A química usada para o mal

Entenda o funcionamento das principais armas químicas utilizadas nos grandes conflitos do último século

Por Lucas Martins Pareira (lcmartinsp@gmail.com)

Arma química é todo dispositivo que utiliza produtos químicos baseado nas propriedades tóxicas que eles contêm. Ela difere de armas convencionais ou nucleares pois seus efeitos destrutivos não são baseados na força explosiva. Possui o apelido de “bomba atômica dos pobres”, porque construir um artefato químico exige um custo muito menor se comparado a um artefato explosivo. Além disso, a abrangência desse conceito possibilita que diversas substâncias tenham potencial de se tornarem uma arma química. Saiba agora como funcionam as principais armas químicas usadas pelos seres humanos ao longo do último século, à luz dos eventos históricos.

22 de abril de 1915
A Primeira Guerra Mundial já dura quase nove meses. Em uma pequena cidade belga chamada Ypres, a Alemanha surpreende as forças aliadas com um lançamento de gás de cloro sobre seus soldados. O gás entra em contato com a água presente no corpo dos combatentes, e essa união origina novos compostos de caráter fortemente ácido. Logo, olhos, gengivas, e tudo aquilo que contenha água sofre terríveis lesões. O resultado são cinco mil mortos em apenas dez minutos, sem derramar uma única gota de sangue. O ataque, considerado o primeiro a se utilizar de armas químicas em larga escala na história dos conflitos bélicos, provoca indignação na opinião pública internacional.

12 de junho de 1917
A Primeira Guerra continua. A Tríplice Entente, formada por Reino Unido, França e o Império Russo, apresenta vantagem sobre seus adversários. Os alemães resistem, realizando contra-ataques. Ainda na cidade belga Ypres, que possuía trincheiras de combate, os germânicos investem contra as tropas britânicas por meio do agente mostarda.
Esse agente recebe esse nome devido ao seu cheiro e coloração. Ele é um composto volátil, ou seja, na temperatura ambiente passa do estado líquido para o gasoso facilmente, sem a necessidade de aquecimento. Esse gás atinge a pele dos soldados, formando bolhas. Em alguns casos, ele pode penetrar as células humanas, provocando mutações genéticas não reversíveis.

O ataque alemão é o primeiro a se utilizar do gás mostarda. Alguns meses depois, ambos os lados do conflito estariam fazendo seu uso. A única função prática desse agente é como arma química.

Soldados imersos em uma nuvem de gás mostarda durante a Primeira Guerra Mundial. Imagem da internet.
Soldados imersos em uma nuvem de gás mostarda
durante a Primeira Guerra Mundial. Imagem da internet.

3 de setembro de 1941
A Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial, assinou o Tratado de Versalhes, mergulhou em uma crise econômica. Hitler assumiu o poder. A Segunda Guerra Mundial atinge a Europa há dois anos. Seiscentos prisioneiros de guerra soviéticos são levados a um dos campos de concentração localizados na cidade polonesa de Auschwitz, maior símbolo do Holocausto e do horror nazista. Eles passam, então, pela primeira experiência genocida com o gás Zyklon B na cidade.

Os soldados soviéticos entram em uma câmara de gás. O Zyklon B, então, em contato com qualquer ácido, produz outro gás chamado cianeto de hidrogênio, ou apenas cianeto, esse sim extremamente tóxico para os seres humanos. O cianeto começa a ser expelido para dentro da câmara. As pessoas mais altas sentem seus efeitos primeiro, devido à baixa densidade do gás, o que faz com que ele seja mais leve que o ar. O cianeto paralisa a atividade das mitocôndrias dos prisioneiros, que são componentes das células humanas responsáveis pela produção de energia para as atividades do corpo. Como consequência, os soviéticos sofrem convulsões, sangram e sentem dores extremas. Em alguns instantes, eles desmaiam, e passados mais alguns minutos, eles morrem. Uma morte rápida e sem vestígios. O gás, criado inicialmente como um pesticida, é agora usado como uma arma de assassinato em massa.

