Mundo novo

Marcel Nadale, editor da Mundo Estranho, fala sobre os desafios de traduzir a ciência para um público que lê cada vez menos

Por Ingrid Luisa (ingridluisaas@gmail.com)

A revista Mundo Estranho, como um veículo de informação que mostra ciência e cultura para um público mais jovem, dribla desafios de mercado incentivando a excelência visual das matérias a ME foi premiada esse ano pelo infográficoA Revolução do Bicho“, publicado na edição de setembro de 2015, com o  prêmio Award of Excellence na 37ª edição do The Best of News Design, pela Society for News Design (SND), considerado o “Oscar” do design e se reinventando em novas mídias. Marcel Nadale, um dos editores da revista, conversou com a Jornalismo Júnior e explicou um pouco os processos para a produção das matérias e ainda comentou sobre um assunto muito em alta na atualidade: o mercado de quadrinhos brasileiro.

Marcel Nadale
Marcel Nadale

Lab — O tema do seu dia de palestra é os novos formatos do jornalismo, as novas linguagem e uma das formas de se fazer isso é através de infográficos. A ME foi premiada esse ano pelo infográfico “A Revolução do Bicho”, publicado na edição de setembro de 2015. Conte um pouco sobre esse processo de produção dos infográficos, o tempo que demoram para serem feitos, como os designers trabalham…  

A revista inteira, no caso da Mundo Estranho, já é pensada conjuntamente em texto e arte. Diferentemente de outras revistas, em que a arte geralmente costuma só receber o texto pronto e ser aplicada na página, ela aqui participa da produção da matéria desde o começo. Os nosso repórteres costumam ter vinte dias para apurar cada matéria e quando eles vêm para fazer a reunião com os editores para contar como foi a apuração, o designer da matéria já está junto, pois repórter, editor e designer pensam em conjunto como vai ficar a matéria visualmente. Como temos uma contagem de caracteres super reduzida (uma página dupla da Mundo Estranho tem 3500 caracteres) possuímos muitas informações que se comunicam por imagens. Não é só para deixar a página mais bonita ou mais agradável de ler: muitas vezes a imagem tem a função de passar informações que a gente não consegue absorver diretamente lendo o texto, e é por isso que os designers já estão junto com o repórter e o editor desde o início, desde o momento em que se começa a estruturar a matéria na página.

A preocupação quando nós fazemos infográficos é buscar mais referencias para poder torná-lo bem fidedigno do que estamos tentando retratar. Essa é a única preocupação maior, porque com muitas outras ilustrações temos muita liberdade. Por exemplo, agora estamos fazendo uma matéria sobre a possibilidade de engravidar sem fazer sexo, e aí a gente tinha liberdade para fazer uma ilustração mais livre. Nesse caso fizemos um óvulo e um espermatozoide tomando banho numa banheira, em referência àquele velho mito do homem que ejaculou na banheira e engravidou a mulher. Para um infográfico, não faríamos isso, teríamos que pegar uma referência de como é o órgão sexual masculino e feminino e como seria todo esse processo.

Lab — Ainda falando sobre novas mídias, a ME mantem um cana no youtube com três programas semanas Programa Mundo Estranho, ME Responde, Contando Ninguém Acredita. Qual a importância que você avalia de se manter um canal nessa nova mídia, hoje tão difundida? Há novos planos nesse sentido?

É um processo inicial ainda, a gente está completando seis meses com esse tipo de produção, estamos numa curva de aprendizado, mas se percebe claramente como para o nosso leitor o impacto de ver um vídeo é bem maior que o de ler uma matéria. A busca por isso é sempre muito maior, só que ainda estamos tentando encontrar, dentro dos recursos que temos disponível para a revista hoje, a melhor maneira de adaptar esse conteúdo para vídeo, ainda estamos tentando encontrar essa fórmula. O benefício é claro, me parece evidente que o trabalho jornalístico vai inteiro migrar para vídeo, a parte de impresso vai ser cada vez menor. Não só impresso, mas a parte de texto na internet vai diminuir cada vez mais porque as pessoas leem cada vez menos.

Lab — Mudando um pouco de assunto, a ME é uma revista que apresenta a ciência para um público jovem. Como é esse desafio de transformar algo formal para que atraia o interesse desse público?  

Esse desafio é algo que faz parte da Mundo Estranho desde o começo, então, quando entramos aqui, talvez tenha um impacto inicial, eu imagino que para os repórteres que começam mais ainda, mas com o tempo você se acostuma. A grande questão da Mundo Estranho é que temos que explicar os conceitos de uma maneira rápida e direta, sem enrolação e do modo mais fácil possível para que o nosso leitor entenda. É um processo que já está quase no inconsciente da nossa parte; quando sentamos nas reuniões para conversar com os repórteres e com os designers, nós já estamos imaginando qual vai ser a melhor maneira de explicar isso. Às vezes, quando o assunto é elaborado, a gente já o pauta pensando dessa maneira.

