Péssimo término de namoro? A ciência resolve!

Um procedimento que deleta memórias é a solução que Joel encontra para esquecer Clementine, em Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças. Qual é a real possibilidade de filtrarmos memórias, hoje?

Por: Ana Carolina Aires (airesanacarol@gmail.com)

Imagem: Ana Carolina Aires
Imagem: Ana Carolina Aires
 

Sucesso em 2004, Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças (dir. Michel Gondry) parecia ser somente mais um daqueles intrigantes filmes de ficção científica. Mas, da mesma forma que 2001: Uma Odisseia no Espaço (dir. Stanley Kubrick) previu, em 1968, o tablet e o Skype, podemos dizer que apagar memórias, como em Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças, é, 12 anos depois, uma possibilidade real e viável.

Cena de 2001: Uma Odisseia no Espaço, mostrando a ideia de um tablet e uma chamada de vídeo à distância
Cena de 2001: Uma Odisseia no Espaço, mostrando a ideia de um tablet e uma chamada de vídeo à distância

Joel (Jim Carrey), após um término conturbado com Clementine (Kate Winslet), resolve apagá-la de suas memórias. Com essa finalidade, Joel entra em contato com a Clínica Lacuna que realiza um tratamento experimental de remoção de memórias específicas das pessoas.

O doutor Mierzwiak, que realiza a remoção das lembranças, explica para Joel como funciona o procedimento logo no início do filme. Segundo ele, a remoção seria feita através de um processo que, tecnicamente, poderia ser considerado um dano cerebral, mas que estaria “no nível de uma noite de bebedeira”.

No filme, o processo de remoção é dividido em duas etapas:

1) Realização um mapeamento do cérebro: nessa etapa, os médicos pedem que Joel se concentre nas lembranças que ele tem de Clementine ao visualizar objetos relativos ao relacionamento dos dois e, a partir disso, observam a reação das células cerebrais dele. Enquanto relembra os momentos mentalmente, pontos ressaltados em seu cérebro apontam onde estão as lembranças.

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2) Retomada das lembranças monitorada por computador: Joel, enquanto dorme, retoma seus momentos com Clementine, como se fosse um sonho. Enquanto isso, é monitorado por um aparelho acoplado a sua cabeça e conectado a um computador. Assim que remonta uma memória com Clementine, o aparelho faz a remoção daquela lembrança, repetindo o processo para as seguintes.

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Deletando memórias “fóbicas”

Antigamente os cientistas acreditavam que as memórias eram guardadas em um único espaço do nosso cérebro. Recentemente foi descoberto que memórias são armazenadas em conexões espalhadas por todo o cérebro. Ou seja, uma memória é formada, na verdade, quando células cerebrais são estimuladas a crescer e criar novas conexões, literalmente religando circuitos na nossa mente.

Foi a partir dessa descoberta que Merel Kindt, cientista da Universidade de Amsterdã, pôde utilizar o processo chamado Reconsolidação de Memória para acabar com a aracnofobia de mais de 30 pacientes.

Sasha Duel, paciente curada da aracnofobia pelo processo de Reconsolidação de Memória
Sasha Duel, paciente curada da aracnofobia pelo processo de Reconsolidação de Memória

A Reconsolidação de Memória é feita por meio de dois passos: primeiro é necessário o contato da pessoa que possui fobia de aranhas com uma aranha. A cientista estimula que a pessoa se aproxime do artrópode e tente colocar a mão nele. Logo em seguida, a pessoa é levada a tomar um comprimido de Cloridrato de Propranolol. Isso fará com que a fobia desapareça por completo.

Propranolol é um medicamento anti-hipertensivo indicado para o tratamento e prevenção do infarto do miocárdio. Ele bloqueia a liberação de noradrenalina na amidala, o “centro do medo” do cérebro. Uma vez que a noradrenalina é parte da consolidação e transmissão de uma informação durante uma situação de medo ou estresse, ao bloquear a passagem da substância, impede-se que a memória seja reconsolidada.

Cientistas provaram que, uma vez que você lembra de alguma coisa, para que você volte a armazenar essa memória, é preciso criar novas sinapses no cérebro. Ou seja, uma memória nunca será armazenada da mesma forma depois que for lembrada. Por essa razão, a utilização do Propranolol depois do contato com a aranha faz com que a lembrança anterior àquela situação seja apagada, já que ela é bloqueada de voltar para o armazenamento do cérebro.

Kindt afirma que, apesar de o medicamento não ser uma “pílula do esquecimento”, já que sem o contato com a aranha, nada aconteceria, o processo de Reconsolidação de Memória acaba efetivamente deletando uma memória.

O mapa das lembranças

Na Universidade de Columbia, a neurocientista Christine Denny e sua equipe descobriram como ligar e desligar a memória de camundongos. Utilizando uma tecnologia chamada Optogenética, é possível não somente mapear uma memória específica, mas manipulá-la com lasers.

Ao colocar um camundongo em um ambiente agradável, Danny mapeou todos os neurônios do cérebro do animal que eram ativados ao gravar a memória daquele local. O mapeamento foi possível porque foi inserido no genoma do camundongo parte do DNA de um protozoário que possui proteínas fotossensíveis. Essa proteína no protozoário é responsável pela resposta a estímulos de luz; no camundongo, a proteína não interfere em nada e é mantida silenciosamente em seu genoma.

Ao injetar uma droga um pouco antes da experiência positiva no ambiente agradável, a parte do DNA do protozoário é ativada. A partir daí, proteínas fotoluminescentes são liberadas no cérebro do animal e serão direcionadas para as regiões de atividade. Dessa forma, as células que codificaram aquela lembrança positiva tornar-se-ão sensíveis a luz.

Uma vez que essas celulas mapeadas são estimuladas por um laser de luz, o camundongo, colocado em um ambiente desagradável, continua sentindo-se completamente confortável, isso porque ele revive a memória de quando se encontrava no ambiente agradável. De maneira análoga, pode-se simular lembranças ruins no cérebro do camundongo (ver esquema abaixo).

Daniel Miyazato/ Comunicação Social - Jornalismo Júnior
tradução: Daniel Miyazato/ Comunicação Social – Jornalismo Júnior

Brilho eterno de uma mente fascinante

Nossas memórias são um complexo infinito ainda indecifrável. É provável que daqui alguns anos alguns Joels possam esquecer suas Clems através de procedimentos análogos ao que vemos no filme Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças, já que temos avançando no desvendamento dos mistérios das nossas mentes.

Por enquanto, não podemos dizer que nossa tecnologia é capaz de apagar, efetivamente, memórias complexas como de um término de namoro. Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças ainda está somente no plano das ideias da ciência, mesmo que cientistas como Christine Denny e Merel Kindt já desafiem as barreiras da ciência.

Por outro lado, podemos perceber algumas sutis semelhanças entre os procedimentos verdadeiros de manipulação das lembranças e o procedimento feito através da ficção. Talvez possamos dizer que a vida imita a arte, uma vez que as ficções científicas se parecem, cada vez mais, com previsões de um futuro próximo.

Como é imensa a felicidade da virgem sem culpa.

Esquecendo o mundo, e pelo mundo sendo esquecida.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças!

Cada prece é aceita, e cada desejo realizado;

Trabalho e descanso mantidos em iguais períodos;

Obedientes sonhos dos quais podemos acordar e chorar;

Calmos desejos, afetos sempre furiosos.

– “Eloisa to Abelard”, Alexander Pope

(poema que inspirou o nome do filme)

Fonte: Documentário “Memory Hacker”, PBS NOVA (2016)


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