20 de setembro de 1968
A Segunda Guerra Mundial já acabou há mais de vinte anos. O mundo se encontra dividido entre duas ideologias, em um período da História conhecido como Guerra Fria. A Guerra do Vietnã já dura treze anos. Oficiais do Pentágono confirmam em uma coletiva de imprensa o uso do agente laranja no território vietnamita desde 1961.
Em cada lançamento, o agente é despejado por aviões americanos, que sobrevoam as selvas vietnamitas. Ele recebe esse nome porque era guardado pelos soldados em tonéis cor-de-laranja. É um herbicida com caráter desfolhante, derrubando as folhas das árvores. Desse modo, o exército estado-unidense busca privar seus inimigos de fontes alimentícias. Além disso, facilita-se a invasão norte-americana, pois elimina possíveis esconderijos dos guerrilheiros vietnamitas no meio da vegetação.

Entretanto, não apenas as plantas são afetadas. Devido à pressa em sua utilização, o agente laranja é produzido sem seu grau de purificação adequado. Assim, produz um resíduo cancerígeno, de elevada toxicidade. Seu efeito é cumulativo, provocando danos cada vez piores a medida que o contato com ele é maior. Como resultado, diversas pessoas são atingidas por malformações, cânceres e síndromes neurológicas. Até o final da guerra, as tropas americanas expeliriam oitenta milhões de litros do herbicida sobre o território vietnamita.

8 de junho de 1972
A Guerra do Vietnã ainda acontece. Em um pequeno povoado do Vietnã do Norte, chamado Trang Bang, um avião do exército sul-vietnamita, em um ataque coordenado com o comando americano, lança mísseis carregados de napalm. O napalm é inflamável, o que facilita a combustão, provocando graves queimaduras nos habitantes do povoado. Kim Phuc, uma garota de nove anos, tem suas roupas e 65% de seu corpo queimado. O fogo das bombas alcança mil e duzentos graus.

O napalm também pode ser usado como coadjuvante em outros tipos de bombas, pois com elas forma o monóxido de carbono, gás altamente tóxico. O monóxido paralisa a ação das hemácias presentes no nosso sangue, que são responsáveis pela transmissão do oxigênio para todo o nosso corpo. Desse modo, ele provoca uma asfixia química.
Felizmente, Phuc sobrevive ao ataque, e sua fotografia, registrada pelas lentes de Nick Ut, choca o mundo e expõe os horrores da Guerra do Vietnã, que terminaria menos de três anos depois.

Kim Phuc, já com as roupas queimadas, fugindo de uma nuvem de napalm. Foto: Nick Ut
Kim Phuc, já com as roupas queimadas, fugindo de uma nuvem de napalm.
Foto: Nick Ut

16 de março de 1988
A Guerra Irã-Iraque se encontra no fim, após oito anos de confrontos. O regime Saddam Hussein utiliza armas químicas na cidade de Halabja, localizada ao norte do Iraque. A cidade, pertencente ao Curdistão Iraquiano, abriga grande número de curdos. O objetivo do ditador é removê-los da localidade. No ataque, é utilizado o gás sarin, um gás sem cor nem cheiro.

As pessoas que são atingidas pelo sarin têm inibida a destruição natural de um neurotransmissor, responsável por transportar informações entre nossos neurônios. Com essa destruição inibida, o neurônio entende que certa ação específica deve ser mantida, quando na realidade não deve. Na prática, os curdos sofrem rigidez muscular severa, sendo impedidos de se locomoverem. Com a demora do tratamento, alguns entram em coma ou deixam de respirar.
O ato, oficialmente considerado um genocídio contra o povo curdo, mata cerca de cinco mil pessoas, e é considerado o maior ataque de armas químicas contra uma área com população civil na História.

Presente
O massacre de Halabja impulsionou diversos países ao redor do globo a criar um pacto internacional banindo a produção, estoque ou uso de armas químicas. Em vigor desde 1997, a Convenção das Armas Químicas das Nações Unidas possui 189 Estados-membros. Apesar dos esforços, durante o conflito interno ainda em andamento na Síria, iniciado em 2011, surgem denúncias de uso do gás sarin em alguns incidentes. O governo do país acusa seus opositores, enquanto esses responsabilizam o ditador sírio Bashar al-Assad. Independente de culpados, o fato gera dúvidas sobre a possibilidade de um dia vivermos em um mundo onde as armas químicas não existam mais.

Agradecimento: Bruno Valle, professor de Química do Curso e Colégio Objetivo.


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