Já pensou se os marcianos nos encontrassem?

Por Ingrid Luisa (ingridluisaas@gmail.com)

morango marte 2
Ingrid Luisa | Comunicação Visual/Jornalismo Júnior

— Martin, levanta, você sabe que hoje é o seu dia de buscar água!!!

— Mas mãe, hoje é meu aniversário! — gritou um Martin indignado, ele se recusava a levantar de sua confortável esteira de palha no dia de seu aniversário de 17 anos.

— Filho, você sabe que não pode! Cada um tem um dia para buscar a água que eles nos doam e não podemos desobedecer as ordens, já expliquei isso mil…

— A senhora sempre fala isso mas nunca me explicou a real! — gritou o garoto, interrompendo a mãe — Porque somos submissos aqueles marcianos idiotas? Porque precisamos deles? — Martin gritava por debaixo da fina coberta de TNT — Eu cansei dessa vida!

A Mãe foi até o quarto do filho e falou com calma, da porta:

— Filho, levanta e vai, por favor. Você não pode se atrasar. Juro que quando você voltar eu conto toda a verdade. Vai ser seu presente de aniversário.

Martin retirou a cabeça da coberta e olhou para as cansadas feições da mãe, ela parecia mais preocupada que de costume e nunca tinha feito essa promessa de contar a “verdade”. Ele sabia que havia algo escondido, nas coisas antigas de seu falecido pai havia tecnologias que ele só via com os marcianos e nunca entendeu porquê. Levantou e deu um abraço apertado na mãe antes de calçar as alpargatas e pegar os baldes para ir buscar água.

Quando saiu de casa, fazia sol. Sua pele já ressecada nem sentia nada. Ainda da porta de sua casa, Martin avistava a enorme fila para buscar água. Ele era do turno das 10, e já eram 9:40.

Estava caminhando na direção à fila, seguindo a placa escrito “sassiruna”, marciano romanizado que significava “para lá”. De repente, alguém pula em seu pescoço pelas costas:

— Ahhh se não é o aniversariante do diaaaa!!! Parabéeeeeeeeens, mano!

— Bobby, oi. — falou Martin, olhando para trás — Brigado, cara, mas confesso ta odiando ter que pegar água desses marcianos retardados no dia do meu aniversário.

— Ahhh, esqueci que cê é revoltadinho. Eu já falei pra cê parar com essa baboseira, cara, os marcianos são mó bonzinhos nos doando água todo dia. Meu sonho é trabalhar na nave deles, cê sabe disso…

— Vai lá, puxa saco de ET, nunca trabalharia pra eles…

— Ahh, para! Vamo logo pra fila se não vamos ficar sem água! Mas antes, ia esquecendo do seu presente — falou Bobby, enquanto entregava um pacote feito a mão para o amigo.

Martin abriu e nem acreditava no que via, era a “fruta vermelha”. Eram elas, de verdade. Não uma, TRÊS! Uma delas tinha uma pequena mordida. Levantou o rosto, com os olhos mareados e olhou para o rosto sorridente de Bobby.

— Furtei de um babaca que tava com um pacote cheinho levando pra nave dos marcianos. O nome dela é “morango”, eu ouvi ele falando. Sei que você sempre falou da “fruta vermelha”, da sua obsessão pelo possível sabor dela, ai resolvi fazer um esforço para consegui pro seu aniversário. Desculpa, mas tive que experimentar e é insano. Algo ÚNICO, que não vem nem parecido na nossa ração. Confesso que quis comer todas, mas consegui resistir e deixar pra você — disse, gargalhando.

— “Morango”… Brigado, mano, sei nem o que dizer. Melhor que isso só o presente da minha mãe.

— Como assim, Martin? Melhor que a “fruta vermelha” que cê é tão obcecado?

— Ela vai me contar a verdade. A que eu sempre quis saber.

Bobby olhou curioso para um Martin que olhava para longe, como se fosse descobrir o mundo.

                                                                          …

Estava Martin e sua mãe de frente um para o outro, havia chegado o momento, ela começou:

— Então, filho, nós nem sempre vivemos assim.

