Mulheres na ciência

Com falta de representatividade, as suas histórias são pouco conhecidas. Mas merecem ser contadas

Por Catarina Silva Ferreira (catarina.ferreirasilvs@gmail.com)

Catarina Silva Ferreira | Jornalismo Júnior
Catarina Silva Ferreira | Jornalismo Júnior

O que você quer ser quando crescer? Quantas vezes essa pergunta é feita a uma criança e nelas o sonho de se tornar cientista, astronauta ou policial são respostas que comumente esperamos dos meninos? Das garotas, esperamos coisas como professora ou bailarina, profissões que são genericamente associadas às mulheres.

Crescer, escolher e seguir uma profissão não são questões ligadas ao gênero, e sim às aptidões e gostos de cada um. Inúmeras mulheres descobrem suas habilidades em áreas consideradas masculinas. As ciências exatas são um exemplo claro disso, na qual muitas tiveram seu talento delegado a segundo plano.

Nomes não faltam, e vão desde a Idade Média até os dias atuais. Santa Hildegard viveu entre os anos 1098-1179 e foi canonizada pela Igreja anglicana por operar milagres. O que poucos sabem é que durante sua estadia no convento escreveu livros sobre botânica e medicina. Sua habilidade de cuidar de pessoas enfermas foi considerada milagrosa. Como o acesso às universidades foi restrito aos homens durante muitos anos, as mulheres eram geralmente instruídas em conventos, assim como Hildegard.

É comum estranhar nas aulas de matemática, física e química do colégio a falta de nomes femininos. Moças como Maria Gaetana (1718-1799), a primeira mulher a escrever um livro de álgebra, não são citadas. Essa falta de representatividade desestimula as potenciais cientistas e inventoras a seguirem as carreiras que realmente querem.

Poucos sabem que a primeira programadora do mundo foi Ada Lovelace (1815-1852). Ela auxiliou na montagem dos primeiros algorítimos conhecidos e também na invenção dos primeiros computadores. Nascida em 1815, criou e entre os anos de 1842 e 1843 notas sobre a máquina analítica de Babbage, que foram republicadas somente depois de mais de um século. Essa máquina foi reconhecida como o primeiro modelo de computador e as anotações de Lovelace como o primeiro algoritmo criado para ser aplicado nele.

Ada Lovelace, a primeira programadora do mundo. Imagem: Metro UK
Ada Lovelace, a primeira programadora do mundo. Imagem: Metro UK

Ada ganhou reconhecimento após sua morte. Hoje, na segunda terça-feira de outubro, é comemorado o “Ada Lovelace Day” que tem como objetivo lembrar os feitos do sexo feminino nas ciências, tecnologia, engenharia, matemática e outras áreas, encorajando mais mulheres a seguir este caminho.

A lista das mulheres que contribuíram para as ciências exatas não estaria completa sem a mãe da física moderna, Marie Curie (1867-1934). Ela foi a primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel, e a primeira pessoa a ser homenageada duas vezes com o prêmio. Seus estudos sobre radioatividade foram pioneiros, além da descoberta dos elementos rádio e polônio, entre outros feitos.

Brasileiras

No Brasil, Elisa Esther Habbema de Maia foi uma carioca que nasceu em 1921 e cursou engenharia contra a vontade dos pais e contra os padrões de sua época, pois o curso era considerado proeminentemente masculino. Suas contribuições foram importantíssimas no ramo da física, como a pesquisa que introduziu uma nova técnica nuclear no Brasil e foi aplicada em vários campos, tais como física nuclear, biologia e partículas elementares. Seu trabalho foi o único brasileiro selecionado para apresentação em plenário na Conferência Internacional de Átomos para a Paz (Genebra, 1955).

Outra compatriota foi Johanna Dobereiner (1924-2000), agrônoma que realizou pesquisas fundamentais para a produção da soja nacional. O estudo que realizou sobre fixação de nitrogênio no solo permitiu que mais pessoas tivessem acesso a alimentos baratos e lhe rendeu uma indicação para o Nobel de Química em 1997. Estima-se que suas pesquisas ajudem o Brasil a economizar 1,5 bilhões de dólares todos os anos, os quais seriam gastos em fertilizantes.

Johanna revolucionou o cultivo de soja no Brasil. Imagem: Papo de Homem
Johanna Dobereiner revolucionou o cultivo de soja no Brasil. Imagem: Papo de Homem

Manutenção da vida

Já na área da saúde, algumas personalidades como Elizabeth Arden (1884-1966), Virginia Apgar (1909-1974) e a brasileira Nise da Silveira merecem destaque.

