Já pensou se a juventude eterna existisse?

Por Ingrid Luisa (ingridluisaas@gmail.com)

Ingrid Luisa | Comunicação Visual/Jornalismo Júnior
Ingrid Luisa | Comunicação Visual/Jornalismo Júnior

Estava na hora. Deveria ir. Mas ela hesitava. Ouvia gritos de sua mãe para se apressar, mas não conseguia sair da frente do espelho. 27 anos, havia chegado na idade, mas porque deveria fazer isso? Ainda mais tão cedo? Ela gostava do que via no espelho. Era bonita, sem nenhuma marca de idade. Seus olhos escuros e cabelo negro muito liso contrastavam com a pele alva. A voz lá de fora insistia, e de repente chegou a porta de seu quarto uma moça que parecia ter uns 35 anos, era sua mãe. “Alicia, vamos logo! Hoje é o grande dia, você vai ser linda assim para sempre, algo que eu não consegui fazer… Olha que se mantendo assim vai arranjar um casamento ainda melhor que o meu, hein? Vamos logo!”. Alicia deu uma última olhada para o espelho e foi.

Ao chegar na clínica, uma moça que não aparentava ter 20 anos lhe recebeu “Essa gosta de uma beleza mais madura, né? Mas já chega! Ainda bem que veio logo”. Alicia foi conduzida a uma sala de espera, lá sua mãe se despediu com um abanar de mãos falando, “te espero em casa para prova do vestido de amanhã, tá? Não atrase, Alicia!”. A filha acompanhou a mãe deixar a sala com o olhar. Estava com medo. Pegou o panfleto do procedimento que iria fazer e leu em voz baixa “Chegou a hora de realizar o procedimento para imortalidade? A clínica “Always 21” é o local! A melhor clínica do país não oferece somente um soro para a vida eterna, mas mantém a aparência da idade com a qual você realizou a primeira sessão do processo! Uma revolução que vai muito além da ultrapassada vida eterna, agora o que é para sempre não é só sua vida, mas sua juventude!”. Estava com mais medo. Sua mãe havia sido a primeira de sua família a realizar esse procedimento de manter a juventude, mas como é algo muito caro, só conseguiu fazer aos 35 anos e seu maior orgulho era que sua filha iria fazer ainda mais nova. Por ela, Alicia teria feito aos 23, mas a filha se recusou, alegou que 27 era seu número da sorte e que não faria antes daquilo. Conseguiu adiar até aquele data.

A verdade era que Alicia não queria fazer. Envelhecer lhe fascinava. Não que gostasse de ter rugas ou dores nas costas, mas a sensação de o tempo passando lhe encantava. Era como se realmente estivesse vivendo. Sua mãe, tão jovem, lhe aparentava um robô. Parecia não ser real. Não sabia nem se queria viver para sempre. Pra que viver para sempre? Sua tataravó e bisavó não fazem nada significativo o dia inteiro, Alicia as amava muito, mas para que elas tenham uma vida eterna, vários jovens pobres tiveram que morrer. Afinal, a população de 10 milhões de pessoas no planeta tinha que ser mantida, então para uns — com mais dinheiro — viverem, outros tinham que morrer. Alicia achava tudo muito artificial, falso. Não queria uma vida eterna daquelas, mas também não queria decepcionar sua mãe, que realizaria seu próprio sonho através dela.

“Moça, desculpa estar lhe acordando, mas acho que a próxima é você. Alicia, certo? Ouvi sua mãe falando”, ela acordou tonta, havia cochilado na clínica esperando sua vez. Seu nome aparecia como o próximo no telão que indicava a fila para o procedimento. Um rapaz, que estava sentado ao seu lado havia lhe acordado. Cabelo marrom, rosto quadrado, lábios finos, olhos levemente puxados. Ela respondeu “Ah, obrigada, e desculpe o transtorno causado”, ele deu um sorriso com o canto da boca. Parecia estar se contendo, não querer demonstrar que estava muito nervoso. Ela percebeu e falou “Está tudo bem?”, ele olhou para os olhos profundamente pretos dela e respondeu “Na verdade, não, mas a história de um estranho não vai lhe interessar”, falou, abaixando a cabeça. Ela sorriu, achou uma resposta inusitada. Insistiu, “por favor, estranho, me conte sua história”, ele levantou a cabeça, agora sorria com a boca inteira.

“Ah, sei lá. Meus pais não são ricos, sabe? Eles abriram mão de comprar o soro para imortalidade para eles para poderem conseguir esse procedimento para mim, que inclui vida e juventude eterna. Eu só tenho 24 anos, não preciso disso, não quero isso. Quero que eles comprem a casa própria, tenham uma vida mais confortável, mas não adianta argumentar, são dois contra um, nada do que eu diga lhes convence. Eles sempre falam que com juventude eterna vão aparecer muito mais oportunidades. Contam que em 2060, quando foi inventado o soro para imortalidade, foi quando a verdadeira ditadura da beleza começou. Viver para sempre é bom, mas de que adianta se você for para sempre um idoso? Antes de se conseguir a vida eterna, procedimentos estéticos para manter a aparência jovem já eram uma obsessão, tudo pela obrigação de ser sempre bonito e jovem. Golpes midiáticos de uma indústria que enriquecia alguns e escravizava 99% da população que nunca seria como os modelos das propagandas. E curioso é como foi feito, eles modificaram geneticamente o ultrapassado botox, criando uma substância para paralisar o envelhecimento total da pele, mantendo-a com todas as expressões. Os órgãos viraram praticamente máquinas, perdendo totalmente o fator orgânico, é sério, a pele de algumas pessoas parece plástico! Não faz nenhum sentido para mim. Ter a eternidade como horizonte faz todos os objetivos da vida, a teoria fascinante do carpe diem, se perder. Pra que aproveitar cada dia se você terá infinitos dias? Você só vai vivendo e vivendo e vivendo e… sobrevivendo. Porque pra mim, isso não é vida de verdade. A natureza é bela e perfeita porque é um ciclo. Parece clichê, mas é real, tudo nasce, cresce e morre, nunca entendi essa obsessão do homem por ‘eternidade’. Eu queria era pegar essa ‘pequena fortuna’ que meus pais guardaram durante anos e lhes dar uma viagem. Eles passaram a vida inteira só trabalhando para me dar esse ‘presente’. Minha mãe sempre quis conhecer o Louvre. Você conhece o Louvre? Com certeza sim, né, ahhhh e nossa, desculpa, fiquei falando e falando e nem…”,“ALICIA MATZUNAZO, POR FAVOR SE DIRIGIR À SALA 6 PARA O SEU PROCEDIMENTO”, chamou o alto-falante.

Alicia olhou para os belos olhos orientais do moço e levantou. Guardou o smartphone na bolsa, ajeitou o vestido e olhou novamente para o rapaz que estava de cabeça baixa. Pegou em sua mão, ele olhou para cima. Seus olhos se encontraram por um instante que, para eles, pareceram horas. Ela o puxou para ele se levantar, e ele quebrou o silêncio “Está na hora de você ir, chamaram seu nome”, mas ela continuava a lhe puxar, e não era para a porta 6, e sim para a porta de saída. Ele não estava entendendo nada e insistiu “Pra onde você está me levando? Assim vai acabar perdendo o procedimento”. Ela olhou para cima, na direção de seus olhos puxados, “Vamos levar sua mãe para ver a Vênus de Milo”, disse, sorrindo com o canto da boca.


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