— Isso eu sei, mãe. Certeza que antes tínhamos uma relação harmoniosa com os marcianos. Quero saber é como e porque viramos submissos a eles!

— Não, Martin, você não entendeu. Um pouco antes de você nascer, eles nem existiam para nós – Martin fazia uma cara de muito surpreso e já ia interromper a mãe, que foi mais rápida -, por favor, deixa eu terminar de contar, depois você fala. Há 17 anos, eu e seu pai eramos cientistas. Pesquisávamos os astros e como faríamos para encontrar vida em outros planetas. Sim, nós seres humanos eramos pretensiosos a ponto de achar que só havia a nossa forma de vida. Que a falta de oxigênio na atmosfera de Marte, água líquida ou mesmo os 60º graus negativos de lá eram motivos suficientes para nunca haver vida. Em 2095, um ano antes de você nascer, iria ser realizada a primeira expedição com humanos para lá, iriamos finalmente desvendar todos os mistérios do Planeta Vermelho. Mas eles nos acharam primeiro. Lembro como se fosse ontem da Nave Mãe se aproximando da atmosfera da Terra. Pensávamos que era um meteorito e realizou-se o procedimento padrão, enviar uma bomba para desfazê-lo em pedacinhos, mas ele não se desfez. E se aproximava. Achávamos que era o fim. Quando a nave adentrou a estratosfera, pousou sobre vários prédios. De lá saíram criaturas que nunca tínhamos visto. Você nunca viu um né, filho?

— Não, mas queria muito ver – respondeu um Martin boquiaberto com aquela história toda, parecia muito irreal para ele.

— Não vou nem tentar descrever, nem consigo. Eles gritaram comandos na língua deles, o “marciano” que você estuda na escola, mas na época era algo novo, totalmente diferente de qualquer dialeto que conhecíamos no mundo inteiro. Ninguém entendia o que eles falavam, e de repente ouvimos vindo da nave “somos…”, mas eles não conseguiram terminar a frase, nosso exército os atacou. As armas de fogo atravessavam os marcianos sem dano nenhum a eles. Era nosso fim. Eles nos viram como hostis, uma forma de vida perigosa e sem inteligência alguma. Descobrimos depois que era uma nave pacífica, que já tinha visitado planetas como Júpiter e Saturno, feito contato com as formas de vida de lá e ido embora na paz, fomos os únicos que atacamos. Nossa prepotência nos prejudicou novamente. A partir daquele dia, os marcianos passaram a nos explorar, retirar nossos recursos e nos deixar como escravos, trabalhando para fornecer ainda mais recursos para eles, e somente nos doando o necessário para nossa sobrevivência, como água e ração. Eles viciaram em morango. Sabe, a “fruta vermelha”? – Martin acenou um sim, mas ficou impressionado por a mãe conhecer seu objeto de obsessão e nunca ter comentado nada sobre. – Seu pai faleceu pois tentou estabelecer contato com eles para mudar essa situação, mas não foi bem visto. Desde então eu abandonei a ciência e vivo anonimamente, só querendo que você sobreviva.

Martin não acreditava. Nada daquilo fazia sentido. Os humanos achavam de verdade que eram os únicos seres vivos da galáxia? É arrogância que supera e atualiza as definições de “arrogante”. Ele não sabia o que dizer, sua mãe continuava a lhe olhar, tinha uma expressão triste e pra baixo. Ele levantou e abraçou a mãe. De toda a história, ele se perdeu em alguns termos que nunca havia ouvido como “estratosfera”, “oxigênio” e outros assim. Ele não havia visto nada disso na escola, lá só ensinavam a língua marciana e os trabalhos manuais necessários para se extrair recursos com desperdício zero. Tudo que ele sabia sobre Planetas eram o que as lendas contavam. Ainda atordoado, voltou-se para a mãe e falou:

— Mãe, eu vou resolver isso. Eles têm que entender que não somos hostis ou perigosos, e que podemos viver em harmonia como eles fazem com os jupiterianos ou saturnianos. Mas antes, tenho uma pergunta: o que exatamente um “cientista” faz?