A carta de uma cientista (fascinada) viajante do tempo

Teoria do Caos: uma pequenina mudança imprevisível e aparentemente inofensiva no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas para um futuro

Por: Ana Carolina Aires (airesanacarol@gmail.com)

Imagem: Ana Carolina Aires | Jornalismo Júnior
Imagem: Ana Carolina Aires | Jornalismo Júnior

Fissurei-me por viagens no tempo quando assisti ao Efeito Borboleta. Não De Volta Para O Futuro, nem O Exterminador do Futuro. Efeito Borboleta. Filme antigo, tecnologia ultrapassada, quase milenar em relação a minha época. Talvez por conta da Teoria do Caos, talvez pelo fator drama, tudo pareceu muito plausível. O bater de asas de uma simples borboleta transformou-se no meu fascínio e a viagem no tempo, na minha loucura.

“Uma borboleta batendo as asas aqui, pode causar um tufão do outro lado do mundo”. O meteorologista, matemático e filósofo Edward Lorenz utilizou-se da alegoria para descrever dependências sensíveis às condições iniciais dentro da Teoria do Caos. Comecei a ver borboletas em todas as minhas ações.

Conjecturava: como poderia voltar no tempo? O que aconteceria se eu voltasse no tempo? Como seria se eu voltasse no tempo? Para todas as situações, a todo momento. Até que isso se tornou minha obsessão pessoal, profissional e existencial. Meus passatempos eram filmes de ficção científica de diversas eras da humanidade, em especial sobre viagens no tempo. Dedicava boa parte do meu tempo livre estudando uma Física diferente da que aprendia na universidade, buscando uma brecha em alguma teoria.

A possibilidade de uma viagem no tempo era considerada quase nula mesmo em meu tempo em que a tecnologia já tinha avançado um bocado, de formas inimagináveis no século XXI. Meus colegas de faculdade me deram vários apelidos que considerei carinhosos e motivadores, dentre eles, louca. O que você deve saber logo de início é que, certa vez, consegui e espero que esse relato seja eternizado, mesmo que eu acabe desaparecendo no espaço e tempo.

Em uma de minhas viagens, conheci Marc R. Reinganum que afirmou categoricamente que máquinas do tempo jamais existiram e jamais existiriam. Indaguei-o, perguntando como ele podia ter tanta certeza disso. Como todo Economista, racional e lógico, Marc achava que sabia de tudo e afirmou, categoricamente:

– Veja bem, minha cara. Se houvesse alguma máquina do tempo, as taxas de juros seriam nulas, já que tudo poderia ser previsto. Como elas são sempre positivas, é elementar que máquinas do tempo não existem, nunca existiram, nem nunca existirão.

Anos mais tarde, Marc publicou até mesmo um livro, intitulado “Is Time Travel Impossible? A Financial Proof”. Achei curiosa a falta de fé do século XXI na ciência. Algumas centenas de anos antes, o celular, o computador e algumas outras engenhosidades só existiam, também, na mente de sonhadores: roteiristas de filmes, escritores e “cientistas loucos”.

Enquanto estava fora do meu tempo, tentei interferir o mínimo. Eu sabia que podia jogar na Mega-Sena e tornar-me milionária com os números que eu sabia que seriam sorteados. Sabia que podia zerar as taxas de juros como Marc sugeria. Sabia que podia até mesmo fazer algum tipo de estupidez como matar Hitler antes de sua ascensão. Mas minha lealdade ao Efeito Borboleta, meu primeiro contato com as viagens no tempo impediu que eu interferisse em qualquer momento histórico emblemático ou até mesmo qualquer momento aparentemente banal.

Conheci Edward Lorenz e acompanhei de perto a Teoria do Caos sendo montada. Confesso que uma das únicas vezes que estive perto de gerar um Efeito Borboleta foi durante essa viagem no tempo. Lorenz era complexo e estava imerso em sua teoria, mas faltava-lhe as palavras para explicar a imensidão e importância do que havia criado. Angustiava-me vê-lo fazendo cálculos errados e montando equações sem sucesso. Achava que ele nunca chegaria a criar sua própria equação, a Equação de Lorenz.