A enfermeira Elizabeth Arden criou cremes para vítimas de queimaduras em sua própria casa, e posteriormente saiu a procura da fórmula para um hidratante de pele perfeito. Seu nome é até hoje utilizado numa marca de cosméticos, ramo no qual Elizabeth foi pioneira. Virginia Apgar é um nome extremamente importante para a obstetrícia. Ela criou a escala de Apgar, exame que avalia recém-nascidos em seus primeiros momentos de vida, e que, desde então, diminuiu as taxas de mortalidade infantil.

Já a psiquiatra Nise da Silveira lutou contra métodos de tratamento agressivos muito comuns na sua época. Durante a Intentona Comunista, em 1936, quando foi presa acusada de marxismo, ela teve contato com escritor Graciliano Ramos, que a transformou em uma personagem do livro “Memórias do Cárcere”.

Universitárias

Atualmente, as universidades nacionais estão cada vez mais repletas de mulheres que buscam respostas nos mais diversos ramos da ciência. Nomes como o da cientista premiada da Unipampa (Universidade Federal do Pampa) Daiana Ávila, que liderou um estudo sobre uma nova terapia para a Esclerose Lateral Amiotrófica, doença genética, degenerativa e sem cura, são destaque.

A pesquisadora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Karin Menéndez–Delmestre é uma autoridade reconhecida no campo da evolução de galáxias, buscando entender os processos de suas formações por meio de observações da Via-Láctea e de universos distantes.

A doutoranda da Universidade de São Paulo Raquel Pan foi entrevistada pelo Laboratório e contou um pouco de sua experiência na área acadêmica como profissional da enfermagem e como pesquisadora. Seu projeto foi recentemente premiado no exterior e mescla métodos antropológicos e etnográficos ao seu conhecimento técnico. “Minha tese de doutorado é sobre a reinserção escolar de crianças sobreviventes de queimaduras no contexto cultural brasileiro”, explica.

Pan falou um pouco sobre o papel da mulher em áreas científicas. Apesar do crescimento, a pesquisadora lamenta a falta de representatividade feminina em grandes congressos e na liderança de bancadas e projetos voltados para ciência e tecnologia.

Sobre a escolha de sua profissão, relata: “quando estava no Ensino Médio, lembro que pensei em fazer física e fui muito desestimulada por um professor. Não por não ser uma boa aluna, mas sim porque seria um ‘ET no meio de tantos homens’. Vejo que fiz a escolha certa ao optar por enfermagem, mas penso em quantas jovens podem ter ouvido o mesmo que eu ou até discursos piores”.

Raquel participou do 16th European Burns Association Congress (EBA Congress), na Alemanha. De um total de mais de 480 resumos, o seu trabalho ficou entre oito finalistas e ela foi premiada pela melhor apresentação oral. “O prêmio que recebi foi muito comemorado por todos os presentes no congresso, pois eu era enfermeira e de um país latino-americano em um congresso europeu com cerca de 48 nacionalidades presentes”, conta.

Formada em enfermagem pela USP, Raquel recebeu um prêmio internacional pela sua tese
Formada em enfermagem pela USP, Raquel recebeu um prêmio internacional pela sua tese. Imagem: Arquivo Pessoal

Assim, a doutoranda levanta dois pontos importantes durante a entrevista: um deles é que em questões acadêmicas ligadas a área da saúde, existe uma espécie de superioridade cultural dos trabalhos de medicina em relação às outras profissões, quando na verdade deveria haver uma multidisciplinaridade.

O outro ponto que levanta é o de uma questão relacionada a gênero dentro de sua profissão. Por estarem em uma área majoritariamente feminina, alguns homens que a exercem têm sua orientação sexual colocada em dúvida. Um preconceito infundado, uma vez que a carreira profissional não está relacionada a orientação sexual do indivíduo.

Por fim, Raquel deixa uma mensagem a outras mulheres, estudantes ou não, sobre o papel da mulher na área acadêmica.

“Não pensem que porque não têm uma condição social alta, não podem estudar ou fazer pesquisa. Sou de uma cidade pequena no interior de Minas Gerais, meus pais estudaram até o 3º ano do Ensino Fundamental, mas sempre me incentivaram e têm orgulho da minha profissão. Agradeço imensamente ao apoio deles e tenho orgulho de tudo que construíram. Estou no começo da minha carreira e ainda tenho muito o que aprender. O ponto de vista feminino é extremamente importante para a pesquisa, sobretudo na de cunho social. A sensibilidade, a persistência e a perspicácia da mulher fazem-na atingir resultados relevantes, podendo contribuir significativamente para o desenvolvimento social e científico. Precisamos lutar para mostrar para a população que as mulheres brasileiras também fazem ciência.”


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