Viver em gaiolas: corrigindo o termo “vício”

As falácias e problemáticas do emprego do termo “vício” para nomear usos compulsórios e a desconstrução de visões estereotipadas a seu respeito

Por: Breno Deolindo (breno.deolindo.silva@gmail.com) e Mayara Paixão (mayapaixao1@gmail.com)

É provável que você já tenha, em algum momento, usado o termo “viciado” para se referir a alguém. “Fulano é viciado em drogas”. “Beltrano é viciado em jogo”. “Sicrano é viciado em chocolate”. As possibilidades são múltiplas. O significado de “vício”, porém, não. Os sicranos e beltranos citados no dia a dia tiveram seus problemas restringidos por um simples termo que está carregado de conteúdo moralista e que deixou de ser — se é que um dia foi — o mais adequado.

Vício é comumente usado para designar comportamentos adictivos. Nas palavras da psicóloga Marília Marques, “[quando] a pessoa se relaciona com um determinado objeto no campo da necessidade, e não mais no campo do desejo”. De maneira ampla, ele tenta explicar comportamentos que os indivíduos têm a despeito de saberem que não devem utilizar determinada substância ou realizar determinada ação e, mesmo assim, o fazem.

No consenso de boa parte dos profissionais de saúde pública, porém, essa nomenclatura não é a adequada para auxiliar no manejo de pessoas que tenham desenvolvido o uso compulsório de alguma substância ou atividade. As explicações das causas para esses comportamentos também são, por vezes, banalizadas. Apesar de ser tido pelo senso comum como algo organicamente determinado, vício é o termo usado para nomear problemas que constituem um fenômeno multifatorial e multicontextual, como explica a terapeuta ocupacional Andrea Gallassi.

O porquê da negação do termo

Conceitualmente tido como oposto de virtude, “vício” é uma nomenclatura negada por seu caráter pejorativo e por sugerir, com base numa primeira impressão, que os atos ou usos compulsórios realizados por uma pessoa são sua culpa e escolha. É um termo que ignora, logo de princípio, o caráter situacional e social desses comportamentos e que deixa de perpassar todo o histórico de vida dos indivíduos que se encontram nessa situação. “Vício é um termo carregado de conteúdo de julgamento moral, porque se fala da questão do vício como desvio de caráter, como algo reprovado do ponto de vista das condutas sociais”, explica Marília.

Além dos muitos outros objetos do vício, substâncias psicoativas podem ser as protagonistas dos comportamentos adictivos. Neste caso, é comum o uso da expressão “dependência química”. No entanto, ainda esse termo pode ser problematizado. Segundo Andrea Gallassi, o que a leva a também evitar essa expressão é o fato de que ela “reduz o fenômeno a uma questão de ordem médica, de saúde” e, como a terapeuta ocupacional diz, ele não se restringe a isso.

Dizer que uma pessoa é “dependente” parece, automaticamente, caracterizar os demais indivíduos que a cercam e que não manifestam as mesmas características como “independentes”. Para Marcos Gorenstein, psicólogo cujo tema de pesquisa são justamente os vícios, aí reside outro problema. “Essa independência no oposto simplesmente não existe. Nós somos sempre dependentes, seja quimicamente (a neuroquímica cerebral que faz com que a gente possa ter tranquilidade e felicidade por exemplo), seja até da água no nosso corpo”, explica.

Mas, ora, qual é, então, a expressão a ser usada para fazer referência a esses comportamentos? De acordo com Gallassi, a alternativa é “uso problemático”. O que difere os termos é justamente a maneira de compreender o fenômeno. Ao passo em que a dependência o enxerga como sinônimo unicamente de doença, o uso problemático busca, com mais assiduidade, relacionar os outros fatores situacionais e emocionais. “Não estou dizendo que a pessoa não tenha um problema de saúde. Mas não é só isso, eu não posso restringir a compreensão”, completa a terapeuta ocupacional.

A metáfora científica da gaiola

Uma gaiola, por si só, transmite imediatamente a ideia de cárcere, de contenção daquilo que está preso lá dentro. No entanto, a visão do interior das grades é de isolamento social; uma rotina vazia e com poucas fugas disponíveis. Sob esse pretexto, o cientista canadense Bruce Alexander realizou, no final da década de 1970, um experimento que revolucionaria as visões já existentes sobre dependência química.

Alexander recriou, com cobaias animais, duas situações vividas pelos seres humanos: na primeira, um rato vive sozinho dentro de uma gaiola, com a opção de beber água pura ou contaminada com substâncias psicoativas. Em outro cenário, o animal teria uma grande gama de passatempos possíveis: brinquedos, outros ratos com os quais poderia ter atividades sexuais e, também, a água adulterada.

