Alzheimer, memória e qualidade de vida

SUS fornecerá um adesivo para auxiliar no tratamento do Alzheimer

Por: Amanda Panteri (amanda.panteri@gmail.com)

Foi divulgado recentemente pelo Diário Oficial da União que o Sistema Único de Saúde (SUS) do país passará a fornecer um importante aliado no tratamento contra os sintomas do Alzheimer: o medicamento em forma de adesivo para a pele que representa uma opção com efeitos colaterais menos intensos do que os comprimidos tomados oralmente.

Foto: Viva Saúde
Foto: Viva Saúde

Apesar de lançado em 2008, somente agora ele poderá ser retirado gratuitamente em postos de saúde, hospitais e pontos de distribuição. A rivastigmina em adesivo transdérmico, como é denominado, libera seu princípio ativo pouco a pouco durante o dia e age diretamente na corrente sanguínea, diminuindo assim as chances de ocorrerem náuseas, enjoo e perda de apetite. Além disso, a facilidade na aplicação ajuda os que, afetados pelo Alzheimer, não conseguem mais engolir os remédios ou simplesmente se recusam a fazer isso.

A rivastigmina é bastante utilizada em pessoas atingidas por enfermidades que prejudicam diretamente a cognição, pois ela aumenta a quantidade de acetilcolina no cérebro, uma substância essencial para o bom funcionamento da memória, aprendizagem e orientação.

A Doença

Apesar de ser alvo de diversas pesquisas recentes, o Alzheimer foi descoberto ainda no início do século XX por um médico alemão de mesmo sobrenome. Os 110 anos de investigações garantiram à ciência uma definição exata sobre os sintomas gerados por ele, porém, do ponto de vista biológico, suas reais causas ainda não são tão certas e a discussão a respeito disso é grande.

Alois Alzheimer. Foto: BrightFocus Foundation
Alois Alzheimer. Foto: BrightFocus Foundation

A doença de Alzheimer se caracteriza por degenerações progressivas das células neurais. Alterações no cérebro dos pacientes como a presença de placas senis de proteínas beta-amiloiodes estão sendo estudadas, contudo há pouco consenso sobre as suas reais funções para o surgimento da enfermidade. A grande novidade é em relação a um diagnóstico pré-clínico eficiente para os casos de aparecimento esporádico (aquele que costuma manifestar-se após os 60 anos), uma vez que já foi demonstrada a importância do tratamento imediato.

Até 2011, a identificação da doença se dava sobretudo a partir da detecção de falhas recorrentes na memória ou de algum outro domínio da cognição (linguagem, atividades físico-espaciais, funções executivas, etc). Atualmente, está se tornando cada vez mais comum a noção de que existem formas atípicas do Alzheimer que não interferem diretamente na memória episódica, o que ajuda em muito pacientes que apresentam sintomas incomuns.

Imagem do filme Para Sempre Alice, em que a protagonista descobre sofrer da doença de Alzheimer precoce. Foto: The Movie Netwrok
Imagem do filme Para Sempre Alice, em que a protagonista descobre sofrer da doença de Alzheimer precoce. Foto: The Movie Netwrok

Monica Sanches Yassuda, professora do curso de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP), afirma que as dificuldades podem começar a aparecer na execução de tarefas simples: “O que a gente normalmente observa é a pessoa começar a se atrapalhar em coisas como o manejo do dinheiro e das medicações. São duas atividades funcionais geralmente afetadas precocemente, e a pessoa começa a se atrapalhar em atividades que ela realizava muito bem”. As práticas complexas também ficam extremamente difíceis de serem cumpridas e os lapsos na memória, quando o indivíduo não consegue gravar informações novas, mais frequentes.

Devido a isso, deve-se prestar uma atenção especial à saúde emocional de quem sofre do Alzheimer. “O diagnóstico tem um impacto emocional muito grande”, defende Yassuda, “Gera muita ansiedade e tende a piorar os quadros de depressão, pois a pessoa começa a imaginar o que vem pela frente”. Ela ainda acrescenta que a perda de autonomia é um dos principais causadores de ansiedade entre os pacientes.

Preparar os cuidadores e os familiares, então, é essencial. Com pessoas próximas aptas, a busca por ajuda pode se dar mais rápido, o que contribui em muito para a eficácia no tratamento e para o impedimento do avanço nas alterações cognitivas. Essa parece ser uma das grandes preocupações da professora: “Nos esforçamos muito para aumentar a consciência das pessoas a respeito da doença e para que elas procurem fazer o diagnóstico logo. Os próprios médicos, muitas vezes, tratam dos problemas do corpo e muitas vezes esquecem de perguntar como está a memória e fazer uma investigação mais detalhada nessa área”.

Qualidade de Vida

Ainda não existe cura para o Alzheimer. Contudo, enquanto estudos a respeito estão em andamento, a adoção de práticas e estilos de vida ativos pode fazer uma grande diferença na melhora do dia a dia do paciente. Além do tratamento farmacológico, o estímulo cognitivo deve entrar o quanto antes na rotina de quem foi diagnosticado para retardar o aparecimento de outros sintomas.

Para personagem, vida social foi essencial
Para personagem, vida social foi essencial

A realização de tarefas dentro da comunidade também é uma grande aliada, defende Yassuda. “Você tem que levar em conta o que a pessoa gosta de fazer e o que ela consegue, pois isso é muito importante para ela não ficar mentalmente inativa”. Os esportes entram nessa lista e são comprovadamente benéficos, assim como um acompanhamento nutricional mais rígido: “Na verdade é importante cuidar bem da sua saúde, do seu cérebro e das suas relações sociais. São coisas simples, mas que podem ajudar muito”.

Já se fala também sobre o quanto esses métodos contribuem para a prevenção da enfermidade, pois pesquisas feitas nos EUA apontam que indivíduos com um alto grau de neuroticismo tem mais chances de desenvolver Alzheimer.

Novos Horizontes

Recentemente, a revista Nature publicou um estudo significativo para o campo. Nele, publicou-se que foi possível reduzir as placas beta-amiloides no cérebro de indivíduos portadores da doença –  e, com isso, reduzir também a perda da memória dos mesmos – através de injeções de aducanumab, um anticorpo monoclonal humano.

Foto: Capa da Revista Nature/Reprodução
Foto: Capa da Revista Nature/Reprodução

Essa é uma notícia bastante animadora para a comunidade científica, uma vez que trabalhos anteriores com o anticorpo não conseguiram retardar os danos mentais. Contudo, o projeto ainda está analisando os seus primeiros resultados e deve passar por mais testes. Monica confirma: “Por um lado é extremamente encorajador, mas novos estudos deverão confirmar esses resultados”.


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