A Engenharia Genética e a criação de super-humanos

Entenda como essa ciência pode tornar realidade o que antes só era possível nas histórias em quadrinhos

Por: Lucas Martins (lcmartinsp@gmail.com)

Filme Capitão América: O primeiro vingador. Imagem: Reprodução
Filme Capitão América: O primeiro vingador. Imagem: Reprodução

Ao longo do século XX, período marcado pelas duas grandes guerras mundiais e pelo conflito ideológico entre Estados Unidos e União Soviética, a possibilidade de criação de supersoldados ocupou o imaginário das nações mais poderosas como uma ferramenta para se sobressaírem em relação aos seus adversários. O maior reflexo desse cenário na ficção está na criação, em 1941 pela Timely Comics, do personagem Capitão América, herói que ganha seus poderes através de um soro criado em laboratório com o intuito de lutar contra o Eixo na Segunda Guerra Mundial.

Com o desenvolvimento da engenharia genética e as novas descobertas nessa área ao longo dos últimos anos, a produção de habilidades especiais em pessoas apresenta-se cada vez mais como uma realidade possível, porém imersa em uma série de discussões acerca de questões éticas envolvendo o assunto. Conheça agora os principais aspectos que justificam a expectativa em relação aos super-humanos:

Experiências com animais

A espécie de gado “Azul” da Bélgica é conhecida pelos seus enormes músculos, sendo considerados os “halterofilistas” do mundo animal. Os touros chegam a pesar uma tonelada, e seus músculos são duas vezes maiores que os das outras raças bovinas. Sua origem remete ao século XIX, quando touros da raça Shorthorn do Reino Unido foram mandados para lá com o objetivo de aprimorar a estrutura muscular do gado nativo, que era principalmente leiteiro. Dessa maneira, a partir de uma seleção artificial, que cruzava apenas os animais mais musculosos, criou-se essa nova raça, popular pela qualidade de sua carne.

A raça bovina belga “Azul” é conhecida pelos seus grandes músculos
A raça bovina belga “Azul” é conhecida pelos seus grandes músculos

 

No ano de 1997, cientistas descobriram que a mutação na formação muscular desse tipo de gado originava-se da inibição do gene responsável pela secreção da proteína miostatina. Essa proteína age no organismo dos animais com o objetivo de limitar o crescimento do tecido muscular. Assim, no momento em que ela não é mais produzida, os músculos podem crescer livremente, como no caso da raça belga.

Utilizando-se desse conhecimento, foram feitos experimentos com camundongos, removendo a miostatina presente nesses animais. O resultado foi roedores muito mais musculosos, que continuaram fortes mesmo com o passar das semanas. Ainda foram feitos testes em ratos que receberam genes para produzirem mais energia em suas mitocôndrias. Eles ficaram hiperativos, correndo vinte e cinco vezes mais rápido e vinte vezes por mais tempo que ratos normais; além disso, a duração de suas vidas dobrou.

Comparação entre um camundongo normal (à esquerda) ao lado de um sem miostatina (à direita)
Comparação entre um camundongo normal (à esquerda) ao lado de um sem miostatina (à direita)

 

E nós, humanos?

Na perspectiva humana, não é possível contar com cruzamentos controlados, como no caso do gado belga. Dessa maneira, seria necessário alterar geneticamente todas as células de um possível voluntário para oferecê-lo certas vantagens, ou então modificar um ser humano quando ele for constituído por apenas uma única célula, ou seja, quando ele ainda for apenas um embrião.

A mutação de embriões humanos por meio da engenharia genética ainda é proibida em grande parte do mundo, por envolver questões éticas e morais. Ainda assim, cientistas chineses trabalharam com embriões que não poderiam gerar gestações e conseguiram apresentar mudanças em sua constituição genética. Por outro lado, a alteração de voluntários mostra-se mais trabalhosa, pois seria necessário o uso de um vírus contaminado com o gene desejável, sem a parte responsável por causar doenças, para que ele pudesse infectar todas as células do corpo. Apesar da dificuldade, o processo já foi testado em animais como macacos e cães e apresentou resultados.

Muito mais do que simplesmente fornecer habilidades especiais, a engenharia genética possibilitará o tratamento de doenças como a distrofia muscular, que causa a perda das fibras musculares com o passar do tempo em seus pacientes. Com os conhecimentos a respeito da miostatina, seria possível criar novos músculos para os enfermos. Porém, como toda descoberta cientifica também gera consequências indesejáveis para a sociedade, tais medidas poderão beneficiar ilegalmente atletas, atrás do chamado “doping genético”. Como forma de impedir o desenvolvimento dessa estratégia, um acordo internacional proibindo-a foi assinado no ano de 2004.


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