Os resultados foram surpreendentes: no primeiro ambiente, a cobaia consumia cada vez mais a água com drogas ao invés da pura, eventualmente alcançando a overdose e morrendo. Já no segundo, o consumo da droga era praticamente nulo e a pequena sociedade de ratos continuava sua vida normalmente. Conclui-se, então, que, ao menos nos animais, o problema da dependência química não está no objeto de uso abusivo, e sim no contexto em que o paciente vive e nas relações sociais mantidas por ele.

O psicólogo Marcos Gorenstein caracteriza esse transtorno como um “estreitamento do mundo à uma determinada substância, a um determinado uso”. A experiência de Alexander constitui justamente nisso: forçar um estreitamento das possibilidades mundanas da cobaia e, por consequência, torná-lo dependente de uma única atividade. Ao abrir janelas e “alargar” o mundo do rato, a droga torna-se apenas um elemento supérfluo.

“Existe uma determinada prisão, não em termos físicos, mas em termos existenciais, que faz com que as pessoas acabem se aliviando dela, dessa ‘gaiola’, com o uso de substâncias”, diz Gorenstein
“Existe uma determinada prisão, não em termos físicos, mas em termos existenciais, que faz com que as pessoas acabem se aliviando dela, dessa ‘gaiola’, com o uso de substâncias”, diz Gorenstein

 

Baseando-se no conceito de comportamento adicto, mencionado anteriormente, entende-se que um paciente, ao ter uma única atividade disponível para se entreter, não sofre de uma simples falta de opções — mas sim de uma quase inexistência de contato com o mundo.

Segundo Marques, o isolamento social não é a única maneira de estreitar o mundo de um indivíduo. Ela afirma que algumas pesquisas mostram o elo entre relações familiares e a dependência: “Pesquisas mostram também que famílias que têm uma interação violenta, abusiva, intolerante, fazem com que seus filhos venham a se aproximar mais facilmente do uso de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas”.

A Guerra do Vietnã também funciona como experimento nesse modelo. Uma reportagem da revista Time afirma que, durante o conflito, “usar heroína era tão comum como mascar chiclete”. Ao sair daquela desagradável “gaiola”, com pressão emocional e física beirando os limites, e voltar para sua terra natal, a maioria avassaladora dos combatentes apenas interrompeu o uso do opióide, sem a necessidade de reabilitação.

Existem inúmeros exemplos para ilustrar os pensamentos dos dois profissionais: tratamentos a base morfina; soldados norte-americanos e até mesmo o Parque de Ratos de Bruce Alexander — nenhum dos indivíduos envolvidos nesses casos se tornou dependente da substância em questão. Percebe-se, assim, que um vício nunca vem somente pelo objeto de uso, mas sim por uma série de fatores, sejam eles químicos, biológicos ou psicológicos.

Vício é uma doença?

“Cada caso é um caso e ele precisa ser analisado individualmente”. Pode parecer uma frase comum, mas, em se tratando dos usos problemáticos, é esse o pressuposto necessário e explicado por Marília Marques. Nesse sentido, inexiste uma linearidade unânime para explicar os comportamentos adictivos desenvolvidos por todos os indivíduos. É preciso entender, ao longo da trajetória de vida de cada um, qual a justificativa para essa aproximação do objeto ou da droga. Por que esse sujeito se tornou adicto? Qual o lugar que essa substância ocupa em sua vida? São perguntas a serem respondidas. Com base nisso, o tratamento poderá ser capaz de ressignificar uma experiência primitiva do desenvolvimento do indivíduo em questão que teria desencadeado nele algo que viabilizasse a necessidade dessa dependência.

É preciso, também, destacar o caráter multifatorial dos vícios, que envolve as condições sociais  em que as pessoas se encontram — como na experiência da gaiola. A exemplo disso estão os programas sociais, como o “De Braços Abertos” da Prefeitura de São Paulo, que buscam garantir os direitos básicos à população em situação de vulnerabilidade social que faz uso de drogas.

Segundo Marcos Gorenstein, se conceituarmos a saúde enquanto um estágio de silêncio do corpo humano, o uso problemático de objetos e substâncias poderá, em oposição a isso, ser entendido como uma doença. “Seria uma manifestação não silenciosa, muito gritante, que toma não só o nosso corpo, mas toda a nossa vida, toda a nossa existência e que impede a plena realização das nossas potencialidades”, defende o psicólogo. Seria como se a pessoa estivesse “embarulhada”.


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