Tivemos, de fato, um pequeno e sutil romance. Eu tinha uma enorme admiração pelo cientista Lorenz que tinha me trazido até ali, mas me apaixonei por Edward e isso quase me cegou. Passei muito tempo com Edward Lorenz, mas ele nunca soube a verdade sobre mim. Edward teve uma recaída, certa vez, e pensou em parar e desistir de sua teoria. Dizia coisas sobre fugir comigo e deixar a ciência de lado. Minha presença, mesmo sem interferir em suas pesquisas, quase destruiu o cientista que era Edward Lorenz. Desesperada, disse a ele:

– Sua teoria Edward… A equação… Ela expressa como simples e pequenas variações aleatórias podem gerar um efeito dominó. Isso eleva o grau de incerteza em eventos futuros, realimentando os graus de aleatoriedade. É como uma borboleta batendo as asas em Nova Iorque, causando um tufão em Tóquio.

Lorenz acabou se tornando Lorenz por causa de mim, uma viajante no tempo que só pôde viajar no tempo por conta da Equação de Lorenz. Para mim, essa era a melhor representação da Teoria do Caos. Richard Feynman, Nobel da Física em 1965, disse para mim em uma de nossas confidências – e posteriormente publicou em sua tese de doutorado – que os fenômenos são influenciados 50% pelo futuro e 50% pelo passado. E ele não podia estar menos correto.

Jamais me despedi de Edward Lorenz por medo de causar o Efeito Borboleta que ele havia acabado de inventar. Lorenz jamais me mencionou em seus escritos e tomou a frase para si. As memórias me deixam confusas e não sei ao certo se eu inventei o Efeito Borboleta ou se Lorenz o fez, já que li seus escritos no futuro e participei desses escritos no passado, com uma mente do futuro que já conhecia os escritos.

Conheci diversos séculos, diversos Físicos, Matemáticos e personagens Históricos. Conheci até mesmo outro viajante no tempo, muito conhecido e polêmico no século XXI. S.R., como quis identificar-se, foi flagrado em uma foto canadense de 1940 trajando roupas modernas e típicas do século XXI, muito diferentes do padrão da época.

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Reabertura da ponte de South Fork depois da inundação de novembro de 1940. 1941 – Ponte South Fork, Gold Bridge, B.C., Canadá (*) Fonte: http://www.ceticismoaberto.com/fortianismo/3485/um-viajante-do-tempo-flagrado-em-foto-de-museu

S.R. disse-me que era muito perigoso ficar brincando de viajar no tempo. Eu sabia, era claro. Mas outras pessoas não teriam o mesmo discernimento. Ele falava diferente de mim e pela experiência que tinha com a linguagem dos diversos tempos, pude ter certeza que vinha de um futuro distante do meu.

– Você deveria voltar e impedir-se de construir uma máquina do tempo. – Foi uma das únicas coisas que S.R. quis falar para mim – Sabemos de sua prudência, mas aqueles que colocarem as mãos sobre a tecnologia que você inventou, não se importarão com o Efeito Borboleta. E ambos sabemos que irregularidades crescem exponencialmente na Teoria do Caos.

S.R. não quis me dizer quem era. Nem de onde vinha. Nem como tinha chegado ali. Talvez eu fosse responsável por trazer pessoas do futuro para o passado, no futuro. A ideia de tornar-me importante e referendada quase subiu a minha cabeça. Mas depois de momentos de reflexão, percebi que não queria ser a nova bomba atômica do mundo: uma cientista que, sedenta por novas descobertas, criou a destruição.

Farei chegar até mim a cientista sonhadora e fascinada por viagens no tempo, fórmulas distorcidas da Teoria do Caos, com enigmas impossíveis de serem decifrados, inviabilizando qualquer sucesso na realização de uma viagem no tempo. Não ser capaz de construir uma máquina do tempo irá me consumir até o último dia de minha vida.

Provavelmente eu morra enlouquecida e frustrada em um sanatório. Mas faço isso pelo bem da humanidade que jamais foi capaz de entender com exatidão o efeito de suas ações.

Essa mensagem espero que seja encontrada algum dia, em algum lugar, já que a última viagem dessa máquina do tempo que em breve será somente uma ideia perdida na mente de uma cientista que nunca conseguirá criá-la é a viagem dessa carta.

Espero que compreendam e entendam a beleza de uma ciência que não pode existir.

E.V.A.

7 de outubro de 2998

 

Notas: (*) Descobriu-se recentemente que a foto é verídica e não houve nenhuma montagem. Nada se sabe sobre o paradeiro do “homem do futuro” retratado na foto. Uma das teorias mais aceitas afirma que tais trajes poderiam ser encontrados para comprar na época em que a foto foi tirada, mesmo que não fossem tradicionalmente utilizados; outras teorias acreditam que o homem seja realmente um viajante do tempo Você pode entender a história completa clicando aqui.


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