Por exemplo, estamos preparando agora uma matéria para novembro para explicar as eleições nos EUA, que é um processo muito diferente do brasileiro, e, provavelmente, vamos fazer isso com personagens de quadrinhos, mais especificamente com vilões da DC. É para tentar prender o leitor num processo que de outra maneira seria muito duro, muito seco, é política, é um “bando de velhos” de 70 anos se candidatando para um cargo. Agora, se colocarmos o Coringa e o Lex Luthor tentando ganhar a presidência dos EUA, o interesse é outro. Enfim, isso é parte da fórmula editorial da Mundo e ela dá certo porque tentamos explicar da forma mais fácil, mais acessível possível, por isso usamos muito infográfico: mostrar é melhor que ler, que explicar pessoalmente, e buscamos também fazer uso dessas metáforas. Especialmente esse último ano nós temos feito muitas matérias sobre política porque os leitores estão interessados por isso, ao mesmo tempo em que se frustam quando encontram esse conteúdo em outras formas de mídia porque nem sempre entendem. Ou até mesmo história, por exemplo, que é uma ciência muito difícil de definir em certas especificidades, sempre tem um ponto e um contraponto, então, na hora de tentar explicar tudo isso, acaba ficando com muito rodeio, textos longos. A gente acha um jeito de ir direto ao ponto, ao cerne da questão e fazer isso de uma maneira simples para a pessoa que só quer entender como funcionam as eleições ela não quer um grande contraste de como isso mudou a democracia americana nos últimos 200 anos.

Marcel Nadale
Marcel Nadale

Lab — Agora, o diretor de redação da Superinteressante e da ME tornou-se o mesmo. Isso aumentou o trabalho dos editores da ME, já que o diretor possui duas revistas para coordenar? E você, como está há mais tempo, tem uma responsabilidade maior?

Sim, aumentou sim (risos), mas é uma faca de dois gumes. Nosso trabalho aumentou, sem dúvida nenhuma, provavelmente se você tivesse realizado essa semana de jornalismo há dois anos atrás e tivesse nos convidado, quem estaria falando com você seria minha diretora de redação, mas a partir do momento que ele assumiu (Dennis Russo, diretor de redação das duas revistas), ele fez a transição completa, falou “olha, não vou interferir no processo da Mundo, vocês que vão tocar isso” e a gente trabalha quase que com autonomia. As únicas coisas que fecho com ele são tema da matéria de capa e como vai ser a ilustração dela, o resto a gente tem praticamente 99% de autonomia. Então, por um lado, é complicado porque de fato a gente tem mais trabalho, sem dúvidas, mas por outro, a gente tem mais liberdade: as loucuras que a gente decidir fazer, a gente faz; os temas que quer abordar, a gente aborda.

Lab — Por último, uma pergunta sobre quadrinhos. Você já foi crítico nessa área e pode comentar um pouco sobre como está atualmente esse mercado no Brasil, sua evolução? Esse ano os Gêmeos ganharam o Eisner por “Dois Irmãos” e vários quadrinistas brasileiros hoje trabalham na Marvel e na DC. Como você avalia tudo isso, acha que o mercado de quadrinhos no Brasil vai deslanchar ainda mais?

Acho que o mercado de quadrinhos no Brasil já deslanchou e por uma série de fatores, primeiro porque não só o quadrinho brasileiro, como o quadrinho no geral foi finalmente entendido como uma forma de arte, de literatura válida. A cultura de quadrinhos, e agora falando especificamente de super-heróis, se tornou uma cultura mainstream, isso de uns 15 anos para cá, então não existe mais aquela coisa de olhar e pensar “bom, isso é coisa de criança/de nerd”, agora um pai de família anda com uma camiseta do Capitão América. Isso, simultaneamente com esse crescimento do mercado de quadrinhos no Brasil, dá mais margem para os criadores brasileiros também. Essa geração de artistas brasileiros talvez possa parecer recente, mas não é, ela já tem bastante tempo. O povo que está na DC e na Marvel hoje já esta lá a bastante tempo, desde a época que eu estava comprando quadrinhos, quando era adolescente, então é uma consolidação.

Na verdade, o que eu imagino é que vá crescer um pouco mais, a não ser que o mercado de livros no geral encolha, mas a perspectiva é que só aumente o espaço para quadrinhos. Como alguém que começou a comprar HQs com 12 anos, é surreal  você pensar o quanto se tem de editoras hoje publicando quadrinhos de todo tipo, evidentemente não só de super- heróis, até porque esse tipo de história só algumas editoras tem licença para publicar, mas quadrinhos de outros formatos, com outras temáticas vindas de diferentes países e com diferentes estilos. Enfim, é cada vez maior, é algo muito surpreendente para mim, que quando acompanhava quadrinhos tinha cinco editoras pequenas que publicavam, não era uma Companhia das Letras com um selo só de quadrinhos, sabe? É realmente surreal.


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