Verdades por trás das parassonias

A ciência explica três distúrbios do sono bizarros

Por: Letícia Fuentes (lepagliarini11@gmail.com)

Já imaginou acordar no meio da noite sem conseguir se mexer? Você está consciente, com os sentidos ativos, é capaz de sentir e ouvir tudo ao seu redor, mas não consegue movimentar nenhum membro ou gritar.

Episódios como esse têm nome: paralisia do sono. Junto com outros distúrbios do sono, caracteriza uma parassonia — ou seja, interrupções no padrão de sono saudável ocasionadas por movimentos anormais enquanto a pessoa dorme.

O estudante Gustavo Bandeira conta que já passou por isso. “Eu acordei no meio da noite meio consciente. Digo meio, porque na hora eu sabia quem eu era, mas não conseguia me mover”, relata. “Parecia que tinha um peso muito forte em cima do meu corpo, era como se ele estivesse sendo comprimido.”

Por conta dessa sensação de peso, muitas pessoas acreditam sentir uma presença maligna dentro do quarto. Na Idade Média, era comum a crença de que havia um demônio sentado em cima do corpo dos indivíduos durante o episódio, e algumas pessoas, quando conseguiam abrir os olhos, relatam que já chegaram a ver criaturas aterrorizantes. Mas será que isso é verdade?

A-aterrorizante-paralisia-do-sono

A neurologista do Centro de Diagnóstico Integrado de Neurologia e Medicina do Sono do Fleury Medicina e Saúde, Dra. Marina Cardeal, explica que a paralisia ocorre quando a pessoa desperta durante a fase REM (Rapid Eye Movement) do sono, estágio em que ocorrem os sonhos mais vívidos e os músculos estão imobilizados. “Assim a pessoa apresenta uma paralisia temporária do corpo imediatamente após despertar ou antes de adormecer”, conta.

Mas como explicar o fato de que algumas pessoas enxergam figuras estranhas enquanto estão paralisadas? “A paralisia do sono pode estar acompanhada de alucinações durante os episódios. A pessoa pode apresentar distorções visuais, auditivas e sensitivas, muitas vezes descritas como aterrorizantes”, esclarece a médica.

Apesar de não representarem nenhum risco aparente e durarem no máximo poucos minutos, quando os episódios de paralisia do sono começam a se tornar frequentes é importante procurar um especialista para investigar se eles não estão associados a outro distúrbio do sono, como a narcolepsia (sono súbito e incontrolável que acontece várias vezes ao dia).

Sonambulismo e terror noturno

dc264c929d69208bf2eb085c17d7e601-783x450

O sonambulismo e o terror noturno, apesar de diferentes entre si, são duas parassonias que funcionam de maneira semelhante. Ambas predominam em crianças de até 12 anos e costumam desaparecer naturalmente.

Apesar dos avanços na área de medicina do sono, a Dra. Cardeal afirma que as causas neurobiológicas desses distúrbios ainda não podem ser totalmente explicadas pela ciência. “Há fatores genéticos associados, assim como fatores emocionais como ansiedade, estresse e traumas emocionais. Quadros febris, mudanças do padrão de sono e medicações podem exacerbar estes eventos”, conta.

Ao contrário da paralisia do sono, o sonambulismo e o terror noturno são caracterizados por um despertar das funções motoras durante a fase Não-REM do sono, enquanto a pessoa permanece inconsciente. Dessa forma, o indivíduo pode apresentar comportamentos estereotipados e automáticos mesmo estando dormindo, como abrir os olhos, sentar, levantar, abrir portas, andar pela casa, subir e descer escadas.

Crying baby do not want to sleep

Enquanto no sonambulismo a pessoa movimenta-se com aparente normalidade, o terror noturno é marcado por comportamentos muito característicos, em que o paciente agita-se com fáceis de terror, grita desesperadamente, esconde-se atrás de móveis e apresenta manifestações anatômicas, como sudorese, taquicardia e rubor de pele.

Quando criança, o estudante Pedro Lodovico tinha frequentes episódios de terror noturno. Apesar de não se lembrar de muitas coisas, recorda que uma vez ficou parado em frente à porta do quarto dos pais. “Eu saí do meu quarto sem ter noção de onde estava; eu estava dormindo, comecei a andar e fui para a porta da minha mãe. Fiquei lá parado, com a porta fechada”, conta.

Regina, mãe de Pedro, lembra várias ocasiões em que o filho saiu chorando pela casa e ela não conseguia saber em que cômodo ele estava. “Uma vez nós ficamos procurando por muito tempo, escutando ele chorar. Achamos ele atrás do sofá, chorando, sentado”, diz. “A gente falava com ele e ele não respondia, só chorava. Levamos ele para o quarto e ele apagou como se nada tivesse acontecido.”

Um episódio de terror noturno pode durar de cinco a 20 minutos, e, diferentemente do que a crença popular diz, não é possível afirmar que o paciente está tendo um pesadelo. Como explica a Dra. Cardeal: “Em geral a pessoa não se recorda de sonhos. Quando se tenta acordar durante o evento, além de confusão, pode haver relatos simples e fragmentados de cenas amedrontadoras relacionadas ao evento de despertar”.

É importante salientar que não devemos tentar acordar a pessoa durante um episódio de sonambulismo ou terror noturno, pois, além de ser difícil, isso pode deixar o indivíduo confuso e agressivo. “É importante manter a calma, aguardar o término do episódio, proteger a pessoa de quedas e acidentes e conduzi-la de volta ao leito, até deitar e se tranquilizar”, explica a Dra. Cardeal.

Em relação aos tratamentos e às medidas preventivas que devem ser tomadas, a doutora salienta a importância da orientação familiar sobre o caráter benigno dos eventos. Algumas medidas de segurança devem ser tomadas para evitar acidentes, e, em casos mais graves, a consulta com um especialista para iniciar o uso de medicação pode ser necessária.


Tags: , , ,