Liam arranca o grão. (Imagem: reprodução)
Perturbado com as memórias granulares, Liam arranca o grão.
(Imagem: reprodução)

Black Mirror nos faz questionar não apenas a veracidade tecnológica dos dispositivos apresentados, mas também nossas atitudes e reações a eles. O episódio em questão, “The Entire History of You”, conta a história de Liam Foxwell: um jovem advogado que desconfia que sua esposa, Ffion, o está traindo. Obsessivamente, ele vasculha memórias granulares à procura de indícios, indo cada vez mais fundo para suprimir suas dúvidas. Indaga Fi por diversas vezes – confrontando-a com cenas, falas e expressões faciais – e acaba descobrindo o que suspeitava. Sua esposa sai de casa com a filha, restando-lhe somente o passado gravado no chip. Sem conseguir viver com essas lembranças, ele arranca o grão.

Sob o pretexto de ficção científica, Black Mirror é, em verdade, uma crítica ácida ao presente. O episódio maximiza o que ocorre com casais em redes sociais, nas quais muito de nossas vidas fica gravado – fotos, vídeos, localização, etc. Nelas, é possível stalkear e ter comportamentos obsessivos e ciumentos como os de Liam. Assim, os aparatos tecnológicos e midiáticos que temos hoje já proporcionam um certo controle sobre as lembranças. Seria o grão apenas uma forma aprimorada de satisfazer o nosso desejo de revisitar memórias?

Ainda lembra Rodrigo que as consequências do armazenamento de cenas do dia a dia caem não apenas sobre os indivíduos e seus relacionamentos, mas sobre a sociedade como um todo. “O fato de que um potencial empregador ou segurança de aeroporto se veem no direito de pedir que você repasse, para inspeção, momentos de sua vida privada.” Além disso, considera importante fazer uma distinção: no episódio, não são memórias que são retidas, mas sim, vídeos. As primeiras são mecanismos mais complexos e incluem outros sentidos, como olfato e tato, enquanto que os últimos podem ser gravados por lentes.

“Uma câmera em uma lente de contato não está tão distante assim”, Rodrigo afirma, apostando que em apenas cinco anos a tecnologia já estará no ponto necessário. Quanto às questões de capacidade de armazenamento e energia, segundo ele, a sofisticação do episódio está a dez, no máximo, quinze anos. “A questão é, em primeiro lugar, se a evolução do mercado vai levar à criação do produto; e, na sequência, como a sociedade vai lidar com ele”, diz. “Esta é a questão chave, e ela não é tecnológica.”


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